Vias rápidas, centros cívicos, escolas, campos de futebol, centros de saúde, parques empresariais, piscinas e bairros sociais estão entre as múltiplas obras públicas que marcaram a governação social-democrata na Madeira desde 1978.

Nestas destacam-se as acessibilidades internas – algumas por concluir – para ligar a ilha de norte a sul, de este a oeste e que deixaram uma marca na paisagem que os críticos do presidente demissionário do Governo Regional da Madeira, Alberto João Jardim, lembram.

“Uma pessoa que tenha um mínimo de sensibilidade vê como uma terra com uma beleza natural extraordinária foi devastada, massacrada e completamente desfigurada”, disse à agência Lusa o jornalista Vicente Jorge Silva.

Para Vicente Jorge Silva, o Funchal “ainda aguenta porque tem uma beleza natural de tal maneira espetacular, com aquele anfiteatro, que absorve um pouco os horrores arquitetónicos e urbanísticos”, funcionando como “uma espécie de mata-borrão”, mas “quando se vai para o campo, que não tem essa capacidade de defesa, vê-se as coisas mais absurdas”.

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Ainda assim, o jornalista natural da Madeira reconheceu que houve obras importantes, como a ampliação da pista do aeroporto, há quase 15 anos, permitindo a aterragem de aviões de grande porte, ou a via rápida do aeroporto para o Funchal e, daqui, para a Ribeira Brava.

“Mas, a dada altura, a história dos túneis e das vias rápidas desfigurava também a Madeira. Parece um quadro de pintura metafísica de Chirico, que é uns viadutos suspensos no vazio, por acabar, montanhas esburacadas porque não acabaram os túneis. Todos esses, que eram supostamente para encurtar as distâncias, não encurtam coisa nenhuma, era só para fazer obra para ter o lóbi da construção civil sossegado”, observou.

De entre as obras públicas do “jardinismo” a mais criticada é, provavelmente, a marina do Lugar de Baixo, no concelho da Ponta do Sol, onde foram gastos cerca de 120 milhões de euros numa estrutura que está inoperacional e que Alberto João Jardim definiu como um “azar” do seu executivo.

“Foi o único azar que tivemos ali em 30 e muitos anos. Fiz 4.839 inaugurações, houve um azar”, declarou Jardim em dezembro último.

O antigo eurodeputado Nuno Teixeira reconheceu este como um “exemplo clássico” de dinheiro mal gasto.

“É óbvio que também existem situações em que, lamentavelmente, o dinheiro não foi bem gasto. É tão autista quem afirma que tudo foi mal feito como o que afirma que não houve nada mal feito”, referiu Nuno Teixeira.

O responsável notou que “existem em Portugal centenas de exemplos de má aplicação de dinheiro, alguns deles de um absurdo e ridículo atroz, da mesma forma que nos restantes países da União Europeia existem outros tantos exemplos que, em muitos casos, configuram situações de fraude e dão origem a devoluções de fundos”.

Nuno Teixeira recusou a ideia de que o “betão” passou a ser uma imagem de marca da Madeira, considerando esse “mais um mito urbano que se foi sedimentando na opinião pública nacional”.

“Confunde-se, deliberada e intencionalmente, um ciclo de grande prosperidade, onde se aplicaram os fundos comunitários recebidos e se concretizaram um conjunto de grandes obras públicas, que mudaram a face da região e contribuíram para um período de marcado desenvolvimento regional, com uma política de ‘betão’”, argumentou.