Título: O Mistério das Bandeiras Negras

Autor: Nuno Rogeiro
Editora: Verbo
Páginas: 256
Preço: 15,50€

MisterioBandeirasNegras

O mistério das bandeiras negras (Verbo, 2015), de Nuno Rogeiro, é uma história ‘provisória’ de um dos mais sanguinários e eficazes praticantes do terrorismo actual, o auto designado Estado Islâmico, uma análise da sua natureza e um retrato dos seus actuais contornos. É um ‘tema em evolução’, como é óbvio e como, à cautela, o autor avisa logo a abrir o livro. O livro publicado em princípios deste ano já tem uma segunda edição. Parece haver bastante gente interessada em desvendar este ‘mistério’. Nuno Rogeiro é sem dúvida um dos guias mais documentados e credenciados para a pormenorizada descoberta daquilo a que alguns preferem chamar Daesh, um acrónimo árabe que aparentemente irrita os próprios, ou DEDI, Dito Estado (porque manifestamente não é) Dito Islâmico (porque a maioria dos próprios muçulmanos não o reconhecem como tal).

Com efeito nem estamos perante um verdadeiro Estado (possui apenas algumas aparências de Estado e não é reconhecido por nenhum poder nacional ou internacional) nem, segundo abundam muitas autoridades religiosas e civis muçulmanas, perante nada de inequivocamente islâmico. Não estamos também, claro, como os factos passados e presentes mostram e talvez seja supérfluo repetir, perante um movimento que represente uma inexistente unanimidade árabe e muito menos muçulmana – que não seriam, convém notar, a mesma coisa; nem todos os árabes são muçulmanos nem, muito menos, todos os muçulmanos são árabes: o país com maior população muçulmana é a Indonésia (e uma sólida maioria de todos os muçulmanos do mundo é asiática) e uma das mais antigas e consistentes nações muçulmanas do mundo não é árabe: trata-se do Irão (antes conhecido por Pérsia), que, por sinal é uma grande potência regional e uma peça chave da geopolítica do Médio Oriente e da Ásia Central.

O Daesh (palavra que é apenas o acrónimo de Estado Islâmico da Síria e do Levante em árabe mas foneticamente, segundo parece, se confunde com palavras árabes depreciativas) é uma curiosa mescla, do ponto de vista ‘técnico’, que talvez se explique pela sua composição heteróclita, em que se juntam desafectos da Al Qaida do falecido Osama bin Laden, que em certos aspectos suplantou, e oficiais e soldados do antigo exército iraquiano, entre muitos outros contributos. Faz uma guerra simultaneamente guerrilheira e convencional. Não quer conquistar um Estado, nem parasita ou se acolhe a uma base ou santuário de um país ‘amigo’ ou submisso – quer criar e governar o seu próprio território a partir dos pedaços roubados aos países onde nasceu e alguns das vizinhanças, Síria, Iraque, Líbano, Jordânia, Líbia. Mas o seu objetivo não é fazer jus ao título de Estado – a grandiloquente auto designação não passa de uma questão de prestígio e, sobretudo, de propaganda. O que proclama é a instituição de um novo Califado, cujo império deverá ser universal (já é universal, nas proclamações próprias) e, para já, tem ramificações em numerosos países, com diferentes ambições e dimensão, da Nigéria à Europa, para não ir mais longe, onde recruta, cria células e pretende desenvolver a campanha terrorista de que já deu algumas amostras, a mais recente das quais nos recentes episódios de Paris ou Bruxelas.

Não é por acaso que a palavra labirinto aparece mais do que uma vez neste livro, que nos proporciona uma exaustiva e estonteante informação sobre os intrincados nascimento, desenvolvimento, organização, financiamento, armamento, operações, implicações geopolíticas regionais e personagens do ‘Estado Islâmico’ e sua nomenclatura, uma nomenclatura que bate muito de longe em extensão e confusão a dos romances russos do século XIX: é fácil perdermo-nos na vertiginosa ladainha dos milhentos Abu-qualquer coisa, Nabil, Radwan, etc., que povoam esta história. A movediça guerra civil entre os diversos credos islâmicos, com as suas subdivisões, lealdades tribais, crueldades fratricidas, reviravoltas e alianças de ocasião, é uma constante desde os primórdios do Islão, há quatorze séculos. Mas atinge agora um paroxismo e uma projeção que, ao contrário do que pode parecer na sua barbaridade, são um fenómeno da modernidade, que a modernidade e a ‘globalização’ tornaram possível.

Como argumentou John Gray no ensaio que publicou após o onze de Setembro, o actual ‘terrorismo islâmico’ é uma forma de ser moderno: a ‘salvação da humanidade’ que almeja, associada à criminalidade transnacional, ao negócio do petróleo, ao uso sofisticado das chamadas ‘redes sociais’ e de outras formas de comunicação como os vídeos de propaganda na internet, são coisas tão ‘modernas’ como todo o ‘terrorismo revolucionário’. Nuno Rogeiro chama a atenção, de passagem, para o misto de selvajaria e futilidade que as comunicações dos jihadistas evidenciam: para citar só um exemplo, num chat de jihadistas que vem referido no livro, discutem-se longamente preferências futebolísticas e há quem diga que ‘Lutar é mais divertido do que o jogo Call of Duty’; umas páginas atrás o autor de O mistério das bandeiras negras escreve também que ‘numa era de reality shows, onde multidões passam horas a espiolhar as casas de banho de cobaias humanas amestradas, as execuções do EI fecham o círculo das prosas bárbaras e fazem sentido’. Não desfazendo, impressiona pôr lado a lado, como fiz há uns anos, as fotografias de certos episódios famigerados da prisão americana de Abu Ghraib e os amontoados de gente nua fotografados por um artista contemporâneo muito cotado. Há um grupo que se intitula ‘Grande Roubo Automóvel’, ou seja GTA.

Os efectivos do Daesh são uma abigarrada mescla de etnias, nacionalidades e procedências. Não há uma população ‘nacional’ no DEDI; na sua maior parte as populações locais dos territórios temporariamente conquistados são escravizadas ou fogem. Mas um dos capítulos desta história que mais preocupa toda a gente em toda a parte (muito particularmente na Europa – ou ‘Eurábia’, com o seu ‘Londonistão’ e outras ‘capitais’ árabes) é o recrutamento de numerosos ‘combatentes islâmicos’ de origem europeia ou não europeia que, em qualquer caso, não são árabes nem de ascendência árabe. Os números são impressionantes, embora relativamente diminutos. Tão diminutos como, em termos estatais, os rendimentos do EI ou o seu exército de menos de meia centena de milhares de combatentes e demais pessoal. Ao todo (que se saiba, segundo os dados disponíveis), as ‘brigadas internacionais’ na campanha do Iraque e da Síria contam com uns milhares de jovens ou, raramente, menos jovens, ‘convertidos’ à guerra santa em países distantes da frente de batalha; a maioria vem de países do mundo árabe, com populações de muitas dezenas ou centenas de milhões de habitantes. Por outro lado, o número de ‘convertidos’ e activistas em cada país não tem uma correlação necessária com as dimensões da respetiva população árabe ou muçulmana.

If it bleeds, it leads, se sangra, vai para a primeira página – é uma lei da ‘comunicação social’ que constitui uma das mais fortes armas dos movimentos terroristas e insurreccionais. É bem conhecida do EI e dos seus congéneres e antecessores no uso da ‘bomba atómica dos pobres’, como já foi classificado o terrorismo. Já se chamou, aliás, à relação dos media com o terrorismo uma ‘relação simbiótica’. Vivemos num mundo em que o progresso aumentou exponencialmente a economia, a versatilidade e a potência dos recursos para tirar partido dessa lei. O DEDI é, também, mais um exemplo da sua implacável exploração.

Miguel Freitas da Costa foi secretário geral da Associação Portuguesa de Editores e Livreiros, e é crítico literário e tradutor.