Faz hoje 200 anos que se travou a batalha de Waterloo, várias vezes recriada pelo cinema desde os tempos do mudo. Eis os filmes mais destacados – e uma inesperada participação televisiva do Blackadder de Rowan Atkinson.

Episódio verídico, ocorrido durante a batalha de Waterloo, travada faz hoje exactamente 200 anos (os diálogos ficam em inglês, para manter o sabor original). Um estilhaço de morteiro leva uma perna a lorde Uxbridge, que comenta para o duque de Wellington: “By God, sir, I’ve lost my leg!”. Responde Wellington: “By God, Sir, so you have!”. (A perna de lorde Uxbridge foi posteriormente enterrada num jardim próximo e tornou-se numa atracção turística). Esta história ficou imortalizada no colossal “Waterloo” (1970), de Sergei Bondarchuk, o maior e melhor filme já feito sobre a batalha de Waterloo, uma co-produção ítalo-soviética. O seu fracasso comercial levou a que Stanley Kubrick desistisse do  monumental “Napoleon”, no qual trabalhou vários anos, e cujo material de pesquisa e arquivo foi editado em livro pela Taschen em 2011, com o título “Stanley Kubrick’s Napoleon: The Greatest Movie Never Made”.

A filmografia sobre Napoleão, e sobre as guerras e batalhas napoleónicas, é vastíssima, mas só uma pequena parte dela se refere ao lendário confronto de 18 de Junho de 1815, que marcou a derrota definitiva de Napoleão Bonaparte e do seu sonho imperial, o ocaso político-militar da França, o fim dos conflitos que ensanguentavam a Europa e outras partes do mundo desde 1791, a reconfiguração do mapa político, económico, social e cultural europeu e o início de uma era de décadas de paz relativa e de progresso técnico e material. Nesta data redonda, aqui fica o registo dos filmes mais significativos – e de uma curiosidade televisiva – sobre a decisiva batalha entre os franceses e as tropas da coligação.

“The Battle of Waterloo”, de Charles Weston (1913)

Realizado em Inglaterra, este filme mudo do cineasta britânico Charles Weston é, juntamente com “Un Épisode de Waterloo”, do francês Alfred Machin, rodado no mesmo ano, o primeiro sobre Waterloo, feito quase cem anos depois. Mas enquanto Machin foi manivelar a sua fita no próprio local da batalha, Weston  rodou em Inglaterra, numa zona do Northamptonshire que, diz-se, lembrava ao Duque de Wellington o terreno em redor de Waterloo. Dos 86 minutos originais de “The Battle of Waterloo”, sobreviveram apenas 22, descobertos em 2002 nos arquivos do British Film Institute e posteriormente restaurados.

Excerto de “The Battle of Waterloo”

“Waterloo”, de Karl Grüne (1928)

Uma grande produção alemã com o francês Charles Vanel no papel de Napoleão, “Waterloo” puxa pelos galões nacionalistas e centra-se no marechal Blücher, o comandante das forças prussianas na batalha, menosprezando a figura e o papel do Duque de Wellington (interpretado por um inglês). Blücher é personificado por Otto Gebühr, um actor então popularíssimo na Alemanha. Rodado na Baviera, o filme foi caríssimo e não deu lucro nas bilheteiras. Andou perdido até aos anos 90, quando o director da Cinemateca do Luxemburgo conseguiu uma cópia junto de um coleccionador. Pouco tempo depois, seria descoberta outra cópia nos arquivos da  Cinemateca Suíça.

Excerto de “Waterloo”

“Cem Dias”, de Giovacchino Forzano (1935)

Originalmente intitulada “Campo di Maggio”, esta grande produção italo-alemã foi a primeira recriação da batalha de Waterloo do cinema sonoro, feita sob a tutela de Benito Mussolini, grande admirador de Napoleão Bonaparte e co-autor, com Giovacchino Forzano, da peça homónima na base deste filme. Vittorio Mussolini, filho do Duce, cinéfilo entusiasta, crítico, argumentista e produtor (trabalhou, entre outros, com Visconti, Fellini, Rossellini, Antonioni e Mario Mattoli durante o regime fascista), colaborou no argumento. “Cem Dias” teve uma versão alemã, assinada por Franz Wenzler. A fita desapareceu após a queda do fascismo e o fim da II Guerra Mundial, restando apenas uma cópia de trabalho.

https://youtu.be/XBsv5xP_LW0

Excerto de “Cem Dias”

“Waterloo”, de Sergei Bondarchuk (1970)

O filme de referência sobre a batalha de Waterloo e um dos mais magníficos títulos de temática napoleónica da história do cinema, produzido por Dino de Laurentiis em associação com a Mosfilm, os estúdios oficiais do regime soviético e assinado por Sergei Bondarchuk, realizador afecto ao regime. Rodado na Ucrânia e em Itália, “Waterloo” contou com a participação de 17 mil soldados do Exército Vermelho e ainda de tropas jugoslavas e de 50 artistas de circo como “duplos”. Rod Steiger num Napoleão intenso e Christopher Plummer num excelente Wellington lideram o elenco internacional, onde surgem ainda nomes como Orson Welles ou Jack Hawkins. Os actores estrangeiros estiveram sob vigilância do KGB durante a rodagem em solo soviético. Foi para se fazerem filmes históricos com o sopro épico e o detalhe de época de “Waterloo” que o cinema também foi inventado.

“Trailer” de “Waterloo”

Excerto de “Waterloo”

“Blackadder Back and Forth” , de Paul Weiland (1999)

Em 1999, Rowan Atkinson fez um “especial” da genial série “Blackadder”, para assinalar a passagem do milénio. Em “Blackadder Back and Forth”, os descendentes de Blackadder, Baldrick e das restantes personagens da série juntam-se numa festa de final de milénio, em Londres. Blackadder aproveita para testar a sua nova máquina do tempo, viajando com Baldrick para o passado e para o futuro e alterando desastradamente o curso da História. Numa dessas viagens, aterram em cheio na batalha de Waterloo, com consequências para o futuro da Inglaterra e da Europa que se revelarão tão catastróficas como hilariantes.

https://youtu.be/2vAvoaOaJNM

Excerto de “Blackadder Back and Forth”