Os cinco melhores

Submissão, de Michel Houellebecq (Alfaguara)
O que me interessou na obra do escritor francês não foi a sua provocação – um Presidente muçulmano eleito por uma espécie de “frente republicana” anti Marine Le Pen. O que me interessou foi o retrato cruel, mas no essencial verdadeiro, da cobardia moral das elites, a forma como se “adaptam” desde que, no fim, lhes conservem as mordomias. Submissas, mas ufanas.

A Quarta Revolução – A corrida global para reinventar o Estado, de John Micklethwait, & Adrian Wooldridge (D. Quixote)
É um tema a que se regressa e regressa: o que permitiu o domínio global da Europa, e depois dos Estados Unidos, nos séculos XIX e XX? Estará esse domínio a acabar? Qual o papel do modelo de Estado nesse triunfo e no potencial declínio? Um livro desafiante que nos obriga a olhar para o aparente sucesso de modelos como os que estão a surgir na Ásia.

Magnífica e Miserável: Angola Desde a Guerra Civil, de Ricardo Soares de Oliveira (Tinta-da-china)
Um estudo a sério, bem fundamentado, sobre a evolução de Angola nas última décadas, fruto da investigação de um cientista político português que lecciona na Universidade de Oxford. É um livro lúcido, frontal, muito bem informado, indispensável para compreender a complexidade de um país e o modo de funcionamento da sua elite – uma elite cuja presença e modo de acção também sentimos, e de que forma, em Portugal.

KL. A História dos Campos de Concentração Nazis, de Nikolaus Wachsmann (D. Quixote)
70 anos depois do fim da II Guerra Mundial, da derrota da Alemanha e da descoberta da sua rede de campos de concentração, entre dezenas de obras que, só este ano, foram editadas sobre o Holocausto, o que distingue KL? O seu carácter exaustivo, o ciclópico trabalho de investigação, a ambição de dissecar com o bisturi do historiador todo o imenso sistema montado pelas SS, tudo contribuindo para tornar este livro numa obra de referência instantânea, a partir de agora tão incontornável como, por exemplo, um clássico como The Destruction of the European Jews, de Raul Hilberg.

Black Earth: The Holocaust as History and Warning, de Timothy Snyder (Penguin Random House)
O autor do notável Terra Sangrenta regressa aos campos da Polónia e da Ucrânia para nos contar como foi aí, e não na Alemanha propriamente dita, que começou o extermínio sistemático dos judeus. Com uma visão desafiadora do anti-semitismo de Hitler, mostra também como ser judeu na Europa do Leste e na Rússia ocupada se revelou quase sempre fatal, ao contrário do que aconteceu noutros países ocupados pelos nazis. Livro com uma tese, desafia-nos mesmo se essa tese “ecológica” não nos convence completamente.

O pior

António Ferro: O Inventor do Salazarismo, de Orlando Raimundo (D. Quixote)
Já se sabe: livros com Salazar no título vendem. Não interessa que, como é o caso, se baseiem quase exclusivamente em clichés e ideias feitas, como de resto já sucedia em obras anteriores do autor. Até pode não ser o pior livro com Salazar na capa que saiu este ano, mas foi o que me deu em ler. Infelizmente.

[Veja nesta fotogaleria as capas dos livros escolhidos por José Manuel Fernandes]

6 fotos