Vem aí o quinto capítulo da saga “Leonardo DiCaprio desesperadamente à procura do Óscar”. Nomeado cinco vezes (incluindo este ano) nas categorias de representação, o ator recebeu a primeira nomeação em 1994, pelo seu desempenho em “Gilbert Grape”, onde contracenou com Johnny Depp, também ele ainda à espera do reconhecimento da Academia. De então para cá, não se pode dizer que DiCaprio tenha escolhido más companhias. Aliás, os filmes em que participa são como penínsulas cinematográficas rodeadas de estatuetas douradas por todos os lados menos por um. Esse, o de DiCaprio.

Vejamos: foi o par romântico de Kate Winslet (1 Óscar, embora só em 2009) em “Titanic” (onde entrava a oscarizada Kathy Bates) e “Revolutionary Road”; teve a companhia de Jeremy Irons (1 Óscar) em “O Homem da Máscara de Ferro”; esteve com Tilda Swinton (1 Óscar) em “A Praia”; foi atrás de Daniel Day-Lewis (3 Óscares) em “Gangues de Nova Iorque” e foi perseguido por Tom Hanks (2 Óscares) em “Apanha-me se Puderes”; em “O Aviador”, Cate Blanchett conquistou a sua primeira estatueta; em “The Departed – Entre Inimigos” era um polícia infiltrado no bando de Jack Nicholson (3 Óscares); contracenou com Jennifer Connelly (1 Óscar) em “Diamante de Sangue”, com Russell Crowe (1 Óscar) em “O Corpo da Mentira”, com Ben Kingsley (1 Óscar) em “Shutter Island”, com Marion Cotillard (1 Óscar) e Michael Caine (2 Óscares) em “A Origem”, com Judi Dench (1 Óscar) em “J. Edgar”, com Jamie Foxx (1 Óscar) e Christoph Waltz (2 Óscares) em “Django Libertado”, com Matthew McConaughey (1 Óscar) e Jean Dujardin (1 Óscar) em “O Lobo de Wall Street”.

Também impressionante é a lista de realizadores premiados com os quais trabalhou: Woody Allen, Steven Spielberg, Sam Mendes, Clint Eastwood e Alejandro González Iñárritu, aos quais se juntam Danny Boyle e Martin Scorsese, embora estes dois só tenham conquistado o Óscar alguns anos depois de terem trabalhado com DiCaprio (e há quem diga que o ator foi fundamental para que Scorsese fosse finalmente premiado pela Academia).

DiCaprio perdeu Óscares para Tommy Lee Jones (Melhor Ator Secundário, 1993), Jamie Foxx (Melhor Ator, 2004), Forest Whitaker (Melhor Ator, 2006) e Matthew McConaughey (Melhor Ator, 2013), todos eles galardoados pela primeira vez nessas ocasiões. Esta noite, enfrenta a concorrência de dois galardoados (Eddie Redmayne e Matt Damon, este como argumentista) e de dois atores à procura da primeira noite de glória (Bryan Cranston e Michael Fassbender). Se DiCaprio, que desta vez é o favorito, sair derrotado, estará na hora de pensar em categorias especialmente inventadas para ele. Mas será que ganharia?

Melhor Polícia Infiltrado: DiCaprio vs. Johnny Depp

Confronto entre dois eternos derrotados, mesmo que relativamente jovens. Estiveram juntos em “Gilbert Grape”, filme que deu a primeira nomeação a DiCaprio, somam oito nomeações em conjunto e zero Óscares. Quando desempenharam o papel de polícias infiltrados em redes criminosas (Depp em “Donnie Brasco” e DiCaprio em “Entre Inimigos”) nem sequer foram nomeados. Na companhia de grandes atores (Al Pacino e Jack Nicholson, respetivamente), ilustraram exemplarmente a missão de sacrifício e os dilemas morais dos seus personagens.

Veredicto: Johnny Depp — fora do universo gótico de Tim Burton e do cartoonesco Jack Sparrow de “Piratas das Caraíbas”, este é o seu grande papel “adulto”. Sentimos a deterioração do casamento e a dor por ter de trair o criminoso de quem se tornou amigo. DiCaprio em “Entre Inimigos” não arranca um desempenho tão convincente. Derrota para DiCaprio.

Melhor personagem de um romance de Dennis Lehane: DiCaprio vs. Sean Penn

“Shutter Island” foi a primeira colaboração entre DiCaprio e Scorsese após “Entre Inimigos”. O filme é baseado no romance de Dennis Lehane, um escritor que estava em alta em Hollywood depois das bem-sucedidas adaptações de dois livros seus, “Mystic River” e “Vista Pela Última Vez”. O cenário do romance – um hospital-prisão psiquiátrico nos anos 50 – era muito diferente da Boston dos rufias irlandeses (onde também decorria a ação de “Entre Inimigos”) dos outros dois e a realização de Martin Scorsese acentuou o ambiente mais próximo do terror psicológico-paranóico, série B, do que dos policiais realistas. Essa diferença joga a favor não só de Sean Penn como de todo o elenco de “Mystic River”.

Veredicto: Sean Penn — temos pena, mas no filme de Clint Eastwood, Sean Penn é absolutamente credível como ex-presidiário, homem e marido reabilitado, pai extremoso e vingador. Parece uma pessoa de carne e osso, cheio de contradições, com a ternura violenta dos duros. Em “Shutter Island”, DiCaprio é apenas um bom personagem de cinema. Bola para o menino bonito.

Melhor Vingador do Pai: DiCaprio vs. Hailee Steinfeld

A primeira vez que DiCaprio se juntou a Scorsese foi em “Gangues de Nova Iorque” que é, acima de tudo, uma história de vingança: o jovem Amsterdam Vallon vai à procura de Bill The Butcher Cutting (um Daniel Day-Lewis em descontrolado overacting), o homem que assassinou o seu pai. Em “Indomável” (“True Grit”), Hailee Steinfeld é Mattie Ross, uma rapariga que, com o auxílio de um xerife zarolho também procura vingar a morte do pai. “Gangues” foi a carta de alforria de DiCaprio, onde demonstrou que podia juntar à star quality o poder para escolher os realizadores com quem lhe interessava trabalhar. De alguma forma, esse esforço para dar o Grito do Ipiranga nota-se no seu personagem, um fedelho a lutar pelo respeito dos adultos.

Veredicto: Hailee Steinfeld – na adaptação de 1969 (“A Velha Raposa”), Mattie Ross dava a arma ao xerife para que este matasse o assassino do pai e o filme era mais sobre John Wayne. Na versão de 2010, Mattie ganha outra preponderância e é ela que trata do assunto. É verdade que Amsterdam faz o mesmo, mas impressiona ver uma rapariguinha de catorze anos a assumir as despesas do jogo. Dos dois, ela é que mostra ter verdadeira “grit”. Outra derrota para Leo.

Melhor Gatsby: DiCaprio vs. Robert Redford

Este é de decisão difícil porque quer DiCaprio, quer Redford, parecem ter nascido para encarnar Jay Gatsby, o herói trágico de F. Scott Fitzgerald. Desempenharam o papel praticamente com a mesma idade (à data de estreia Redford tinha 37 anos e DiCaprio 38) e ambos conciliavam o ar de típico galã de Hollywood com respeitabilidade artística. Os dois filmes reproduzem as características dos seus atores principais: mais espampanante a versão de 2013 (não esqueçamos que o realizador é Baz Luhrmann), mais pausada (podemos mesmo dizer hirta) a dos anos 70, com argumento de Francis Ford Coppola, que acusou o realizador de o ignorar completamente. Mesmo assim, o filme de Luhrmann é um fato à medida de DiCaprio. Os dois já tinham trabalhado na adaptação de Romeu e Julieta e o ator não fica nada mal no meio dos restantes efeitos visuais de que o realizador tanto gosta.

Veredicto: Leonardo DiCaprio — ele é o verdadeiro Jay Gatsby não porque seja mais fiel ao personagem de F. Scott Fitzgerald, mas por ser fiel ao espírito do filme: pródigo, extravagante e excessivo. Como ambos os filmes ganharam o Óscar de Melhor de Guarda-Roupa também se pode dizer que DiCaprio cumpriu com maior brilhantismo o papel de cabide.

Melhor Lobo de Wall Street: DiCaprio vs. Michael Douglas

Para muitos é o melhor desempenho da carreira de DiCaprio. O seu Jordan Belfort, um corretor da Bolsa que faz fortuna à custa da ingenuidade dos seus clientes e das fraquezas do sistema financeiro, é alegre, despreocupado e amante dos prazeres da vida, um pouco como imaginamos que DiCaprio seja na vida real. Apesar de todas as patifarias, incluindo o arremesso de anões em ambiente de trabalho, torcemos por Belfort. Mas se ele é o lobo, Gordon Gekko é o verdadeiro tubarão, o predador por excelência. Enquanto Belfort é amoral, Gekko é o papa maquiavélico da trapaça bolsista. “Greed is good” é inultrapassável.

Veredicto: Michael Douglas — por muito que admiremos o retrato que DiCaprio fez de Belfort e sejamos contagiados pela sua energia, Gekko é o demónio do capitalismo moderno e Douglas foi recompensado com um justíssimo Óscar. DiCaprio também perderia este.

Bruno Vieira Amaral é crítico literário, tradutor e autor do romance As Primeiras Coisas, vencedor do prémio José Saramago em 2015