O primeiro dia é sempre de cumprimentos e de reconhecimento do terreno, a música está lá mas sabemos que nos outros dias haverá mais. Ainda assim, o rali inicial cumpriu-se com banda sonora: entre o concerto sinfónico e o tarraxo. São 40 anos de Avante e a Festa vai até domingo, mas desde o primeiro momento que a aposta é a de sempre: ir a todas, incluindo uma nova entrada e mais um pedaço de recinto.

Apesar da novidade, regressamos ao passado rapidamente, até à memória de edições às cavalitas dos pais, com os Tocá Rufar, tambores que sempre nos trataram bem, funcionam como um ritual de passagem e, como quem sabe nunca esquece, toca de animar a gente da velha-guarda, os que se aproximam do palanque onde Jerónimo de Sousa vai dar o discurso de arranque.

Por falar em tradições falemos de uma que aos jovens pertence: lá vem o corso da JCP em direção às palavras do líder do seu partido. E sendo a rapaziada, por norma, rama mais afiada torna-se já habitual ver este género de picada: “Aumenta o som, baixa o IVA”, lê-se no cartaz à frente. São 19 horas e assim começa o primeiro dia do Avante, com um pedaço de política e não tanta música. Aguardemos que isto vai ao sítio.

Ver as modas

A ordem é para subir, ainda que cá em baixo, na entrada da Quinta do Cabo, um grupo de espanhóis nos trave o passo junto ao espaço do Algarve. “Isto antes não era assim”, atira Pablo Ruíz, o pai desta família numerosa. Meter o bedelho faz parte da curiosidade de profissão e rapidamente percebemos que a frase se referia a esta zona renovada. Acertámos na mouche, vêm quase todos os anos de Mérida: “Sim, vimos sempre, salvo um ou outro ano. É uma festa bonita, como poucas, e não podíamos perder os quarenta anos da Festa”, avisa o chefe do clã, de 53 anos, que apesar da simpatia depressa nos despacha. “Temos que ir jantar e beber uns copos antes dos concertos”. Ora bem.

Largamos o Sul, cumprimos essa espécie de volta à Portugal que é percorrer o Avante de uma ponta à outra. Lá bem em cima paramos na zona internacional, onde a mistura de cultura é sempre caricata. A cumbia serve de banda sonora ao rodopiar do espeto na banca da Palestina, os kebabs vão saindo bem. Descemos para juntos do Palco 25 de Abril, bem no centro do recinto, onde muitos se vão deixando ficar, ainda que o ensaio geral para o concerto de abertura já tenha terminado. A verdade é que o sol, naquela altura, canta baixinho e a sombra pede convívio na relva.

A Festa também é isto, debater assuntos sérios com a mesma disposição com que se comenta o boné com ventoinha do rapaz de vermelho. A prova de que a loucura nem a todos convém é Manuel Pacheco, 73 anos, que regressa a uma casa onde já não vinha há seis: “Por acaso vinha cá sempre, depois a minha mulher ficou doente e nunca mais. Infelizmente faleceu e este ano pensei que tinha de mandar a saúde às urtigas”, confessa escondendo a vergonha debaixo do chapéu mal amanhado. O reformado da Moita segreda-nos ainda que a efeméride dos 40 anos do Avante pouco lhe diz: “Quero lá saber disso, venho cá ver as modas, passar um bom bocado e sair da minha zona”.

“Se tenho partido? Achas?”

Seguiu-se um lombo fumado com broa em Viana do Castelo, ainda que tenha sido com mágoa que abdicámos do choco frito de Setúbal, depois de este nos seduzir pelo caminho. Quanto menor a fila, melhor a iguaria, a mais eficaz das políticas. A digestão do jantar faz-se com uma passagem pelo lago, onde os mais jovens se apropriam das margens do lago.

É aí que encontramos um grupo seis de amigos sentado à volta da fogueira, uma fogueira de garrafas de plástico entenda-se, daquelas que têm tudo menos sumo. Bruno Vinagre, 17 anos, assume-se como porta voz do grupo que vem de Setúbal. Interrogámo-lo enquanto ajeita o panamá que enverga para se esconder da lua. “Se tenho partido? Achas? Vim aí porque curti o ano passado e este ano não ia perder Dillaz, vai ser muita bom. Se calha ainda vejo Carlão, o gajo vem com o Sam [The Kid], pode ser que seja bacano”, conclui divertido.

São 21h30 e a “Carvalhesa” leva-nos ao epicentro do Avante, pista de dança aberta sobre o Palco 25 de Abril. Esta que é uma cartada infalível na hora de puxar camaradas menos despertos. Chamar festival ao Avante é tarefa árdua, não se veem bancos de praias ou cadeiras de plástico noutro evento com esse nome. E certamente também não se vislumbra um concerto de orquestra do outro lado. Mas há palcos, música, comida e bebida — e muita gente. Como assim, “não é um festival”?

Da orquestra ao baile

O “Concerto Sinfónico Para um Glorioso Aniversário” varia entre Bizet, Verdi, Beethoven e Lopes-Graça, numa bela versão de “Acordai”. Tudo isto através da Orquestra Sinfonietta de Lisboa liderada pelo maestro Vasco Pearce de Azevedo com a ajuda do Coro Sinfónico Lisboa Cantat, orientado pelo maestro Jorge Carvalho Alves. E ali na frente há amantes de kizomba ou de metal para apreciar música erudita, há duas raparigas vizinhas de concerto que dançam qualquer melodia como se fosse a “Carvalhesa”. Ao menos arriscam, não desistem como aqueles que são sugados pelo baile-funk que sai do bar de cachaça junto ao lago. Esses já cá não moram.

Um desvio até ao Auditório 1º de Maio. E é drástica, a provocar tonturas, a mudança para esta paragem. O baile está aberto e aceitam-se voluntários, cada um com o seu par, puxa-me-que-eu-vou é o lema da herança são-tomense que nos acelera o passo. Estamos à “Onda de Sons Lusófonos”, série de concertos que exploram as sonoridades de vários países africanos até tocar o sino da saída.

Adensa-se o calor, abaixo as regras e os formalismos, São Tomé e Príncipe e o Avante dão-se lindamente. Cozinha-se a morna em palco, aquele género de energia que até faz sair da carapaça um pé de chumbo com falta de autoestima. Cabo Verde, Angola, até à tarraxinha, que sobe e desce de sorriso largo, é uma bela imagem para recordar este primeiro dia. Aquele arranque meio cheio que é comum nestas ocasiões, para que a multidão se apegue ao espaço, decore os atalhos para as casas de banho, a melhor bifana, a imperial mais fresquinha. Sábado e domingo há mais, até já.