Cinema

“Vaiana”: a princesa Disney da Polinésia, o semideus e o galo

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John Musker e Ron Clements, autores de sucessos como 'A Pequena Sereia' e 'Alladin', assinam a nova animação da Disney, passada nos Mares do Sul há dois mil anos. Eurico de Barros dá-lhe três estrelas

Autor
  • Eurico de Barros

Nos anos 80 e 90, a dupla de realizadores John Musker e Ron Clements, sob a batuta de Jeffrey Katzenberg, tirou a animação da Walt Disney do fundo do poço em que tinha caído e voltou a pô-la no lugar cimeiro do pódio, graças a longas-metragens critica e comercialmente triunfais, cobertas de Óscares e outros prémios, como “A Pequena Sereia”, “Alladin” ou “Hércules”. Ao mesmo tempo, com a personagem da sereia Ariel, redefiniram o modelo da “Princesa Disney” para o nosso tempo. Mas após o fracasso de “O Planeta do Tesouro”, em 2002, Musker e Clements foram muito pouco amavelmente “convidados” a deixar a Disney. Regressariam pela porta da frente logo depois, com a nomeação de John Lasseter, da Pixar, recém-adquirida pela Disney, para Diretor Criativo de Animação do estúdio, e realizaram, ainda em animação tradicional, o sucesso “A Princesa e o Sapo” (2009).

[Veja o “trailer” de “Vaiana”]

“Vaiana” (“Moana”, no original), a nova longa-metragem animada da Disney, é a primeira inteiramente digital e em 3D realizada por Clements e Musker, que mesmo assim conseguiram preservar a animação tradicional nalguns elementos do filme. É o caso do oceano que interage com a jovem heroína, desenhado à mão a bem da subtileza e da expressividade que os realizadores desejavam e que o “software” dos computadores não consegue transmitir. Passado na Polinésia há dois mil anos, “Vaiana” é a história da princesa adolescente do título, filha do chefe de uma tribo que vive feliz numa ilha paradisíaca. Quando a existência do seu povo é ameaçada por uma força maléfica ancestral, Vaiana, “escolhida” pelo oceano para conseguir grandes feitos, desafia as ordens do pai de não navegar para lá do recife de coral, e de posse de uma jóia mágica, o Coração de Te Fiti, vai à procura do semideus Maui, que a roubou originalmente à deusa do mesmo nome, para que ele ajude a devolvê-la e tudo volte ao normal.

[Ouça a canção-tema do filme, o “hino” de Vaiana]

Musker e Clements percorreram o Sul do Pacífico para preparar o filme e dar-lhe o máximo de autenticidade em termos culturais, antropológicos, mitológicos, visuais e até no que respeita ao fantástico dos povos dessa região do planeta, integrando tudo na sua identidade animada. Neste aspecto “Vaiana” é completamente conseguido, desde a personalidade visual até às histórias e lendas que enformam a narrativa, da luxuriante paleta de cores da terra e do mar à caracterização das personagens. Em especial a de Maui (voz de Dwayne “The Rock” Johnson), cujo corpo tradicionalmente tatuado conta a história dos seus feitos, incluindo um mini-Maui com autonomia para circular por todo o seu físico e que funciona também como consciência moral do camaleónico e gabarola semi-deus, qual Grilo Falante tatuado.

[Veja os bastidores de “Vaiana”]

Para escrever as canções, foi chamado Lin-Manuel Miranda, o compositor dos musicais da Broadway “Hamilton” e “In The Heights”, e há pelo menos uma, “How Far I’ll Go”, o “hino” de Vaiana, que se aninha logo nos ouvidos (Auli’i Cravalho, que dá voz à personagem, tem ascendência portuguesa). Inevitavelmente, a história de “Vaiana” está obrigada ao caderno de encargos da animação da Disney: uma jovem heroína individualista, corajosa e determinada, para servir de modelo de comportamento; uma mensagem positiva – individual, coletiva, familiar, cultural — recheada com clichés de auto-ajuda (“descobre quem és”, “acredita em ti”, etc.); uma demanda mágica semeada de perigos e monstros (destaque para os cocos-piratas e para Tamatoa, o caranguejo gigante ganancioso e apaixonado por “disco” e “glam rock”); um parceiro masculino (Maui) a princípio relutante mas fundamental para resolver as coisas; e uma mascote, Heihei, um galo garrido e zarolho, e o bicho mais burro de toda a história da animação Disney.

[Veja a entrevista com os realizadores Ron Clements e John Musker]

Se enredo, fundo das personagens, ideologia narrativa e mensagem de “Vaiana” são como manda o livro de estilo do estúdio, a localização da história e a cultura que privilegia, o bom humor que atravessa o filme (com as partes gagas do galo a brilhar), a forte e rica componente fantástica e os píncaros de deslumbramento e de trepidação a que nos conduzem a qualidade, o pormenor, a estilização e o requinte da animação, no realismo como na fantasia, mais do que chegam para que os veteranos John Musker e Ron Clements voltem a receber o nosso aplauso no final. “Vaiana” não desvenda novos horizontes, mas a viagem mítica pelos Mares do Sul em que nos leva é um deleite.

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