Título: “Paris França”
Autora: Gertrude Stein
Editora: Relógio D’Água

gertrude stein

Paris França. Sem vírgula. Mesmo a prosa mais convencional da modernista Gertrude Stein deixa ver que o estilo literário a sua obra maior, mais do que a ideia habitual do que é escrever, é uma toada entorpecedora de repetições, hesitações, aliterações, entorses à gramática, uma melopeia, palavra atrás de palavra, gaguejante, num tantã obcecado e obcecante. As vírgulas são um adereço, não uma pontuação como geralmente a entendemos.

Neste livro, há um refrão ou leit-motiv, repetido em numerosas variações, que está logo na primeira linha: ‘França é emocionante e tranquila’. ‘Era em Paris que estava o século XX’, escreve ela. Mas, também, a França é ‘terra e solo’, ‘tradição e natureza’. Paris, França, ou ‘Paris França’, escreve-se assim, em ‘americano’, para a distinguir de Paris, Texas, e de todas as outras Paris que a América do Norte conhece, do Maine ao Canadá, passando pelo Kentucky ou pelo Arkansas – como conhece três dezenas de Lisboas, embora curiosamente nenhuma, ao que parece, nos quatro Estados mais associados à imigração portuguesa.

Gertrude Stein (1874-1946) viveu literariamente entre as duas guerras mundiais, a maior parte do tempo em França e quase sempre em Paris, onde morreu. Era uma menina rica. Nascera no seio de uma família burguesa e abastada da Pensilvânia. Pertence, mais ano menos ano (era dez ou vinte anos mais velha), à geração de Hemingway, Joyce, Picasso, etc. Nos anos vinte, o seu apartamento da Rue de Fleurus foi o ponto de encontro de americanos ou ingleses expatriados como Ford Madox Ford, Scott Fitzgerald, Ezra Pound e muitas outras figuras cimeiras das letras e das artes da primeira metade do século XX.

Era um mundo boémio que se cruzava num perímetro relativamente circunscrito da ‘margem esquerda’ da capital francesa e tinha outro polo de atração na famosa livraria Shakespeare & Company de Sylvia Beach (hoje existe uma livraria ‘herdeira’, com o mesmo nome e outros proprietários, numa morada não muito distante, à beira Sena). Sylvia Beach foi outra protetora desses exilados voluntários. As alamedas do Jardin du Luxembourg tanto foram calcorreadas notoriamente por Hemingway como, menos celebremente, por um William Faulkner – um escritor tão pouco ‘europeu’ que também teve nesses anos o seu breve interlúdio parisiense.

Num dos segmentos do medíocre ‘Midnight in Paris’ de Woody Allen (‘Meia-noite em Paris’, 2011), em que essa época é ‘revisitada’, Stein aparece sob as vestes de Kathy Bates. Além de Fitzgerald, Hemingway ou Dali, Faulkner está lá presente – mas só sob a forma de uma frase de que Allen se apropriou: ‘O passado não está morto, nem sequer é passado’ (The Past is not dead, it’s not even past), o que deu origem a uma ação judicial dos herdeiros do escritor. Há também alusões à ‘moveable feast’ das memórias desse tempo publicadas em 1960 por Hemingway (Paris é uma festa, Livros do Brasil/Porto Editora, 2015), onde se fala muito dela. Só para lembrar.

Gertrude Stein queixou-se a certa altura (Everybody’s Autobiography, 1937) de que ‘o público americano estava mais interessado nela do que na sua obra’ e isso afinal não fazia sentido porque ‘se não fosse pela minha obra não estaria interessado em mim de modo que por que razão não haveriam de estar mais interessados na minha obra do que em mim’. Mas que conhecia o público americano dessa obra? Da obra de uma escritora que residia permanentemente em França e que nos Estados Unidos era sobretudo conhecida por ser em Paris uma escutada e bem relacionada patrona boémia das artes e das letras e pelo êxito de um livro de autoria ambígua intitulado Autobiografia de Alice B. Toklas. (Alice B. Toklas existia e viveu grande parte da vida com Gertrude Stein, numa relação ‘matrimonial’ relativamente discreta mas bem conhecida de toda a gente e, embora longe de ser militante, excêntrica para o tempo).

O seu ‘monumental’ e ilegível romance The Making of Americans, escrito nos primeiros anos do século, só teve uma mínima primeira edição americana em 1926, impressa a partir dos cem exemplares de uma tiragem de 500 feita em Inglaterra em 1925 por Robert Mc Almon. As opiniões dividem-se. Para James Thurber, um dos grandes cultores e advogados da língua clara, Stein era um dos ‘mais eminentes dos idiotas’ do vanguardismo literário. Durante 70 anos, The Making of Americans nunca foi publicado na sua versão integral. Em 1934 saiu uma edição abreviada preparada pela autora para uma tradução francesa. O texto original só em 1995 tornou a ser editado na íntegra (925 sólidas páginas, centenas de milhares de palavras, quase três milhões de caracteres) pela editora Dalkey Archive (reimpressões em 1999 e 2006); consta desta edição uma circunstanciada ‘Note on Publication History’; aí se regista que longos excertos da obra foram publicados, por intercessão de Hemingway, em nove dos doze números da Transantlantic Review dirigida por Ford Maddox Ford. (A propósito, esse grande romancista moderno, Ford Maddox Ford, foi relembrado às novas gerações – e a uma boa parte das velhas – pela brilhante adaptação televisiva em 2012 da tetralogia Parade’s End – ‘O Fim de uma Época’).

Os patriotas de Oakland teimam em que a memorável e cruel frase de Gertrude Stein, ‘não há lá lá’ (there is no there there), a propósito de uma visita à cidade em que se criou, não é um insulto àquela progressiva urbe californiana. Seria apenas a lamentosa verificação de que a casa da sua infância desaparecera e as vizinhanças já não existiam como ela as conhecera. Talvez. A prosa experimental da Stein mais voluntariosamente ‘modernista’ nem sempre tem um sentido muito claro, ou sequer sentido.

O seu mais célebre verso também se tem prestado a infindas interpretações: rose is a rose is a rose is a rose. (Foi-lhe prestado um tributo um tanto trocista na letra de um dos brilhantes números musicais do filme “Singing in the rain”, aqui recordado por ocasião da morte de Debbie Reynolds: no segmento “Moses supposes”, cantado e entusiasticamente dançado por Gene Kelly e Donald O’Connor.) Neste mundo de ‘pecado e dor’, Gertrude Stein não apreciava, ao que parece, as más notícias. Segundo o testemunho de Hemingway, ‘queria saber a parte alegre (em inglês, ‘gay’, que nessa época não se usava para designar uma chamada ‘orientação sexual’) de como andava o mundo; nunca o mundo real, nunca o que corria mal.’

Paris França é uma boa prova disso. Escrito em 1940, Stein não fala, senão muito de raspão, dos horrores ou dos terrores da guerra – que é de supor que pudessem estar presentes no espírito de uma judia americana na França derrotada e ocupada pelos exércitos da Alemanha nacional-socialista. Escreve sobre os encantos da vida na província francesa e tece um hino em tom menor à França que a acolheu e a consagrou. Mas o que eu queria dizer (espero que os herdeiros de Nelson Rodrigues não me processem) é que esta breve, sentida e legível homenagem a Paris França, é uma boa maneira de ser apresentado sem dor e até com prazer ao peculiar estilo dessa figura tutelar da ‘geração perdida’ (que ela baptizou – em francês, claro: génération perdue).

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