Toda a gente quer dançar como Samuel T. Herring. Gerrit Welmers, o homem dos Future Islands que está do outro lado do telefone, sabe bem disso. Sabe tão bem que já ponderou aprender alguma coisa com o vocalista da banda: “Estamos sempre quietos, eu e o William [Cashion, baixista], estamos ali, concentrados, na nossa… mas enfim, alguém tem de brilhar e o Sam faz isso muito bem”. É deixá-lo brilhar, claro.

Os Future Islands têm discos editados vai para dez anos e fazem canções juntos desde 2006. Mas por esta altura já toda a gente sabe que foi preciso passar pelo programa de David Letterman (em março de 2014) para que o mundo percebesse de que material são feitos estes três. “A nossa popularidade mudou completamente mas continua a ser só o Sam a dançar, nós não atinamos muito bem com isso”, diz Gerrit. OK. Mas e o que é que mudou quando chegou a hora de fazer este novo álbum, The Far Field? “Nada.” Bom, na verdade ainda bem.

“The Far Field”, de Future Islands (4AD; Popstock)

Primeira canção, “Aladdin”: está feito, aqui vamos nós, já ninguém nos pára. E lá vai Sam Herring, com aquele vozeirão de operário siderúrgico e um coração que se desfaz em romance. O gajo mais normal do mundo, a figura que não tem nada pop para vender a explicar o que é que interessa nesta vida: atitude e boas canções. Parece que não bate certo mas, assim de repente, não há memória recente de outro paradoxo que faça tanto sentido. É assim o disco todo: “Time on her Side”, “Ran”, “Beauty of the Road”, o aborrecimento da vida normal dá as melhores danças com aquela coisa dos 80s vestidos de preto com o sotaque dos anos 2000.

Contudo, convenhamos: Sam Herring é um mago, mas toda a gente sabe que é sempre o homem das teclas e dos sintetizadores que manda nestas coisas das canções. É ou não é, Gerrit? “Não, por acaso acho que não…” Certo, isto está a correr bem. “Tenho mais sentido prático para algumas coisas, percebo mais de algumas questões técnicas, mas é só isso, somos amigos, somos mesmo, nunca iria resultar se eu de repente mandasse em tudo.” Gente direitinha, esta. Fazem tudo com cuidado, tudo correto. E depois gravam The Far Field, produzido ao limite — apesar daquele baixo tocado como manda o punk — para que nada falhe. E não falha.

O novo álbum, como os anteriores, não vai mudar o mundo e não promete criar uma nova tendência. Mas, outra vez como os discos anteriores, enquanto tocar não vai acontecer mais nada. E a culpa é da dupla dimensão dos Future Islands: uns sentimentalóides, uns chorões exagerados, que depois gostam da pista de dança para esquecer que são saco de pancada da vida no geral. E quando acaba a festa, abraçam-se, cultivam um bromance que os vai salvar, com tempo para os versos mais tranquilos de “Through The Roses” ou “Candles”.

“Nós conseguimos resolver isto, juntos”, canta Herring a dada altura. E o amigo Gerrit Welmers confirma: “É um bocado isso que fazemos, sim. Canções sobre coisas boas, coisas que importam. Ou então, sobre como conseguir essas coisas, como sair da merda. Sabes, sair da merda é difícil e quando o consegues fazer queres dizer a toda a gente como se faz”. Gerrit, desculpa o meu sotaque, mas já estiveste na merda e saíste? “Não estivemos todos?” Fim de conversa, mic drop.

Os Future Islands estão confirmados para edição deste ano do festival Vodafone Paredes de Coura.