Título: “Churchill on Europe. The Untold Story of Churchill’s European Plan”
Autor: Felix Klos
Editora: I.B. Tauris (amazon.co.uk)

Churchill on Europe, de Felix Klos, foi publicado em plena campanha do referendo sobre a permanência da Grã-Bretanha na União Europeia. Não é propriamente uma ‘história por contar’, como diz o subtítulo (The Untold Story of Churchill’s European Project). É pública, embora talvez nunca tão sistematicamente documentada como nesta breve mas cerrada defesa e ilustração das convicções ‘europeístas’ de Churchill.

O grande Primeiro-Ministro inglês da Segunda Guerra Mundial é um dos poucos políticos do século XX europeu cujo nome ainda hoje toda a gente sabe. Ao contrário dos outros – poucos – que toda a gente também conhece, continua a ser geralmente venerado (uma exceção que por acaso tenho debaixo dos olhos: Churchill for dummies, um verrinoso artigo de Michael Lind, publicado no Spectator em 2004). Essa persistente veneração explica facilmente que Leavers e Remainers tenham querido, à vez, associá-lo às respetivas causas, num debate que viveu em grande parte de apelos emocionais, ‘fake news’ e argumentos de autoridade. É um debate que já nos parece hoje, escassos meses depois do referendo, quase história antiga (que ‘não há nada mais morto do que o jornal de ontem’ já faz parte da sabedoria convencional).

Este livrinho (são 86 páginas, das quais mais de 20 são notas e bibliografia), muito procurado nas livrarias de Bruxelas, é fundamentalmente uma resposta aos partidários do chamado Brexit que invocaram o augusto patrocínio do ‘leão’ inglês para o campo dos leavers. É, em especial, uma resposta a Boris Johnson, atual Ministro dos Estrangeiros britânico, jornalista e escritor, figura de proa do movimento em favor do Leave e, justamente, um dos mais recentes biógrafos de Churchill. Neste mesmo sentido, o historiador Brendan Simmms acusou Johnson de refinada má-fé num longo artigo no New Statesman: ‘Dizer que Johnson sabe muito bem que não tem razão não é uma figura de retórica: já o demonstrou por escrito. O seu recente livro The Churchill Factor contém uma descrição muito equilibrada da posição de Churchill sobre a Europa, incluindo muitas das afirmações que cito acima.’

Johnson foi buscar em apoio da sua causa uma frase escrita em 1930 num artigo em que o homem das grandes frases defendia uns ‘Estados Unidos da Europa’, uma geringonça de que a Grã-Bretanha se manteria à parte, no entanto, ‘interessada e associada mas não absorvida’. Havia ainda um império britânico, é claro – e a Grã-Bretanha era ainda uma grande potência. Nos anos da Segunda Guerra Mundial e do pós-guerra, a posição do Primeiro-Ministro que chegou a propor em 1942 uma união ‘franco-britânica’ era um tanto diferente. No ano de 1946, depois da derrota eleitoral que terá deixado Estaline espantado (um homem com aquele poder, perder eleições?), Churchill fez dois discursos que marcaram o pós-guerra e politicamente o reinventaram na cena internacional: o célebre discurso de Fulton, nos Estados Unidos, em que cunhou a expressão ‘cortina de ferro’, e, meses depois, o discurso de Zurique em que apelou a uma espécie qualquer de ‘federação’ europeia cimentada por uma reconciliação franco-alemã – e talvez ‘guiada’ pela Grã-Bretanha.

Foi depois um dos inventores do Conselho da Europa. Churchill não era imune a mudar de opinião, quando os ‘factos’ mudavam, para usar a famosa e talvez apócrifa impertinência de Keynes (When the facts change I change my mind. What do you do, Sir?). Mas nisto não mudou muito. Para ele, os ‘Estados Unidos da Europa’, sob uma forma qualquer, eram a condição de uma ‘Paz Europeia’ duradoura. Naquela altura, podia ter dito, como pouco diplomaticamente disse o primeiro Secretário-Geral da OTAN, General Hastings Ismay, que a questão era ‘manter os americanos dentro, os russos fora e a Alemanha em baixo’. (Ismay fora o assessor militar de Churchill durante a guerra.)

O destino da Alemanha – o grande pedregulho ‘continental’ – persegue-nos. São malhas que a geopolítica incansavelmente tece. Na sua breve história da Grande Guerra, A. J. P. Taylor escreveu, por exemplo: ‘A Primeira Guerra Mundial resumiu-se essencialmente à questão da Alemanha. Os Aliados combateram para a refrear; os alemães, para obter um domínio político proporcional ao seu poder económico’. A Segunda Guerra Mundial foi uma segunda parte. No seu volumoso Europa: a luta pela supremacia, Brendan Simms faz girar a história da Europa – e, até, do mundo – dos últimos cinco séculos em torno da questão alemã. No seu artigo citado acima, diz que ‘longe de se destinar a promover o poder da Alemanha a União Europeia foi concebida para o conter ou, pelo menos, o canalizar na direção apropriada. Ao contrário do que sugeriu Johnson, o euro não foi planeado pela Alemanha para subjugar a indústria italiana ou qualquer outra economia europeia. Foram os franceses que insistiram na sua criação, para desarmar o marco, que descreviam como a ‘bomba atómica’ alemã. Do mesmo modo, os alemães não têm os gregos encarcerados na sua prisão europeia: os gregos é que estão desesperados por não serem devolvidos à ‘liberdade’ do dracma e da corrupta política nacional de que fugiram para a ‘Europa’.’ É o contrário para quem gosta de dizer que a EU é ‘a continuação da Alemanha por outros meios’ (a fórmula de P. Hitchens) ou como outros adversários da ‘federação’ europeia que chamaram ao projeto europeu a ‘germanização da Europa’.

O debate do Brexit morreu. Partiu a Grã-Bretanha ao meio. Foi uma guerra, que não deixou uma herança de grande esclarecimento. (‘Em tempo de guerra’ – terá escrito Churchill, noutra ocasião – ‘a verdade é tão preciosa que deve ser sempre protegida por uma escolta de mentiras’.) Nesse debate, também se usou, por parte dos partidários da saída, o argumento ad hitlerum: quem quer uma Europa unida está a perfilhar uma ideia mestra do III Reich. Mas Hitler escreveu, como lembra Simms: ‘A solução não pode ser a Pan-Europa mas antes uma Europa de Estados nacionais livres e independentes, cujas esferas de interesses sejam separadas e claramente delineadas’. Já se sabe: estamos de volta à história.