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Jay-Z pode ser o Dono Disto Tudo, mas não encanta

Se Kanye West endoideceu, Jay-Z envelheceu. Onde Ricardo Salgado se desviou da legalidade, Jay-Z aproximou-se da normalidade. Vasco Mendonça deixa a dica: queixem-se ao seu gestor de conta.

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Hey, Jay-Z? Então? O que é que se passou?

Theo Wargo

Hey, Jay-Z? Então? O que é que se passou?

Theo Wargo

A história data de 2015. Ricardo Salgado, o “Doutor Ricardo”, figura central do nosso sistema financeiro ao longo das últimas décadas e uma das personalidades favoritas dos portugueses quando precisamos de culpar alguém pelo estado a que chegámos, seja lá essa que abstracção for, mas então, Ricardo Salgado chega ao Panorama, restaurante situado na estrada do Guincho. Prepara-se para almoçar num dos seus restaurantes quando, segundo reza quem vive destes episódios, a quem eu muito agradeço por ter possibilitado este parágrafo, mas então Ricardo Salgado é convidado a sair pelo bater de talheres de alguns comensais presentes.

O presidente do BES, conhecido pelo seu sentido de humor, fingiu que estava num casamento e beijou a sua esposa. Não beijou nada, anda lá com isso. O aspecto que mais importa reter de toda esta história é que nem todos bateram os talheres. Porquê? Terá sido uma réstia de consideração pelo vizinho? Um quinhão de reverência? Um hectare de dívidas? Ou seria simplesmente o reconhecimento de que, até transitar em julgado, Ricardo Salgado seria ainda e por mais algum tempo o Dono Disto Tudo? Talvez fosse, enfim, tal e qual as palavras de Shawn Carter em “Can’t Knock The Hustle”, faixa inicial de Reasonable Doubt (1996):

Jay-Z, que agora edita o seu décimo terceiro álbum intitulado 4:44, é hoje muito mais do que um rapper. Tem uma riqueza avaliada em 800 milhões de dólares e mais uns trocos. Tem o Tidal, uma daquelas startups que dão prejuízo até meia dúzia de tipos encherem os bolsos com uma entrada em bolsa. Diversificou o portfolio de investimentos e está hoje em todo o lado.

Tem uma mulher com que todos sonhamos (menos eu, Maria). Enfim. Tem tudo e mais alguma coisa, e parece ter mais com que se chatear. É por isso normal que até há poucas semanas não soubéssemos sequer se a música voltaria a ser o seu principal foco de atenção, muito menos quando. Eis senão quando surgiu um cartaz em Times Square dizendo apenas “4:44”.

Ainda não sabíamos que seria essa a capa do disco, mas rapidamente a internet lá chegou: o Dono Disto Tudo do rap norte-americano estava de volta aos discos. Mais importante do que perguntar quantos de nós se entusiasmaram verdadeiramente com este regresso, seria perguntar quantos de nós bateram com os talheres. Jay-Z será sempre mais respeitado enquanto promotor das muitas ilegalidades ou até dos sexismos descritos nos primeiros discos (falo por mim) do que enquanto parceiro criativo de Marina Abramovic. Se Kanye West endoideceu, Jay-Z envelheceu. Onde Ricardo Salgado se desviou da legalidade, Jay-Z aproximou-se da normalidade. Queixem-se ao seu gestor de conta.

Importa pois perguntar: o que faz um homem com 800 milhões em activos financeiros, uma carreira de rapper que chega e sobra para o colocar no top 5 de sempre, e Beyoncé em casa à sua espera, o que faz um homem assim correr? Esqueçam a TED Talk, que a resposta vai ser curtinha e pouco inspiradora: quase nada. O gangster culturalmente mais relevante e respeitado dos últimos anos, talvez um dos últimos true OGs (original gangsters) do rap está bem e recomenda-se. Está, aliás, demasiado bem, e isso faz com que tenha muito pouco para nos dizer.

[ouça “4:44” através do Tidal:]

É curioso que assim seja. Trata-se da segunda figura icónica na cultura afro-americana deste século que decidiu regressar ao activo em 2017 para nos mostrar o que vê quando olha para o seu umbigo debruado a ouro. E se é verdade que essa visão afunilada do mundo nos deu dois especiais de comédia brilhantes de Dave Chappelle, o mesmo não se poderá dizer de Jay-Z, que nos trouxe um disco a dar para o morninho. Se a discografia de Hova daria um dos melhores Greatest Hits da história musical, este é um bocadinho mais Smallest Hits. Tem, como sempre acontece, alguns excelentes momentos que nos revelam a argúcia e técnica do artista, mas está longe de ser a coisa mais interessante que já fez. Há pausas entre versos em que até o próprio Jay-Z parece saber disso, tal é a fadiga provocada por alguns casamentos entediantes entre verso e beat que vão surgindo.

No disrespect, continua a ser um dos maiores, mas estes 36 minutos produzidos impecavelmente por No I.D. – excepção feita à escrita em “The Story of O.J.”, “Family Feud”, “Bam” ou “Moonlight” — parecem ser tão somente a forma que Jay-Z encontrou de partilhar alguns soundbytes que caberiam no Twitter de qualquer sujeito com 800 milhões de dólares na conta, uma boa colecção de arte, uma dose saudável de verve, uma miúda difícil e o ocasional sentimento de culpa em relação a cenas.

No fundo, um disco do primeiro mundo para quem acha que os problemas de primeiro mundo dão boas canções: no caso, Jay-Z. A culpa é tão dele quanto nossa: desde há muito que nos habituámos a esperar grandes feitos musicais de Jay-Z, mesmo que os discos nos digam consecutivamente que a coisa já esteve mais famosa. Ainda assim, a expectativa não diminui e a desilusão torna-se proporcional.

Desconto dado os dois portugueses que seguramente terão sentido que o disco esteve à altura das suas expectativas: Tozé Brito e José Cid. Os dois membros do defunto Quarteto 1111 foram samplados (MIND BLOWN) em “Marcy & Me”, penúltima faixa do disco, e até já explicaram que ficaram com uma percentagem simpática. Já Jay-Z terá amealhado mais uns milhões em subscrições, já que o disco está disponível em exclusivo na plataforma Tidal. Mais um dia de trabalho na vida do Dono Disto Tudo. Pena não ter sobrado grande disco para nós. Não tivéssemos memória e também batíamos com os talheres.

Vasco Mendonça é publicitário e co-CEO da associação recreativa Um Azar do Kralj

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