“No romance não me restrinjo em nada: cenas, personagens, descrições sexuais, a linguagem e os gestos crus, tudo está posto friamente por claro, através de um narrador que sou e não sou eu.(…) Por enquanto, contento-me com acabar o 1º volume: o pórtico dessa recherche du temps perdu, mas contada não por um Proust mas por uma espécie de Céline na crueza que o Proust evitou.”

Assim descreve Sena a Eugénio de Andrade aquilo que, sabemo-lo, viria a ser Sinais de Fogo. Ora, aquilo que queria para o livro, conseguiu-o Sena para esta apresentação: mais do que um descritivo do seu romance, é um “pórtico” para toda a personalidade literária de Jorge de Sena. Cada palavra é quase um traço de carácter: a ambição desmedida, séria e infantil ao mesmo tempo, a vontade de tocar tudo, uma certa aspereza intelectual e até uma incerteza ou insegurança que o levava a tentear por vários caminhos literários. Sena foi tudo aquilo que escreve.

“Não me restrinjo em nada”, avisa, como em tantas das promessas de devastar o meio literário português, meio que lhe considerava tão adverso, por mais honras que lhe prestassem. Tinha, é certo, alguns inimigos de estimação, entre Natália Correia e Cesariny, que tomara de ponta a vaidade um tanto pueril de Sena e gostava de a picar. Acontece que em Sena este orgulho ferido foi várias vezes fermento poético de gabarito. Não é preciso chegar às famosas Dedicácias, em que alguns dos poemas satíricos são do mais violento que há; há, mesmo quando não se dirige a ninguém, um tom devastador na literatura de Sena. Eugénio Lisboa nota, numa apresentação à poesia de Jorge de Sena, a importância que ele dá ao mar. Sena, o marinheiro falhado contra vontade, o rapaz insatisfeito que conseguiu aplacar o nervoso no mar e se viu obrigado a desistir de o navegar, teria conservado uma imagem maravilhada do Oceano.

A capa do livro da nova edição da Coleção Miniatura da Livros do Brasil.

Ora, nos Sinais de Fogo o mar parece-nos – ou não fosse a Figueira da Foz um dos cenários principais – um elemento de igual importância mas diferente aparência. Mais importante que o mar é o mar inalcançável; não apenas nos comunistas espanhóis, refugiados em casa dos tios de Jorge, eternamente à espera do barco que os leve até ao tumultuoso país vizinho. Todo o romance é um romance abafado, uma espécie de vida asfixiada num mundo pequenino, Jorge entretido num amor de passatempo com Mercedes, amigos entretidos em planos revolucionários tolos e ingénuos, um mundo social concentrado no seu umbigo e uma cabeça ansiosa por fugir de todo este mundo. Ora, o que torna Jorge de Sena interessante não é a denúncia da pequenez que salta à vida. Um romance tem a medida daquilo que conta e um romance que se limitasse a denunciar a vulgaridade pouco mais seria do que vulgar.

O que torna Jorge de Sena interessante é o desespero diante da pequenez. Mais do que a prisão, interessa o modo como não se consegue sair dela. Jorge de Sena, autor, bem tentou: tentou primeiro na marinha e depois no exílio pelo outro lado do Atlântico. Jorge personagem, porém, mostra bem que o problema não é físico, não é de Lisboa nem da Figueira da Foz. A cabeça atormentada, as reflexões sobre a existência (mesmo que, muitas delas, com um valor filosófico risível) entre a praia e um quarto alugado para entreténs sexuais, não interessam pelo que são mas pelo ambiente. Jorge dá um tom pesado a um romance veranil, sobrecarrega a praia e intelectualiza a amizade a ponto de a destruir.

Sinais de Fogo demonstra bem aquela que é uma das grandes vulnerabilidades e a maior franqueza de Jorge de Sena. É que Sena detesta a matéria-prima necessária para aquilo que ama. A sua literatura faz-se entre as figuras que menoriza constantemente: a armada, os críticos portugueses, a pequenez da pátria e da política portuguesa. Sena quer mostrar a sua grandeza por oposição, fazendo com isso que ela dependa daquilo que menoriza. Não se pode dizer que Sena não tenha consciência disso: e é isso, provavelmente, um dos fatores essenciais para a tal asfixia.

Sena não é uma personagem simpática, mas é imensamente interessante. A admirável curiosidade intelectual que o levou a escrever sobre Camões e a literatura Inglesa, Pessoa e o surrealismo, tem o seu lado negro numa espécie de aposta em todos os campos na sede de reconhecimento. Quer ser o profundo escritor Católico e o Brantôme português, o romancista de escopo clássico e o surrealista, o erudito e o chocarreiro. Os textos na revista Tempo e o Modo mostram a atração pelo catolicismo que Os Grão-capitães contradiz, e as Dedicácias estão nos antípodas da estrutura dos Lusíadas.

Sena era inteligente o suficiente para parecer mais culto do que na verdade era e tinha cultura suficiente para disfarçar as insuficiências narrativas em que a prosa caísse. Daí que possa parecer competente em toda a paleta de peles. Esta vontade de tocar tudo, porém, é também o seu limite. O erotismo nunca se liberta do cérebro, o experimentalismo tem sempre o ar penteado do seu aprumo formal. Sena assenta demasiado bem em todas as máscaras para ter verdadeiramente uma cara. Daí que Sinais de Fogo seja um romance interessante, ambicioso a tal ponto que ninguém o poderia levar a cabo, mas demasiado completo para alcançar plenamente qualquer um dos seus objetivos. Da crueldade de Céline também faz parte uma parcimónia teórica que não justifica a dureza – age, não pensa; nem Céline melhorava com Proust, nem Proust com Céline. A ambição de Sena não o deixava abdicar de nada, daí que não tenha alcançado, mesmo assim, a perfeição que queria.

Com o seu imenso talento, com a agrura de solitário e a raiva de anjo desterrado no mundo, Sena foi muitas vezes injustiçado. É certo que tinha ufanias quase cómicas e uma espécie de exigência de vassalagem que se prestavam à má-língua; o talento, sobretudo aquele que Sinais de Fogo demonstra, pedia contudo mais consideração. Tivesse Sena sido o primeiro a respeitá-lo, e talvez o mundo fosse atrás dele. Jorge de Sena é dos poucos casos em que o Homem se rebaixa até à glória. E é pena, mesmo que à sua literatura só possamos acusar de ser demasiado boa.