Era quase noite quando uma senhora de rolos na cabeça veio à janela, em Alfama. Pendurados no estendal estavam uns quantos pares de meias, um lençol azul claro e umas toalha cor de rosa. A senhora endireitava a roupa que o vento teimava em soprar enquanto cantarolava aquilo que os guitarristas do palco Fado à Janela iam dedilhando, bem à frente do Museu do Fado: “Quem diria que um dia o fado havia de ser ouvido mais pelos estrangeiros do que pelos portugueses?”, dizia para quem passasse. Mas este ano, a senhora de rolos na cabeça estava enganada. Houve mais portugueses, mais novos e tudo numa primeira noite em que Marina Mota e António Zambujo foram os protagonistas.

O Caixa Alfama, o festival de fado, regressou ao bairro mais antigo de Lisboa para uma quinta edição que começou na sexta-feira e que continua este sábado. Logo à entrada, no largo onde fica o museu e onde se tocam guitarras portuguesas e guitarras clássicas, há um aparato policial que não nos lembramos de ver tão vincado no ano passado. E há também mais portugueses e menos estrangeiros a vaguear entre os onze palcos que a organização espalhou pelas ruas, associações, igrejas e museus de Alfama.

Isto mesmo é confirmado ao Observador pela mulher de cabelo muito branco que vende pastéis de nata à entrada de uma das ruas. Diz que as vendas “vão andando”, mas que desta vez canta-se mais fado “para nós do que para os franceses, alemães e espanhóis” que por aqui andaram na edição anterior. Mas o sucesso do negócio nem sequer parece estar nos doces típicos portugueses, embora a caixa onde os guardava esteja quase vazia: o segredo está na ginjinha a um euro, que vai tentando impingir freneticamente a um rapaz que prefere ficar-se pela imperial — mas que pelo andar já acusa duas ou três.

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Outra surpresa foi a idade de quem quis ver e ouvir o fado. Houve gente mais nova no primeiro dia de Caixa Alfama e o segredo pode estar mesmo no cartaz, que este ano aposta nos mais jovens talentos do fado. Esta sexta-feira, por exemplo, foi noite de Sangre Ibérico, de António Zambujo e de Carolina. No sábado a proeza repete-se com Gisela João, Nathalie ou com o piano de Júlio Resende.

“Bairro velhinho, monumento de saudade”

Enquanto fugimos ao vento, que soprava forte ao ponto de nos desacelerar o passo e frio ao ponto de nos colocar em sentido, ouve-se o eco dos fadistas de garganta afinada cujas vozes escapam do palco cá para fora. Tentamos escolher qual delas ouvir mais de perto e essa dúvida que faz com que o Caixa Alfama surpreenda. E afinal, só precisávamos de seguir o cheiro a café acabado de fazer que invadia a Sociedade da Boa União, onde Conceição Ribeiro subiu ao palco “com muitos nervos” e com um vestido vermelho tinto aos folhos de cetim, um xaile preto ao peito e “três dos homems que me vão levar a noite toda”, brincou a fadista, que conseguiu encher as cadeiras preparadas para o espetáculo e ainda conquistar a atenção de quem passava pela rua e aproveitou para fugir do frio.

Metade delas viu o espetáculo a partir dos telemóveis: o que antes eram velas nas mesas das casas de fado ou isqueiros nos concertos românticos são agora lanternas de smartphones. Ainda assim, as palavras são as mesmas: “Alfama, bairro velhinho, monumento de saudade”. Cantadas também por André, um rapaz de T-shirt branca (não tinha frio, claramente) e cabelos aos caracóis que tentava acertar nos tons da fadista. Ao Observador disse que a culpa de aos nove anos gostar tanto de fado era do avô, que estava ali perto e que o punha a ouvir Amália Rodrigues e Beatriz da Conceição.

À terceira canção, o palco Tofa já era pequeno para tanta gente. Enfrentando de novo o vento — já o ano passado o festival tinha acabado com chuva no último dia — , chegámos à Igreja de São Miguel apenas para descobrir que a lotação estava esgotada dez minutos antes de António Pinto Basto começar a cantar. A fila descia a escadaria da igreja e prolongava-se até à Rua de São Miguel e nem os Fados à Janela ali no largo serviram de consolo a quem teve de procurar outras alternativas.

Foi o caso de Lurdes, cujo marido animava as pessoas à sua volta: “Talvez seja melhor ir já para o Largo do Chafariz de Dentro se queremos assistir a um concerto num dos palcos favoritos do Caixa Alfama… amanhã”. É que o casal veio do Porto de propósito para assistir ao festival do fado, conta o casal ao Observador: “Pedimos ao meu irmão que mora cá em Lisboa para nos comprar os bilhetes e até viemos de véspera para fazer um reconhecimento. Olhe, desde que isto começou ainda não conseguimos entrar em sítio nenhum. E eu que queria tanto assistir ao concerto do António Pinto Basto, era mesmo especial para mim”, conta Lurdes ao Observador.

Com a entrada barrada numa das igrejas mais solenes e luxuosas de Lisboa, o estômago começa a dar horas. Entre restaurantes com cheiro a sardinha assada e supermercados a vender chamuças picantes, a nossa escolha vai para as bifanas com mostarda e uma travessa de batatas fritas. Na mesa ao lado, um rapaz pergunta à namorada quanto foi a imperial: “Um euro? Vou já beber umas três ao quatro”. Só contámos duas. Isabel, dona do espaço mesmo à entrada do bairro de Alfama, encolhe os ombros quando lhe perguntamos se o negócio corre melhor com o Caixa Alfama: “Nós nem no Santo António abrimos à noite. Também, para quê? É tudo para eles, não fica nada para nós”, lamenta a cozinheira. Ainda assim, admite que nem tudo é mau: naquele pequeno restaurante de esquina, com panos vermelhos nas mesa, uma ventoinha no teto e luzes para atrair e matar mosquitos, o melhor do negócio está na hora de almoço. E para Lurdes isso basta.

“Sou de Alcântara, mas não há bairro como Alfama”

Este ano, o Palco Caixa, o principal do festival, está virado de costas para a colina de Alcântara e enfrenta a Ponte 25 de Abril e o Cristo Rei. Quando lá chegámos percebemos o atraso para o bailarico, que já havia começado faz tempo. Os Sangre Ibérico, acompanhados pelo fadista José Gonçalez, cantam um fado que faz lembrar uma desgarrada com salero latino. É o que acontece quando se põe “gente de 20 anos no palco”: “Já ninguém tem 20 anos. Alguém aqui tem essa idade?”, pergunta José Gonçalez ao público. Muita gente ali tinha essa idade, José. O espaço criado para o público está a meio gás porque ainda há muitos outros palcos por onde passear. Mas ali, apesar da volta que os Sangre Ibérico deram ao fado depois de participarem no programa “Got Talent Portugal”, é a tradição que acaba a mandar. Prova disso são as duas canções com que fecharam o concerto: “Lisboa, Menina e Moça” e “Nem às Paredes Confesso”.

Mas se o Caixa Alfama existiu nesta primeira noite foi também para celebrar Marina Mota, que conquistou um lugar no palco mais importante do festival depois de, no ano passado, ter enchido um dos secundários. Toda a gente aplaudia e gritava pela atriz de revista quando entrou de vestido leve e voz cheia. Marina Mota, que se confessou nervosa mas também vaidosa por estar ali — “até fui ao cabeleireiro” –, sabia que quem estava ali à sua espera queria mesmo assistir ao regresso da tradição fadista. Por isso, concentrou-se em êxitos tradicionais do fado e cantou músicas da revista à portuguesa, marchas e fados sofridos. Para Marina Mota, não havia melhor palco do que aquele: “Sou de Alcântara, mas não há bairro mais bonito do que Alfama, não acham?”. Aplausos, claro, que não há elogio sem uma boa salva de palmas.

A cinco minutos de o concerto de Marina Mota terminar, um mar de gente invadiu o Palco Caixa: toda a gente queria um lugar na frente para assistir ao último concerto da noite, conduzido por António Zambujo. O alentejano apresentou-se em palco com um espetáculo criado especialmente para o Caixa Alfama: “Queria recuperar alguns fados tradicionais”, explicou.

A maior parte acompanhava António Zambujo nas canções mais populares com uma precisão digna de um cântico de igreja, sempre entre palmas e silêncio. “Não percebo porque é que está tanta gente daquele lado e tão pouca daquele. Ah, já percebi! Daquele lado é onde estão os bares. Bota abaixo!”, disse rindo o artista de 41 anos. Porque essa foi a essência do concerto de António Zambujo: uns momentos de romance pautados muitas vezes por interpretações anedóticas e interações leves com o público, como se tivesse decidido sentar-se com ele na esplanada de um café a comer tremoços e descascar amendoins, mas com a guitarra ao colo.

Com “A Moda do Assobio” cantou a história de um rapaz mulherengo que assobia às raparigas na rua. Zambujo sabe bem transformar uma canção num fado malandro. O público gosta, grita “Ah, leão!” e o cantor ri-se. Ao recordar “Flagrante”, deixa que cantem por ele, encaminhava apenas quando era preciso e deixava acontecer. Missão cumprida e viagem no rumo certo, com mais fados, o “Pica do 7”, claro está, e uma ginga instrumental que é rara de ver — e ainda com espaço para a “a música que a minha amiga Madalena pediu”. De nada, Madalena.

O Caixa Alfama continua este sábado com Os Mestres, Marco Rodrigues (que acabou de lançar um novo álbum e que se apresentará em palco com Boss AC) e Gisela João no palco principal do festival.