Os bonecos ingénuos de Keith Haring são já parte integrante da cultura popular e do imaginário coletivo. O estilo e a técnica do artista, e sobretudo a maneira de estar na arte, abriram caminho a vários criadores contemporâneos, incluindo portugueses. “Uma referência”, reconhece Vhils. “A atitude dele sempre esteve presente no nosso trabalho”, acrescenta João Pedro Vale, que trabalha em dupla com Nuno Alexandre Ferreira.

Em Viena (Áustria), por estes dias, é recordado no Museu Albertina através de “Keith Haring: The Alphabet”, uma exposição de 100 trabalhos que recupera desenhos e símbolos que o tornaram célebre — até 24 de junho. Se fosse vivo, faria 60 anos nesta sexta-feira, dia 4.

Sob influência do graffiti e da banda desenhada, Keith Haring deixou uma obra vasta que procurou escapar aos circuitos oficiais da arte, ganhando fôlego nas ruas de Nova Iorque e de tantas outras cidades sob a forma de desenhos dispersos e de murais. Dedicou-se também à produção em série e inundou o mercado de ícones e artefactos que aproximaram público e criador.

“Os trabalhos dele parecem utilizar uma linguagem simbólica muito própria, como se fosse um alfabeto. Ele conjuga uma série de símbolos, que às vezes parecem hieróglifos, para dar origem a uma teia que preenchia os espaços em que intervinha”, descreve João Pedro Vale, nascido em Lisboa em 1976. “São desenhos aparentemente fáceis, mas bastante complexos.”

Pintor, escultor, cartoonista, muralista e performer, nasceu em 4 de maio de 1958 no estado da Pensilvânia, costa leste dos EUA, e estudou design gráfico numa escola profissional. Seguiu para Nova Iorque em 1978 e foi aluno na Escola de Artes Visuais. Para muitos, tornou-se artista-símbolo da América dos anos 80.

Próximo de Andy Warhol, conheceu Roy Lichtenstein, William S. Burroughs, Jean-Michel Basquiat, trabalhou com Grace Jones e Madonna, entre muitos outros. Teve estúdio no Lower East Side e fez política através de composições que falavam da prevenção da sida, do abuso de drogas, do apartheid na África do Sul. Vida, morte, amor, sexo e guerra — a famosa lista dos temas que abraçou.

“Keith Haring é parte integrante de um renascer criativo da Nova Iorque do fim da década de 70, ao lado de Jean-Michel Basquiat e de um outro nome menos conhecido, Richard Harrington”, explica o artista e especialista em arte urbana Pedro Soares Neves, do Centro de Investigação e de Estudos em Belas-Artes. “Eles saíram do espaço tradicional do atelier, começaram a interagir com a rua. O que faz de Keith Haring um exemplo muito especial é precisamente essa relação concreta com o espaço público, o encarar a rua como lugar de experimentação e veículo de autopromoção”, acrescenta o investigador.

[vídeo promocional da exposição “Keith Haring: The Alphabet”, no Museu Albertina]

A questão de saber se Keith Haring foi um “artista urbano” é hoje discutida por académicos, que recordam a inexistência desta categoria na década de 80. Vhils, o mais conhecido dos artistas visuais portugueses que usam a rua enquanto espaço de criação e exibição, prefere não utilizar o termo street art por entender que “há uma série de movimentos que são postos dentro dessa caixa”. Reconhece, porém, que Keith Haring “liderou esse movimento” de apropriação da rua.

“Ele foi importante pela atitude e pela ideia de que uma peça de arte no espaço público não tem que ser comissionada ou ter uma aprovação geral. Reivindicar o espaço público e a sua utilização como meio de expressão foi sem dúvida uma das suas grandes conquistas”, opina Vhils, também conhecido por Alexandre Farto, nascido em Lisboa em 1987.

Os diários que escreveu entre 1977 e 1989 foram publicados pela primeira vez em 1996 e incluem prefácio do artista britânico David Hockney, para quem “a grande força” de Keith Haring foi a de ter entendido que o trabalho artístico “funcionava fora das galerias e dos museus” e que através da impressão e da reprodução em série conseguia chegar às pessoas.

Não por acaso, Haring teve o mestre da arte pop, Andy Warhol, como figura de referência e foi este quem em 1986 o incentivou a abrir uma loja — descrita como extensão do próprio trabalho. A Pop Shop, em Manhattan, vendia pins, crachás, posters e T-shirts com os desenhos de Haring. Abriu outra em Tóquio, em 1987, encerrada no ano seguinte, enquanto a loja nova-iorquina perdurou até 2005 e hoje existe apenas na Internet.

Em 1978, no diário, registou:

“Um artista destrói os seus próprios objetivos quando passa a pertencer a grupos, quando segue movimentos, quando subscreve manifestos de grupo e perfilha ideias de outros. Nenhum artista faz parte de movimentos, a não ser que se torne discípulo. E aí passa ser a descartável e a fazer arte sem utilidade.”

Viveu depressa e morreu jovem – com apenas 31 anos, a 16 de fevereiro de 1990, em Nova Iorque, dois anos depois de descobrir que tinha o vírus da sida. Deixou uma fortuna avaliada em 25 milhões de dólares. “Ingénuo, sofisticado, sensual, puritano, confiante, atormentado”, escreveu o historiador americano Robert Farris Thompson na introdução dos diários. “Uma pessoa do povo, que no fim fez por ter um apartamento ao estilo do Ritz”, o famoso hotel de Paris pelo qual tinha predileção.

Jackson Pollock, Picasso, Toulouse-Lautrec e até mesmo Goya são apontados como influências no trabalho de Haring. Homossexual com um estilo de vida fora das convenções, fez do erotismo um motivo recorrente, ao mesmo tempo que dialogou com o universo infantil e chamou crianças para com ele executarem criações. “Quero ter 12 anos para sempre”, escreveu uma vez. “O bebé tornou-se o meu logótipo, ou assinatura, porque se trata da experiência mais pura e positiva da existência humana”, registou por escrito.

João Pedro Vale, cuja obra com Nuno Alexandre Ferreira tem ligação privilegiada a temas homoeróticos, destaca que Haring viveu “uma sexualidade muito assumida”, o que foi “exacerbado em alguns dos seus trabalhos”.

“Nunca foi um artista que eu tivesse como modelo, mas sempre esteve presente. É como Picasso ou Dalí ou Andy Warhol: antes de sabermos quem são, já conhecemos o trabalho deles”, diz João Pedro Vale. “A atitude dele, sim, penso que é uma referência para mim. Há alguns anticorpos em relação a temas do meu trabalho e vejo que esta pessoa criou uma obra muito mais explícita, desde logo com mensagens sexuais em T-shirts que as pessoas ainda hoje usam no dia a dia. Poder juntar a sexualidade e o trabalho, e isso ter um propósito, é uma atitude paradigmática.”

Keith Haring participou em exposições coletivas antes de se mudar para Nova Iorque, mas foi nesta cidade, entre 80 e 85, que criou desenhos a giz em estações do metropolitano – que chamaram a atenção dos habitantes da cidade e deram origem às figuras humanas e animais que o celebrizaram. Numa ocasião chegou a ser detido pela polícia, como mostra o documentário “The Universe of Keith Haring”, de Christina Clausen.

[excerto de “The Universe of Keith Haring”, 2008]

“Foi um precursor na forma como começou a utilizar o espaço público como meio democrático de transmitir as suas mensagens e difundir o seu trabalho”, analisa Vhils. “Revolucionou um pouco a perceção do que é ser um artista nos tempos em que vivemos, em que muita da comunicação é feita no espaço público. Foi também um dos primeiros artistas a utilizar o espaço da cidade de forma ilegal e espontânea, abrindo uma série de portas para artistas cuja obra não era valorizada porque trabalhavam na rua, como por exemplo os artistas de graffiti que já existiam na altura ou alguns artistas do mundo da arte contemporânea. Sempre gostei muito dessa ideia, da democratização do acesso à arte e da utilização do espaço público como meio de expressão artístico.”

A partir de 1986, assinou projetos públicos encomendados e fez murais por todo o mundo, incluindo um sobre a sida, no bairro de Raval em Barcelona, e outro no Muro de Berlim, a apelar à unificação alemã. Em vida, chamaram-no a participar na Bienal de São Paulo e na Veneza e a expor, por exemplo, no Museu de Arte Moderna de São Francisco. Mas foi sempre ambíguo quanto ao reconhecimento que esperava de galerias e museus: queria que acontecesse, mas procedia em sentido contrário.

“Sentiu desde cedo que os trabalhos que fazia tinham audiência e seguidores. Por isso, na lógica da produção artística em massa, conceptualizada por Warhol, criou um mundo de merchandising à volta da obra”, analisa Pedro Soares Neves. “Não teve pruridos em que isso danificasse a aura de alta cultura e de exclusividade que a arte muitas vezes reclama. Esse sinal foi recuperado já nos anos 2000 pelas gerações atuais da street art, que sentem ter uma audiência direta, que não se relacionam com o mercado da arte e produzem massivamente. O Alexandre Farto, por exemplo, não tem uma loja onde venda obras, mas na grande exposição que fez em 2014 no Museu da Eletricidade apresentou uma enorme quantidade de trabalhos de uma só vez, o que é raro no contexto da arte contemporânea.”

Keith Haring está hoje representado em dezenas de coleções, incluindo o Museu de Arte Moderna de Nova Iorque, o MoMA. A obra ganhou valor desde o desaparecimento do autor. Em Portugal, só o Museu Coleção Berardo tem uma obra de Haring, e apenas uma: “Head Through Belly”, escultura em esmalte com data de 1987-89. Pode isso dever-se a uma crónica subrepresentação de períodos recentes nas coleções portuguesas, admite Pedro Soares Neves. É um possível efeito da produção em massa, que deita por terra o fetiche do objeto único desejado pelos colecionadores, opina João Pedro Vale.

Em todo o caso, não consta que a importância e a memória de Keith Haring estejam em causa. “É sempre importante voltar a lembrar o seu percurso e o tempo em que viveu”, diz Vhils. “Penso que o legado dele podia ser mais explorado, mas não acho que seja um artista a cair no esquecimento”.