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Ideias Feitas. Ideias Feitas na Rádio Observador com Alberto Gonçalves. Olá, Alberto, bem-vindo.

Olá, Ricardo, boa tarde.

E quero seguir às eleições de ontem na Alemanha, nomeadamente à vitória da extrema-esquerda em Berlim.

É porque este partido ganhou em Berlim, a Die Linke. Peço desculpa pela pronúncia.

Não, acho que foi irrepreensível.

Obrigado. Este partido é o herdeiro ideológico e em larga medida o herdeiro formal da SED, e a SED era o partido de Estado da República Democrática Alemã, da RDA. Controlava o governo, a Stasi, a polícia secreta, o exército, a economia, as eleições, que eram de lista única, naturalmente. A diferença é que a SED mandava na RDA inteira e tomava conta do Estado com mão de ferro, enquanto esta Die Linke apenas ganhou a capital e por isso, para já, está interessada em desmantelar o Estado e instalar o caos social. O leninismo tem regras e essas regras nunca variam grande coisa, independentemente dos contextos. E reuni aqui só meia dúzia de coisinhas que estão no programa deste partido que ganhou a Câmara da capital alemã de Berlim, que é uma cidade com quase 4 milhões de habitantes, não é uma cidade qualquer, é a capital do que se dizia, pelo menos até há uns tempos, que era o motor da economia europeia. Este partido quer acabar com o financiamento da polícia ou diminuir o financiamento da polícia, acabar com o rearmamento cada vez mais caro da polícia, como eles dizem, e quer que esse dinheiro seja redistribuído em tarefas de trabalho social. E em compensação, querem eliminar por completo uma proibição que há na lei alemã de os manifestantes se mascararem e poderem usar armas de proteção. É assim o termo, ou seja, desarma-se a polícia, arma-se os criminosos. E se isto tornar muito difícil prender alguém, que provavelmente vai tornar, mas também não há problema, já que a ideia do Die Linke é reduzir drasticamente as penas de prisão. E além disso, defende-se um salário mínimo para o trabalho prisional e a monitorização eletrónica à distância a pessoas que estão em prisão domiciliária, essas coisas. O programa do partido também defende o que eles chamam solidariedade com ativistas. E isto que eu vou citar é uma caricatura, mas não é uma caricatura muito exagerada. Façam caso que aconteceu há pouco tempo na sociedade alemã. Se uma pessoa for acusada de ter cometido um crime gravíssimo, e se essa pessoa for um transexual de esquerda, essa pessoa deixa de ser assassino ou responsável por um crime gravíssimo e torna-se uma espécie de preso político com direito a uma série de regalias e atenuantes. O partido também quer eliminar, algumas são menores, mas são reveladoras, quer eliminar a criminalização de viajar nos transportes públicos sem bilhete. Exige, na parte da habitação, quer o direito permanente à habitação, o fim dos despejos por dívida de renda nas habitações públicas e qualquer dia nas privadas, a regularização de ocupações, portanto, alguém ocupa uma casa e depois ao fim de uns tempos, provavelmente por usucapião, passa a possuir a casa. O partido defende restrições fortes à construção de moradias, sejam unifamiliares ou bifamiliares, o uso de betão só quando for estritamente necessário. Prevê aumentar o imposto sobre a transmissão de imóveis para 8%, aumentar o imposto sobre atividades econômicas, criar imposto sobre casas de luxo, etc. Tudo o que se possa imaginar. E depois há mais aqui umas coisas sortidas: quer acabar com as expulsões de estrangeiros, atribuir direito de voto a estrangeiros após cinco anos de residência, privilegiar a imigração de pessoas, imigração com I, de pessoas que venham da Síria, do Iraque, do Afeganistão, do Sudão, de Gaza e do Líbano. Quer criar salas para consumo de crack, quer abolir controles de identidade que excluam pessoas sem documentos válidos em espaços públicos. Na escola, portanto, substituir a avaliação quantitativa, as notas, por relatórios de progresso, pelo menos até ao nono ano. Quer acabar com os trabalhos de casa, eliminar a retenção de ano e encurtar o horário letivo. E naturalmente, depois, em termos de política externa, não é que aqui haja muita relevância, porque apesar de tudo, eles conquistaram Berlim e ainda não a Alemanha. Mas defendem a proibição de partidos de extrema-direita, a saída da NATO, o corte de relações com Israel e a acreditar nuns slogans que eles gritaram numas manifestações, parecem defender a extinção de Israel e o fim das ajudas à Ucrânia. É capaz de haver algum, mas se houver, agradeço que me esclareçam. Eu não me recordo de um programa tão radical e tão alucinado ter conquistado os eleitores de uma grande cidade europeia nas últimas largas décadas. Provavelmente, o mais recente termo de comparação, o caso mais facilmente comparável, aconteceu também na Alemanha, mas foi no início dos anos 1930. E, no entanto, isso não parece preocupar ninguém ou não parece preocupar muita gente e de certeza não causa um centésimo da apreensão que se verifica sempre com as recentes vitórias, por exemplo, da AFD, também na Alemanha, ou de outros partidos de extrema-direita noutros países ou regiões ou cidades da Europa. E se compararmos os respetivos programas, a grande maioria destes partidos de extrema-direita são os meninos de coro comparados com a Die Linke. Mas o pânico volta-se para a extrema-direita e esgota-se tanto na tal extrema-direita que aparentemente não sobra um bocadinho para que os noticiários, as televisões, os comentadores e a classe política mainstream se possam afligir com esta vitória particular da extrema-esquerda, para como uma extrema-esquerda que, repito, é herdeira direta das forças um tanto sinistras, para sermos simpáticos, que mandaram de modo totalitário e stalinista na antiga RDA. Não há por aí muitas manchetes a anunciar, desde ontem, a terrível ameaça que paira sobre a Europa, nem parece que haja jogadas antidemocráticas a tentarem impedir que a Die Linke possa realmente tomar posse em Berlim. Eu, por mim, espero que tome posse Por uma questão de princípio, acho que a democracia deve ser respeitada, tiveram mais votos. E, por outro lado, por uma questão de fim, porque como não vivo em Berlim, nem tenciono visitar Berlim, vou achar alguma graça ver o que aquilo vai dar, porque acho que no fundo temos todos uma certa inclinação para ficar pasmados, olhar para desastres e para acidentes. E se há desastre, este é um deles.

Alberto, vais regressar amanhã, terça-feira. Quem nos ouviu na sexta-feira, ao ouvir-te hoje, ficou a perceber que o mundo, entretanto, não acabou.

É verdade, pois não? Olha, agora apanhaste-me de surpresa.

Tínhamos essa expectativa, mas não, não aconteceu.

Ainda aguentou mais uns dias.

Um abraço e até amanhã.

Um grande abraço, Ricardo. Até amanhã.

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