Os números que até ao momento se conhecem são avassaladores e nunca vistos. O novo álbum de Drake, Scorpion, foi reproduzido 132 milhões de vezes na plataforma Spotify nas primeiras 24 horas em que esteve disponível. Na concorrente Apple Music, foi ouvido 170 milhões de vezes no mesmo período. Se parecem muitas audições, é porque são mesmo. Basta comparar com a concorrência: até à passada sexta-feira, 29 de julho, o disco mais ouvido em 24 horas no Spotify era beerpong & bentleys, do rapper-cantor Post Malone. Quantas reproduções teve este álbum no dia em que saiu? 78,7 milhões. Não é metade das de Scorpion mas quase: não chega a 60% do número de “cliques” dados às novas faixas de Drake.

Os números foram algo inflacionados: além de ser um álbum anormalmente longo (trata-se de um disco duplo, de 25 canções e uma hora e meia de duração), o que se enquadra numa estratégia recente de alguns músicos para aumentar o tempo de audição e o número de “cliques” nas faixas de um disco, Scorpion também ainda não foi editado em formato físico (CD e vinil). Todas as audições do disco concentram-se, assim, na audição digital e downloads (através do iTunes, por exemplo) e na rádio. Isso e a intensa promoção feita pelo Spotify (durante um dia, a empresa sueca colocou o rosto de Drake como capa das playlists que sugere aos seus utilizadores) ajudam a explicar os números — mas não os tornam menos merecedores de espanto.

É factual que, para os artista de hip hop e R&B, as audições no Spotify e Apple Music têm uma importância maior do que a que têm para músicos que têm um público mais velho, acima dos 35 a 40 anos, que em alguns casos não ouve música nestas plataformas mas sim na rádio, Youtube e em concertos, até de forma esporádica. É também por isso que alguns artistas pop-rock aparentemente pouco populares não deixam de ter públicos fiéis e de dar concertos para plateias volumosas, apesar do aparente “insucesso” nessas métricas. Daí que seja difícil afirmar convictamente que o rapper e cantor canadiano Aubrey Drake Graham é mesmo o músico mais popular do mundo atualmente. Se não é, contudo, não andará longe disso.

[ouça “Scorpion” na íntegra através do Spotify:]

No início, Drake dizia: “Há sempre espaço para melhorar. Não sou perfeito”

Filho de Sandi Graham, uma mulher canadiana e judia, e Dennis Graham, músico afro-americano que chegou a trabalhar com Jerry Lee Lewis, “Drizzy” Drake (como Aubrey Drake Graham também é conhecido) nasceu em Toronto, Ontario, e foi ali que cresceu com a mãe depois dos pais se separarem. O divórcio aconteceu quando Drake tinha 5 anos.

O primeiro trabalho do rapper e cantor foi o de ator: com 15 anos, entrou na série canadiana “Degrassi: The Next Generation”. A música levou-o a abandonar a área, a que pretende regressar em breve: já no ano passado, revelou numa entrevista que deverá estar envolvidos em futuros filmes e séries da Netflix, Apple e do estúdio cinematográfico A24, que produziu o filme “Moonlight”.

À primeira mixtape, que editou em 2006, Drake deu um título curioso: Room For Improvement, que em português significa algo como “espaço para melhorar”. No início da mixtape, antes de começar a rappar em batidas de hip hop clássico e a cantar em instrumentais R&B, apresentava-se em tom entusiasmado (“Venho do Canadá, o meu mano DJ Smallz vem do sul [dos EUA], é o DJ número 1 do sul”) e explicava o título: “Há sempre espaço para melhorar porque não sou perfeito e aposto que vocês também perceberão que não são, se ouvirem isto”.

O primeiro álbum chegou em 2010 (Thank Me Later), depois de várias mixtapes, mas o segundo disco de “Drizzy” Drake, Take Care, editado logo no ano seguinte, foi o que colocou o rapper e cantor em definitivo na ribalta. Com um registo que fundia o hip hop, o R&B cantado e a produção eletrónica mais inventiva, o disco parecia inspirado por uma das referências de adolescência de Drake, Kanye West, que alguns anos antes começara a provar que o hip hop e rap menos convencional (com estrutura de canção, refrões poderosos e enorme apelo popular) podiam agigantar e influenciar toda a indústria da música pop. O impacto do disco foi forte e deu ao canadiano o seu primeiro e até hoje único prémio Grammy para melhor álbum rap do ano. Venceu outros dois, com “Hotline Bling”, nas categorias Melhor Canção Rap — Drake achou que era mais indicado Melhor Canção Pop — e Melhor Performance Rap/Cantada.

Com Take Care, Drake ascendeu ao topo do hip hop e R&B. Provou que conseguia fazer álbuns de grande nível, que conseguia ter singles de forte impacto (por exemplo a faixa que dá título ao disco, abrilhantada por Rihanna, e também “Headlines”) e que tinha capacidades para marcar esta década e esta século. Como já o fez. Veja-se a lista de convidados que participaram no seu segundo disco: The Weeknd, Kendrick Lamar, Nicki Minaj, Rick Ross, Lil Wayne, André 3000 (dos Outkast)… e a já citada Rihanna, claro, com quem Drake até veio a namorar.

Apesar de ser ainda hoje considerado por alguns fãs de hip hop como o melhor disco de Drake, Take Care teve um sucessor possivelmente ainda mais marcante, Nothing Was the Same. Com uma produção musical luxuriante e ambiciosa, elogiado amplamente pela crítica e ouvido até mais não pelo público, o disco continha 13 faixas que poderiam ser quase todas singles. E algumas foram mesmo, como “Started From the Bottom”, “Worst Behavior” e a balada”Hold On, We’re Going Home”. Esta última inaugurou um trio de canções absolutamente virais que pôs Drake a disputar o trono de maior artista pop desta década: seguiram-se a “Hold On We’re Going Home”, a canção “Hotline Bing”, revelada no final de 2015 (dois anos depois, portanto) e “God’s Plan”, que, disponibilizada há cinco meses no Youtube com um videoclip muito falado, foi decisiva para que as expectativas fossem tão altas em relação ao novo álbum de Drake.

Até hoje, Nothing Was the Same, o terceiro disco de Drake (excluem-se para esta contagem as mixtapes, EP e playlists mais descomprometidas do canadiano), é para muitos considerado o diamante da discografia do rapper e cantor. A Pitchfork, publicação musical indie por vezes algo reticente em relação aos fenómenos de massas, considerou este disco um álbum “sombrio e triunfante” e atribuiu-lhe uma nota de 8,6, numa escala de zero a dez. Nothing Was the Same marcou o momento em que Drake, fazendo um disco mais conciso e sem uma longa lista de convidados de luxo a roubar-lhe algum protagonismo (diminuiu o número de rappers, sobressaiu as prestações de cantores emergentes de soul e R&B eletrónico como Sampha e Jhené Aiko), reforçou o estatuto de artista de referência na música deste século.

Views, o álbum seguinte cuja sonoridade e letras homenagearam a cidade em que o músico cresceu, Toronto, não arrefeceu os ânimos. Foi editado depois das mixtapes If You’re Reading This It’s Too Late e What a Time To Be Alive, a última um projeto de parceria de Drake com a referência da música trap de Atlanta (estilo musical hedonista, com batidas intensas e rápidas), Future. Já um pouco mais longo e misturando menos a música pop e o R&B digital com o rap (marcadamente preterido em favor dos primeiros dois géneros musicais), Views registou um grande sucesso comercial, passando dez semanas consecutivas na liderança do ranking Billboard 200, a lista de referência utilizada nos Estados Unidos da América, que calcula os discos mais ouvidos no país semanalmente.

“Hotline Bling”, o tal segundo single “planetário” de Drake, ajudou ao bom desempenho de Views, mas a crítica foi um pouco menos benevolente. Se a produção sonora, instrumental, não mereceu muitos reparos, a performance e escrita do cantor e rapper foram consideradas algo imaturas. More Life, a “playlist” — assim lhe chamou Drake — editada no ano passado, manteve o canadiano em estado de graça junto do público pop e dos fãs mais jovens. Somou, por exemplo, a impressionante marca de 89,9 milhões de streams em 24 horas, na Apple Music. Mas esteve longe de lograr o relativo consenso de Nothing Was the Same, que só não foi total porque Drake foi sempre criticado por uma franja de ouvintes, por por não ser um rapper puro, por gostar de cantar e de fazer refrões e por fazer músicas de apelo popular e dançável. O novo disco, Scorpion, bateu largamente esses recordes anteriores, com 170 milhões de streams na Apple Music registados em apenas um dia. Quase o dobro do que More Life tinha conseguido um ano antes. O Spotify ajudou mas não explica tudo.

Christopher Polk/Getty Images for iHeartMedia

As picardias, a paternidade e a rivalidade com Kendrick Lamar

Quem é Drake em 2018? Cantor, rapper, executivo em vias de se tornar um criador de projetos no cinema e televisão, embaixador mundial dos Toronto Rappers (a equipa de basquetebol da sua cidade), celebridade mundial e um dos músicos com menos de 40 anos mais ricos do mundo. Drake é tudo isso, mas é sobretudo um músico que, estando num campeonato paralelo ao de Jay-Z e Eminem, por exemplo, rappers mais tradicionais (para não falar de gente da sua geração como Kendrick Lamar e J. Cole), misturou a linguagem do hip hop com a da música pop como só Kanye West o tinha conseguido no passado. Alguém se lembra do impacto de “Gold Digger”, “Stronger” ou “Heard ‘Em Say” na década passada? “Just Hold On We’re Going Home”, “Hotline Bling” e “God’s Plan” são uma sequela com identidade própria…

E assim chegou Drake a Scorpion, álbum cujo impacto só poderá ser avaliado no futuro (foi editado há apenas uma semana, recorde-se) mas muito marcado pelas picardias entre o canadiano e o rapper Pusha T, que começaram há muito mas reforçaram-se recentemente, e por uma revelação surpreendente: Drake é pai. A novidade começou por ser um rumor levantado por Pusha T (um protegido de Kanye West, de quem Drake já foi próximo no passado, menos hoje), numa faixa intitulada “Story Adidon”, dedicada exclusivamente a atacar o canadiano. Bom, ouve-se lá um “otchencha e ocho”, mas presume-se que não seja nenhuma indireta à nova estrela das Arábias, Jorge Jesus.

[A resposta de Drake aos primeiros disparos verbais de Pusha T este ano:]

Revelando uma imagem de Drake com a cara pintada de negro, numa provocação ao rapper que alguns acusam de não ser nem realmente negro (porque é mestiço) nem alguém com uma passado suficientemente sofrido, o que parece ser uma espécie de racismo invertido, Pusha T pôs o mundo em alerta com os versos “Estás a esconder uma criança / deixa esse rapaz vir para casa”. Drake assumiu-o no novo álbum. Na faixa “Emotionless”, em que critica o mundo atual, a forma como as redes sociais vieram condicionar e confundir a vida de toda a gente (“Look at the way we live”), Drake diz que “não estava a esconder o meu filho do mundo, estava a esconder o mundo do meu filho”. A mãe da criança é a atriz de filmes pornográficos Sophie Brussaux e o filho — segundo revelou Pusha T — chama-se Adonis.

Se a polémica pareceu poder ameaçar a carreira do canadiano, o sucesso comercial de Scorpion rapidamente mostrou aquilo que o sucesso do polémico rapper XXXTentacion, acusado de violência doméstica e assassinado há dias a tiro na Califórnia, já tinha demonstrado: que na era atual o comportamento dos “ídolos” dos fãs já não é obstáculo à reverência que lhes é concedida. Se é que alguma vez foi.

Ferdy Damman/AFP/Getty Images

As picardias de Drake não são algo a que os ouvintes atentos já não estejam propriamente habituados. Ao longo dos anos, Drake já teve bate-bocas musicais, a que na gíria do hip hop se chamam beefs, com gente tão diferente quanto Kanye West, Jay-Z, Meek Mill, Tory Lanez, Ludacris e Kendrick Lamar. O mais curioso é que com alguns a relação tem altos e baixos, com picardias e amizade a surgirem de forma intermitente. Jay-Z, por exemplo, é alguém com quem Drake chegou a ter problemas, mas o rapper marido de Beyoncé rima no novo álbum de Drake (curiosamente, numa faixa onde tem um verso polémico que parece lamentar a morte de XXXTentacion).

Kendrick Lamar, por sua vez, é alguém com quem Drake já colaborou e com grande sucesso na faixa “Poetic Justice”, do rapper de Compton. Nos últimos anos, Kendrick e Drake têm deixado várias indiretas um ao outro, em alguns casos de forma até bastante clara. Tudo começou quando, na faixa “Control”, Kendrick enumerou os rappers que lhe poderiam fazer frente (de Pusha T a J. Cole, passando por A$AP Rocky, Mac Miller, Tyler, the Creator e, claro, Drake) dizendo que apesar da amizade estava a tentar “assassiná-los a todos”. Colegas, colegas, competitividade à parte. A partir daí assistiu-se a uma sucessão de tiradas, em músicas e entrevistas, em que Kendrick e Drake pareciam visar-se um ao outro, Kendrick reclamando para si o estatuto de “melhor rapper vivo” e acusando Drake de ter um ghostwriter, espécie de autor a sério de cujo trabalho um outro se apropria (“A música pode ser um processo colaborativo”, respondeu o canadiano), e Drake gabando-se dos seus números, do seu sucesso e das fronteiras que ajudou a esbater entre géneros e públicos.

As rivalidades no hip hop são antigas e, num certo sentido, a relação de Kendrick Lamar com Drake será uma espécie de 2Pac vs The Notorious B.I.G. desta década. Exclui-se o estilo de cada um e a violência, é claro, os dois têm a ambição de serem os mais populares e impactantes desde que Kanye West entrou numa espiral de controvérsias (e antes houve 2Pac, “Biggie”, os Wu-Tang Clan, Public Enemy, Andre 3000, Nas, Eminem, Jay-Z, tantos mais…). Com registos diferentes e apelando até a públicos um pouco distintos, o de Drake mais firmado no universo pop e nos amantes de trap, o de Kendrick Lamar bastante heterogéneo, os dois têm sido faróis que apontam novos caminhos dentro das possibilidades da música popular.

Scorpion demorará tempo a ser digerido, até pela longa extensão do disco. Para já, a imprensa musical que se pronunciou sobre o álbum esteve longe de o considerar uma obra-prima, apontando alguma banalidade ao discurso de Drake, que versa, como habitual, sobre tudo o que o cantor e rapper vê de mal no mundo atual, sobre os seus êxitos e fracassos, o seu ego e as suas vulnerabilidades, o seu sucesso junto das mulheres e os seus momentos sós. Outro ponto que tem sido apontado como fragilidade do disco é o seu lado B (a segunda metade), mais cantado e R&B, com um uso menos criativo do que o habitual em Drake dos efeitos de voz e som.

A primeira metade do novo disco, essa evoca o melhor de Nothing Was the Same, com versos cortantes e afirmativos e uma produção musical sem igual na mistura da música de dança, baladas cantadas e hip hop mais hedonista num mesmo caldeirão. “God’s Plan” é a faixa central e tema que marcará também o verão, “Nice For What” (com um sample de Lauryn Hill no início) uma das faixas mais criativas de Drake em alguns anos e “I’m Upset” um single que passou algo despercebido (o que é pouco habitual no percurso recente do canadiano). Mas há também “Elevate”, “Sandra’s Rose”, “Emotionless”, “Is There More”, “Blue Tint” (com participação de Future”, “Don’t Matter To Me” (esta inclui uma gravação vocal inédita de Michael Jackson, que remontará à primeira metade dos anos 1980 e cujos direitos Drake terá garantido postumamente a troco de muito, muito dinheiro) e a emocional “March 14”, que encerra o disco duplo e que é uma espécie de carta ao filho, entre os grandes destaques.

Scorpion perdurará no tempo ou será um fenómeno pop tremendo junto do público mas efémero na duração? Esta é a dúvida que tem entretido críticos nos últimos dias mas Drake já garantiu o seu lugar na história musical deste século e o seu impacto parece apenas aumentar de disco para disco, imune a todas as críticas e polémicas. Conquistado o mundo no streaming, é altura de o continuar a conquistar nos palcos.

A estreia em Portugal tarda algo inexplicavelmente mas dificilmente poderá demorar muitos anos, num grande palco (Altice Arena?) ou como cabeça de cartaz de um festival português. Quanto ao futuro, Drake, que diz “não saber escrever ficção” e só conseguir fazer música “que tenha diretamente a ver” consigo, não faz grandes previsões. Sabe apenas que se reformará um dia, “quando começar a sentir que estou a inventar. Espero perceber isso antes mesmo de lá chegar. Mas neste momento parece que ainda agora começámos”, dizia o ano passado, numa entrevista à Hollywood Reporter. E que começo tem sido.