“O Quarto de Isabella” junta nove intérpretes em palco, mas tudo gira em torno da personagem Isabella Morandi, uma mulher cega e imperturbável, nonagenária bem vivida que passa os dias num quarto em Paris. Quem lhe dá vida é Viviane De Muynck, de 71 anos, atriz flamenga que muitos consideram o nome mais importante do teatro europeu atual.

A peça estreou-se em 2004 no festival de teatro de Avignon e desde então fez carreira um pouco por todo o mundo. Neste domingo, apresenta-se no 35º Festival de Teatro de Almada – às 22h00, na Escola D. António Costa, com entrada a 15 euros.

“Isabella foi criada para mim”, conta Viviane De Muynck ao Observador. Jan Lauwers, o encenador, queria uma versão feminina de “Zorba, o Grego”, personagem de um filme dos anos 60 e de um romance homónimo escrito pelo grego Nikos Kazantzakis. Zorba é o homem que passa por tudo e no fim da vida ainda tem coragem para dançar. Isabella, por Viviane De Muynck, também.

“Provavelmente, é a personagem que faço há mais tempo. A peça tem 14 anos e nessa altura eu tinha outra idade, uma energia e um humor muito fortes, que ainda ali estão de certa forma”, diz a atriz. “Todas as personagens que vemos no quarto de Isabella só existem na cabeça dela. Estão ali todos os que ela conheceu e amou e todos os que já morreram. Isabella viveu acontecimentos históricos muito importantes e é essa viagem pelo século XX que faz a peça ir mais além. Isabella passou por muito, mas mantém a alegria de viver. Há muita alegria na peça mas também, como dizem os portugueses, muita saudade.”

Não é a primeira vez que “O Quarto de Isabella” vem a Portugal. Criação do grupo NeedCompany, de Bruxelas, foi o espetáculo de abertura do festival Alkantara, em junho de 2006. A própria Viviane De Muynck já tinha atuado na Expo’98 com os nova-iorquinos The Wooster Group e guarda de Lisboa a imagem de uma cidade “aventurosa” que é “uma porta aberta para o mundo”.

Este regresso faz parte da mais que provável última digressão da peça e a atriz espera a mesma comunhão com o público que deu longevidade ao projeto.

“Os atores são incríveis, o Jan soube criar um espetáculo muito inteligente e cheio de amor. Essa magia em palco chega às pessoas. Há momentos em que contraceno com os outros intérpretes, mas na maior parte do tempo estabeleço um contacto direto com o público. Está tudo nos meus olhos. A ligação é tão profunda que quando eu choro os espectadores choram comigo. Quando me rio, eles riem-se comigo. Estamos no mesmo espaço, estamos no teatro. O teatro não é um país imaginário, é um lugar concreto de encontro. As deceções, a perda daqueles que amamos, os segredos que nunca revelamos, aquilo que nos vai no coração… O público sente isso. A personagem Isabella é universal”, explica Viviane De Muynck.

[excerto de “O Quarto de Isabella”]

Nesta conversa telefónica a partir de Antuérpia, cidade onde nasceu e vive, a atriz mostra-se disponível para resumir uma vida cheia. Falando em inglês, começa pelas memórias de infância, quando ia ao cinema ver filmes de Michelangelo Antonioni e Vittorio De Sica, na companhia do pai.

“Era um homem muito especial e feliz. Começou a trabalhar com 12 anos e morreu aos 92. Foi a única pessoa que conheci na vida que sabia perfeitamente o lugar que ocupava no mundo. Nunca lhe conheci sentimentos de inveja ou rancor”, lembra.

A paixão pelo cinema e pelo teatro levou-a a tornar-se atriz amadora na adolescência. “O cinema abriu-me uma janela para o mundo. Não éramos ricos, só tivemos televisão em casa muito mais tarde.” Mas essa paixão foi interrompida por influência dos pais, que consideravam a vida de atriz pouco edificante para a filha. “O teatro não dava dinheiro e tinha muito má reputação, dizia-se que era uma vida sem regras.”

Trabalhou como secretária numa empresa de reparação de navios, casou-se aos 23 anos com um homem de 41, engenheiro de automóveis e antigo campeão de boxe, que acabou por morrer sete anos depois. Entretanto, tinha nascido Michel, filho único, que morreu em 2013. (A vida da atriz é marcada pela tragédia e a personagem da peça é certamente autobiográfica.)

Aos 30, depois de perder o marido, decidiu refazer a vida e voltar à representação. Foi estudar no conservatório de Bruxelas.

“Quis tornar-me atriz porque sabia que poderia fazer melhor do que aquilo que via em palco. Sabia que poderia fazer a diferença, sabia que tinha força para agarrar o público”, garante.

Em 1987, ganhou notoriedade quando deu vida a Martha de “Quem Tem Medo de Virginia Woolf?”, de Edward Albee. Na década de 90 juntou-se ao grupo NewCompany, que Jan Lauwers e Grace Ellen Barkey tinham fundado em 1986. Entrou no filme “Vincent e Theo”, de Robert Altman, sobre a vida dos irmãos Van Gogh, em 1990. “The Crossing”, de Nora Hoppe, e “Deus Existe e Vive em Bruxelas”, de Jaco Van Dormael, são apenas outros dois exemplos.

“O Quarto de Isabella” estreou-se em 2004 no festival de Avignon

Ao ver a atuação de Viviane em “O Quarto de Isabella”, a revista francesa “Les Inrockuptibles” surgeriu estarmos perante a mais importante atriz da Europa, o que para Jan Lauwers, na folha de sala, não é uma hipótese, mas uma certeza. Na imprensa belga tratam-na por “grande dame” do teatro. E ela não discorda.

“É um título que não me assusta. Dá-me consciência da responsabilidade. As pessoas não esperam apenas que eu esteja bem em palco, esperam uma espécie de milagre e tenho de lhes dar esse milagre todas as noites. Nem sempre consigo, mas tento sempre lá chegar”, comenta. Sobre se se trata da sua melhor performance de sempre, acrescenta: “É provavelmente o meu melhor trabalho, mas isso deve-se também ao encenador e aos outros atores”.

Se o teatro ajuda a pensar a vida e se esta peça tem uma mensagem, Viviane De Muynck diz que “continuar a viver e seguir sempre em frente perante qualquer adversidade” é a mensagem.

“Temos de aceitar que há coisas que nos ultrapassam e que não vamos mudar. Se não aceitarmos, viveremos na amargura. É preciso lutar pela renovação, saber aceitar a mudança, porque não há vida sem morte e não há amor sem perda”, reflete.

O tema atual do assédio sexual no meio artístico, principalmente na indústria do cinema, fica para o fim da conversa. O Observador pede opinião à atriz e ela responde que o assunto é complexo e não pode ser analisado em três os quatro frases. “Não é apenas uma questão de género, é uma questão de corrupção no exercício do poder por parte de muitos homens”, adianta. “Nunca, mas nunca, tive qualquer problema a esse nível, talvez por ter chegado à representação já depois dos 30 anos e não com 17 ou 18. Se alguém me dizia alguma coisa que me parecia desagradável, só tinha uma resposta: ‘fuck off’”.