No PS, há três maneiras de olhar para os impactos do ressurgimento de Pedro Passos Coelho: o cálculo imediato; o risco de crise; a reconfiguração da direita. Por agora, os socialistas divertem-se com os problemas na casa adversária, convencidos de que contribuem para o desgaste da imagem do Governo. Mas não deixam de dar sinais de receio de que essa pressão leve Luís Montenegro a precipitar uma crise política e que, mais adiante, Passos consiga mesmo erguer uma frente de direita para governar.
Esta terça-feira à noite, no final da entrevista que deu à RTP (e que prosseguiu na RTP Notícias), o líder do PS até começou por aproveitar a manifestação de disponibilidade de Passos para atingir o Governo de Luís Montenegro. Disse que percebia que o antigo primeiro-ministro se manifestasse, admitindo que possa sentir que “a sua voz não está a ser respeitada por quem está no Governo”. Mas logo de seguida, José Luís Carneiro apontou a Passos, não vá o diabo tecer esse como um eventual adversário. Disse que “não tem uma ideia nova para o futuro do país” e que “é importante que alguém que tem contributo para dar para o futuro do país não esteja concentrado no passado”, atirando ainda à defesa que Passos fez de acordos à direita: “É para andar para trás, para o tempo dos três Salazares.”
Para os socialistas, continua a ser temível a figura que esteve ao leme durante os anos da troika e da austeridade e que, ainda assim, um António Costa acabado de chegar à liderança do PS não conseguiu derrotar nas legislativas de 2015. Por agora, a resposta é desvalorizar o regresso, sem desperdiçar os problemas que provoca na casa adversária.
“O PS tem de se concentrar em fazer o seu próprio caminho”, diz ao Observador Luís Testa, secretário nacional adjunto do PS. Mas o dirigente não deixa de apontar que as declarações de Passos “denotam que a construção do modelo de alternativa do PSD não está a ser bem feita”. E acrescenta: “O PSD ainda não conseguiu encontrar o seu próprio registo sequer para consumo interno.”
Já na segunda-feira, na Rádio Renascença, Fernando Medina tinha lido a entrevista de Passos como “um desafio claro à liderança e uma manifestação expressa de vontade de que haja uma rutura”. “Não é uma reflexão de um ex-primeiro-ministro distanciado e preocupado com temas do futuro e do longo prazo, é a afirmação de uma alternativa de liderança do partido que está no Governo.”
Na noite anterior, logo após a entrevista de Passos, Alexandra Leitão apontara, na CNN Portugal, a mesma disputa sobre o rumo do partido: “Há um PSD que privilegia acordos mais ao centro, centro-esquerda com o PS, e há outro PSD que privilegia acordos com o Chega. E no dia em que essa clarificação for exigida, isso vai ser um problema para o PSD.”
É dessa disputa que os socialistas esperam tirar proveito. “É sempre melhor para o PS. Não só mostra que o Governo é mau, como que o que vem a seguir será pior”, resume um destacado socialista ao Observador, mais focado no que este aparecimento de Passos expõe: “A desagregação do PSD”, entre os que admitem um acordo de legislatura com o Chega, como Passos, e os que não querem mais do que acordos pontuais (como Montenegro). “O PSD no seu labirinto“, sintetiza uma fonte da bancada parlamentar do PS.
“Na visão de curto prazo, para o PS é bom, porque é mais mobilizador de votos”, diz outro dirigente, que vê nessa divisão “um campo de oportunidades mais vasto para o PS, nomeadamente na atração do eleitorado do centro moderado”.
A expectativa é que a aproximação ao Chega possa afastar uma parte do eleitorado do PSD e torne o PS uma alternativa aceitável para esses mesmos eleitores. É, aliás, nessa lógica que os socialistas evocam a segunda volta das presidenciais: perante a escolha entre António José Seguro e André Ventura, eleitores sociais-democratas não tiveram dificuldade em votar no socialista. E Seguro acabou com 67% dos votos, o candidato mais votado de sempre; Ventura ficou pelos 33%. “Há margem de crescimento para o PS nessa perspetiva de radicalização do PSD”, aponta um dirigente do PS apoiado no perfil moderado de José Luís Carneiro.
Dois riscos e uma vantagem (a longo prazo)
Um efeito que os socialistas receiam é que a mesma pressão que desgasta o Governo possa levar Luís Montenegro a precipitar uma crise política. Um destacado socialista admite que Passos contribua para criar “tanta desconfiança e divisão que o próprio Luís Montenegro pode querer eleições quando deixar de ter orçamentos aprovados”. A dificuldade em aprovar um orçamento seria, nessa leitura, o teste decisivo à resistência do primeiro-ministro. À falta de apoio parlamentar poderia somar-se a contestação dentro do próprio PSD, levando Montenegro a procurar uma nova clarificação nas urnas.
Esta terça-feira à noite, no canal Now, o socialista Duarte Cordeiro notou que o” regresso e sucesso” de Passos “dependem do insucesso de Luís Montenegro, da instabilidade política, da oportunidade de eleições antecipadas e da derrota do PSD. Não só deseja como contribuiu”, disse concluindo que isso “gera instabilidade na direita”. Também sublinhou que o antigo líder do PSD “só teve palavras de elogiu para Ventura” e é, neste momento, aquele que “a par com Ventura beneficia na instabilidade e de ter eleições antecipadas”. Desejou, por isso, que o Governo e os restantes partidos queiram estabilidade.
Já no programa Comissão de Inquérito, da Rádio Observador, o antigo ministro Pedro Siza Vieira recusa fazer a avaliação do regresso de Passos em função do que beneficia cada partido, mas também não mostra dúvidas sobre o que pode significar. “Ver um nome de peso dentro do PSD a trabalhar para interromper a legislatura faz-me impressão. Não acho que seja bom para ninguém.”
Na atual direção do PS, é visto como um risco que a atual legislatura termine sem que o PS tenha ainda conseguido fazer o trabalho de recuperação de eleitorado e de imagem depois do desaire das legislativas de 2025, em que passou para a terceira força política no Parlamento. José Luís Carneiro tem valorizado os resultados das sondagens, mas na direção socialista considera-se que ainda são insuficientes para chegar ao Governo. O PS continua a precisar de tempo.
É nesse trabalho de recuperação que Carneiro tem procurado afirmar o PS como “referencial de estabilidade”, por oposição ao Chega, que apresenta como pouco confiável. A aposta na polarização com André Ventura procura, sobretudo, recuperar os eleitores que trocaram o PS pelo Chega nas últimas legislativas.
Olhando para mais adiante, o receio é outro: que Passos Coelho consiga mesmo transformar a aproximação entre PSD, Chega e IL numa solução de governo. “Ele vê uma maioria de direita”, nota um destacado socialista que aponta o exemplo italiano de entendimentos entre a direita tradicional e a extrema-direita. Um antigo governante socialista admite que Passos possa beneficiar o PS, mas deixa um aviso: “O risco é o cenário de uma maioria de direita. É perigoso porque cria cenários de uma geringonça de direita“.
Mas também há uma coisa que o PS aprendeu com Passos, que é a sua capacidade para potenciar o voto à esquerda. Se constituir uma maioria de direita, volta a dar força ao espaço político do centro-esquerda”, nota um dos interlocutores. Já um membro da direção do PS destaca que Pedro Passos Coelho “não entra no eleitorado moderado” e recorda o precedente de 2015: “Ele permitiu fazer a geringonça.”
É nessa mesma capacidade de mobilização dos adversários que Alexandra Leitão identifica uma das forças que Passos pode acabar por trazer à esquerda: “Se há alguém que continua a ter efeito de motivação da esquerda é mesmo Passos Coelho.” A socialista acrescenta: “A minha intuição é que ele continua a ser alguém que polariza muito a sociedade portuguesa.” Mas essa eventual vantagem chegaria depois de uma derrota: se Passos conseguisse formar uma maioria de direita para governar, Carneiro teria falhado o objetivo de levar o PS de volta ao poder. A mobilização da esquerda seria uma oportunidade para o ciclo seguinte — eventualmente, já com outra liderança socialista.
[Annie conhece o ministro do Interior de Cuba há muito tempo, mas a paixão que os une é relativamente recente. É justamente nessa altura que Zé Manel, como ela lhe chama, vai ser implicado num dos maiores escândalos da liderança de Fidel Castro. O “Caso Ochoa” envolve droga, fuzilamento, prisão e o narcotraficante mais conhecido do mundo: Pablo Escobar. Já pode ouvir o quinto episódio de “Os Escândalos de uma Revolucionária”, o novo Podcast Plus do Observador. Está disponível no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube.]