Crítica de Livros

O cordeiro com nome de Lobo

202

António Lobo Antunes parece querer dar uma nova pele à língua. O problema é que, de tão bem rotinada, a sua forma de narrar acaba por desvendar o seu lado técnico.

MARIO CRUZ/EPA

Autor
  • Carlos Maria Bobone

Título: “A Última Porta antes da Noite”
Autor: António Lobo Antunes
Editora: D. Quixote
Páginas: 453

Que é a última, já Lobo Antunes o anuncia há demasiado tempo para acreditarmos; que é porta, porém, é mais fácil de crer: à barreira estilística, cheia de ademanes e construções espaventadas, basta uma chave universal para que desvele o nada por trás dela. O leitor nada tema: que abra e porta e que se embrenhe na noite. Não vá a escuridão esconder a chave, Lobo Antunes providenciou antes uma série de chavões, que não correm o risco de passar em claro.

Se tem mestria estilística? Claro que sim; mas acima de tudo faz dela uma chave-mestra que dá a volta a imprecisões e banalidades, desemperra a história e abre caminho a uma infinitude de histórias paralelas. O enredo é curto, não mais do que a história de um grupo que decide matar um homem e desfazer-lhe o corpo em ácido. Uns volteios estilísticos e já temos uma colecção de infâncias infelizes em lembrança giratória, ora um ora outro, depois entrecortam-se e repetem-se as cenas, e temos um volume pontilhado de vidrinhos pronto para impressionar à distância.

Porque à distância tudo parece arrojado: são frases caóticas, variação de sujeitos na mesma frase, frases interrompidas, omissão de palavras, repetição psicótica de temas e de palavras, ritmos vertiginosos e sinédoques audaciosas. Com o avançar da leitura, porém, apercebemo-nos dos esquematismos destas pretensas vanguardas.

Lobo Antunes parece querer dar uma nova pele à língua, de uma maneira que podia ser interessante. De facto, na sua torção da gramática, podia haver uma tentativa de testar os limites da compreensibilidade da linguagem. Isto é, a gramática é importante enquanto sistema de precisão. É a garantia de que aquilo que é dito é percebido da mesma forma por quem ouve. Se conseguimos encontrar uma maneira de garantir a mesma função sem recorrer aos mesmos mecanismos, é quase como se inventássemos a língua de novo. Mais, se é mais ou menos pacífico que as estruturas do pensamento condicionam o próprio pensamento, a destruição dessas estruturas alarga realmente a cabeça. E, nalguns momentos, Lobo Antunes consegue-o como um grande:

E de cada vez que falávamos não uma voz apenas com tanto cimento oco por ali, uma segunda voz palavras trocadas, uma terceira sílabas somente que se reuniam e afastavam”.

Toda a frase é interessante, seja pelos verbos omissos, a reduzir a frase o máximo possível, seja pela forma como dá o cenário – o cimento – numa frase que trata de outra coisa, seja pela adequação entre o assunto – uma certa confusão do discurso – e a forma que o narrador lhe dá, sem vírgulas onde deviam estar, com a passagem do singular para o plural e a variação de sujeito, próprias da tal confusão de discurso.

O pior é que, no geral, este pretenso arrojo é absolutamente esquemático. Quando não serve apenas para desculpar má gramática (logo na primeira frase, “foi ele que me acordou ao telefone para dizer que sonhara que tinha morrido enquanto eu (…) estendia a mão” – sonhava que tinha morrido enquanto o outro estendia a mão, ou contava o sonho enquanto o outro estendia a mão?), todos os desvios do discurso normal têm um fio colado ao caminho. É certo que Lobo Antunes cruza com suavidade vários assuntos, dando a ideia de uma forma de pensar caótica, que abandona e recupera constantemente assuntos. No entanto, é fácil de identificar a fórmula.

Lobo Antunes cruza duas história como se de versos se tratasse, em esquema ABAB, por exemplo:

“há momentos em que a acho bonita, outros nem por isso, quando fala a metade esquerda dos lábios aumenta mais que a direita (A), toda a gente, desde o engenheiro do escritório ao homem na furgoneta (B), mais rica do que eu (A), mesmo o doutor, claro (B). Ou seja, se realinharmos os sujeitos cruzados, temos duas frases convencionalíssimas. Pode ser um efeito engraçado, mas não é mais do que fogo de vista. As frases, na verdade, estão ordenadas da maneira comum. Além do mais, a pertinência do recurso é muitas vezes questionável. “nem o ervanário nem eu entendíamos com tanto grito (A), às vezes cruzo-me com a irmã dele (B), fosforescente (A), e fingimos não nos conhecer (B), de morcego (A)”.

Imagine-se o leitor cercado por morcegos, perturbado pelos seus gritos ensurdecedores, que não o deixavam comunicar com o seu cúmplice enquanto estavam em plena cena de um crime. Seria a altura em que um devaneio fraternal surgiria? Esta variação é interessante enquanto acompanha o pensamento e a sua tendência para a dispersão; ora, nos momentos mais tensos a abstracção costuma ser mais difícil. Lobo Antunes prefere a técnica à realidade, e é isso que a torna artificial.

O mesmo se passa com a omissão de palavras ou com a suspensão de frases. Lobo Antunes gosta de fazê-lo, como em “percebia-se que cães junto ao armazém”, ou “lá o convenceu porque o pai dele empregado do meu pai”, ou “sei lá se lobisomens por ali”. Percebe-se o recurso caso se pretenda mostrar que uma frase é compreensível mesmo sem alguns dos seus elementos essenciais, como forma de sugestão, ou até para criar dúvida ou tensão no leitor: há algo que fica ao cuidado da nossa imaginação, uma incerteza sobre se interpretámos correctamente o que ali estava. Agora, Lobo Antunes só omite os verbos básicos. É óbvio que havia cães, que o pai dele era ou fora empregado, que não sabe se há lobisomens. Isto é, as omissões são óbvias, seguras, e não têm arrojo nenhum. Externamente contam como uma inovação, ou uma fuga às convenções, mas na verdade, ao contrário da expressão, são obra de cordeiro com nome de Lobo: espantam mas não mordem.

Poderíamos não fazer caso de nada disto, tratá-lo como marginália, se o autor não vergasse todo o livro a estas manobras estilísticas. É nelas que está o essencial, e elas contaminam tudo, do enredo, aos diálogos e às personagens.

À falta de enredo propriamente dito, Lobo Antunes arranja forma de a tornar o centro do romance. É muito bom a fazê-lo, de facto. O modo de descrever um assassino em flagrante delito, alternando a descrição gráfica da morte com a memória de uma infância acarinhada é muito bem feita. Mais: o desafortunado cadáver é raptado em frente à filha pequena, e a intromissão das recordações da infância torna mais impressiva a presença da rapariga. Sem sentimentalismos acerca da sua relação com o pai, a sua presença é reforçada pela descrição de outra infância. Mais, esta infância, marcada pelas saudades de uma avó, está lá como uma marca de traição a um rapaz bom e à imagem que dele fazia a avó de que ele tanto gostava. Por descrições oblíquas, Lobo Antunes consegue tornar uma cena verdadeiramente perturbadora.

O problema é que, de tão bem rotinada, a sua forma de narrar acaba por desvendar o seu lado técnico. Há alguns elementos recorrentes. Em primeiro lugar, a repetição de ideias. Seja, primeiro, com a ideia de que as raparigas do liceu não envelhecem (glosa repetida várias vezes), seja, depois, com o aparecimento das todavias. Isto é, com a repetição de um elemento aparentemente banal, Lobo Antunes cria um sobressalto interpretativo e uma espécie de terreno confortável: o leitor pressente que as todavias vão ser importantes, que de tão repetidas têm importância, e ao mesmo tempo, de cada vez que as vê referidas, cria uma espécie de ligação entre episódios esparsos. A repetição funciona como sugestão de que há uma relação entre episódios, mesmo que a ligação depois não exista em mais do que essa referência arbitrária.

Ora, esta pretensa importância dos elementos repetidos perde força quando vemos a quantidade de repetições, sobretudo nos diálogos. As personagens de Lobo Antunes dizem pouco. No entanto, nas curtas frases que dizem, há uma impressão de profundidade criada, hélas, pela repetição. “És tão mau”, diz uma personagem. Três linhas depois a frase ecoa “És tão mau”, duas páginas depois repete-se “És tão mau”. Ou “Perdão”, duas linhas, “Perdão?”, duas linhas, “Perdão?”, mais duas linhas. Esta repetição dá ideia de que as frases são profundas, memoráveis, voltam sempre à cabeça das personagens.

A repetição é central nos romances de Lobo Antunes. E se isto por um lado é normal, dada a importância da memória no seu imaginário, por outro acaba por se estafar como mecanismo literário. Tanto serve para identificarmos personagens – todos têm uma pequena obsessão que volta e meia aparece, para nos garantir que ainda estamos dentro da sua voz (o bilhar num cobrador, a religião no ervanário) – como para criar a ilusão de importância. E, às tantas, não é mais do que um vício. Se uma rapariga diz a um Homem “Ficas tão engraçado”, ele passa a tratar-se a si próprio como “o tão engraçado”. Se um rapazola vê uma mulher com uma sombrinha, passa a tratá-la por “a sombrinha”. As personagens são tão atentas à linguagem que não pensam como cobradores, ervanários, ou Homens de negócios: pensam sempre como escritores, ultra atentos às palavras. Em vez de fazer literatura, são as personagens que pensam literariamente. Ora, o mais curioso, para quem rememora constantemente partes de diálogos ou pormenores de toda a espécie, é que ninguém usa o mais básico seguro da memória – o nome. Todas as personagens são obsessivas com pormenores, relatam episódios com uma imprecisão fotográfica e inventariam todos os objectos de uma cena. No entanto, nenhuma é capaz de nomear alguém. É certo que não condiz com a prosa de durão que Lobo Antunes quer imprimir; no entanto, também não condiz com o lado descritivo do seu estilo. Mais uma vez, resulta enquanto ofusca, mas passado o brilho inicial, deixam pouco na memória.

Bourget explicava, a propósito de Baudelaire, que a ideia de decadentismo vêm do insulamento das frases ou versos num romance. Isto é, cada frase passa a valer como organismo independente e não como parte de um todo. Nisto, Lobo Antunes é, e bem, o oposto do decadente. Uma frase, por si, é impenetrável, e isto faz do livro um bloco uno, em que tudo está de tal maneira entretecido que nada é verdadeiramente dispensável. Nisto é, de facto, muito diferente da maioria dos seus contemporâneos, e é também este um dos aspectos da sua grande mestria estilística. Na filosofia literária subjacente, porém, Lobo Antunes não foge aos chavões típicos da nossa época. Como em quase todos os escritores contemporâneos, a acção deixou de estar centrada em acontecimentos, para se centrar num psicologismo barato. Isto é, temos o fim revelado à partida – uma morte, e temos uma série de princípios – as infâncias. Toda a trama, já não só de Lobo Antunes, mas de quase todo o romance contemporâneo, consiste em ligar este princípio e este fim através da revelação de qualquer coisa que explique a transformação do menino inocente no horror que se tornou. Lobo Antunes não foge a isto, como não foge à mania de tratar o banal como o supremo tema literário. Não o que há de extraordinário no banal, mas em mostrar o banal como banal, precisamente aquilo que todos conseguimos ver.

Há alguns tópicos que são próprios de Lobo Antunes, como o quotidiano burguesinho que todos cumprem insatisfeitos; mas até isso parece que se tornou uma comodidade de que o autor não sabe sair. A que propósito é que uma série de pessoas com vidas miseráveis, que são incapazes de se libertar das mulheres que lhes massacram o juízo, por exemplo, a que propósito é que essas pessoas, a quem a inércia impede de tomar as rédeas da vida, mesmo contra aquilo que não os satisfaz, é capaz de um acto tão radical quanto um tenebroso assassinato. Se esta contradição entre a passividade e a acção tão furiosa fosse motivo de perplexidade ou de reflexão, era uma coisa; no entanto, o que parece é que as personagens já tem obrigação de sair resignadas da pena de Lobo Antunes, mesmo que depois toda a história contrarie a formação dos seus caracteres.

Que Lobo Antunes tem um estilo depurado até às raias da perfeição, ninguém o contesta. Mas na literatura, como nas corridas, ninguém paga para ver o piloto automático.

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