A casa faz o monge. Assim como muitas crianças têm brinquedos espalhados pela casa – um lego aqui, um boneco ali – Diogo Rico tinha instrumentos. Não dele, claro, pertenciam ao pai, músico de fim de tarde, músico pós-laboral, se assim se preferir. “Não eram músicos, mas o meu pai gostava de música e de tocar, tinha guitarras, teclados, baterias, cantava umas músicas, Pink Floyd, por aí”, conta. O curso natural da vida, também chamado de “uma coisa leva à outra”, fez com que, aos cinco anos, Churky – alcunha que ficou de um nickname usado num videojogo, em miúdo – começasse a tocar guitarra, se inscrevesse numa escola de música, ganhasse, gradualmente, vontade de cantar e escrever temas para a sua voz. Cresceu, fez-se gente e é hoje um dos novos valores da pop-rock nacional. Pelo menos, é isso que quer provar com É, disco editado em Fevereiro pela Sony.

Aos 13 anos já sabia tocar uma porrada de instrumentos. Embalado pela jams que o pai fazia em casa, mais o que aprendeu na escola especializada, mais o que ia ouvindo por livre vontade, mais tudo, chegou às indispensáveis bandas adolescentes com amigos, esse lugar de puberdade e de iniciação, entre covers e os primeiros originais, entre Strokes e uns rabiscos no seu caderno.

Esteve na escola até ao 11.º ano e depois dedicou-se por completo à música, onde tem referências e discos vários: “Gosto de coisas muito diferentes, mas sim, principalmente os Strokes, gosto muito, ainda hoje. Depois os Beatles também foram muito importantes, cheguei lá mais tarde, já os conhecia, mas depois fui ouvir com mais atenção e conhecer a obra, talvez aos 20. O OK Computer, dos Radiohead, foi também muito importante, e o Ventura, dos Los Hermanos”, explica.

E para tudo isto também muito contou o facto de ter crescido em Alcobaça, que é obviamente algo radicalmente distinto do que é crescer em Lisboa ou no Porto:

“É uma realidade diferente, as pessoas conhecem-se todas e isso muda as coisas. Em Alcobaça há muitas bandas, e isso foi importante, isto não é assim tão conhecido mas tem muitos projetos, ver essas bandas a crescer foi bom, a malta daqui tem esta tendência para a música. Há, de facto, um circuito de bandas de vários estilos, é uma cena interessante.”

Ainda que não se tenha afastado por completo, está perto, vai estando por lá, Diogo vive hoje na Nazaré, uma opção pessoal que o aproxima do mar, que tanto gosta de vislumbrar, mas não só, há uma “forma de ser e de falar muito particular” nas ruas da Nazaré, são as pessoas desta vila que está no mapa mais pelas ondas do que pelas pessoas. Se bem que Churky não esconde que proximamente o desejo é mudar-se para Lisboa, estar mais perto de onde, infelizmente, as coisas acontecem, porque as oportunidades são mesmo oportunidades.

Quando elas – as oportunidades, claro – não abundam, há que tentar fazê-las, criá-las. Antes deste É, o músico havia editado independentemente Golden Riot, uma espécie de coletânea dos seus primeiros anos: “São as primeiras musiquinhas que fui escrevendo desde os 13 anos, fiz um apanhado das canções que achei mais fixes e que estavam melhor gravadas e decidi lançar um disco para poder fazer uns concertos. Naturalmente aquilo não foi pensado para ser um grande primeiro disco, com uma lógica conceptual e tudo mais, aquilo foi mais para dar àquelas canções uma existência física e fazer um resumo”, enquadra.

Como tantos outros, Churky começou sozinho no quarto. Fazia tudo. Tudo que é preciso fazer para ter uma faixa gravada, pronta a partilhar. O abismo é enorme quando lembra que, a propósito do EDP Live Bands, teve a oportunidade de tocar, com a sua banda – coisa que antes não tinha – no NOS Alive, no MadCool Festival, em Madrid, e ainda gravou um disco num estúdio com todas as condições que desejava:

“Foram experiências incríveis, viajar com a malta, conhecer as bandas que a gente gosta. Em relação à Sony, tive a possibilidade de gravar o meu disco no Estúdio da Estrela, do Marcelo Camelo, e como para mim é um dos mestres, poder estar ali naquele meio, conhecê-lo, foi brutal”, admite.

E o resultado disso é um disco de canções, uma escrita bem portuguesa, com as nossas referências, uma pop-rock oscilante, que tanto opta pela intimidade, e por um punhado de baladas onde reinam as cordas e uma luz ténue, como opta por viagens entre ritmos, teclados meio sonhadores, sopros em êxtase. Sim, sopros, algo que por aqui conta muito: “O naipe de sopros muda tudo, era uma das coisas que não usava de todo e que estou a gostar muito de fazer, sinto que está a marcar o som, está em todas as canções do disco. E é engraçado, inspirei-me nesta banda, no facto de poder levá-la para estrada e tentar que ao vivo as músicas soem relativamente parecidas com o que está no disco, basicamente fiz os arranjos a pensar dessa forma”, avisa.

Por mais que a banda seja um alento, uma inspiração, uma possibilidade de dimensão maior, Churky não dispensa do seu tempo para estar sozinho. Até porque se assim não fosse a coisa não funcionava, como o próprio diz: “Toda a música que faço, faço-a sozinho e depois é que passo à banda. Preciso de estar sozinho, concentrado, depende um bocado, mas em princípio é trabalho, estar focado, são contas, é quase matemática, não que é que eu perceba alguma coisa de matemática, mas sinto isso sim, que a música é um bocado matemática, que tudo tem uma espécie de solução ou resposta, e eu gosto de estar sozinho a procurá-la”.

Churky atua esta quinta-feira, dia 14, no Teatro Aveirense, dia 22 no Musicbox, em Lisboa, dia 23 no Cine-Teatro de Alcobaça João d’Oliva Monteiro e