A culpa é de Stieg Larsson que meio mundo ande a ver séries policiais suecas. E dinamarquesas. E finlandesas. E versões americanas de séries suecas e dinamarquesas. A literatura policial nórdica já tinha uma longa e honrosa tradição mas foi o malogrado autor sueco e a sua trilogia Millenium que mostraram a toda a gente que o norte frio e escuro era um lugar como qualquer outro para se cometerem os crimes mais sórdidos. Ou melhor que qualquer outro lugar, na realidade. As aventuras de Lisbeth Salander — que podia muito bem ser a heroína do movimento #me too – abriram o caminho, a ascensão dos serviços de televisão em streaming consolidaram um género que seria injusto qualificar como uma simples moda: o Nordic Noir, às vezes apelidado de Scandi Noir.

Longe vão os tempos em que as séries policiais, e não só, se mediam pela bitola britânica. Era a época do “selo BBC”, às vezes ITV, a garantia de qualidade que confortava até o telespectador mais desconfiado. Das adaptações de Agatha Christie a Sherlock Holmes (a série original, com Jeremy Brett), sem esquecer clássicos como “Inspector Morse”, “Prime Suspect”, “Crimes de Midsomer” ou “Testemunha Silenciosa”, vários são os exemplos, no que ao crime diz respeito, da idade de ouro da televisão inglesa, quando tínhamos de estar em frente ao aparelho à hora certa se  não quiséssemos perder um episódio, um conceito completamente estranho para quem hoje tem, vá lá, menos de 30 anos.

A televisão deu muitas voltas até chegar ao advento do streaming e, criminalmente falando, o epicentro está hoje localizado nos países do norte da Europa. E, ironia do destino, por estes dias, os britânicos já só querem fazer séries policiais como os nórdicos. Foi, aliás, a University College de Londres que acabou por cunhar o termo Nordic Noir, cujo mais recente exemplo chega esta sexta-feira ao Netflix e vem da Suécia. Em “Quicksand”, assim se chama a nova série, uma jovem estudante aparentemente exemplar é acusada de homicídio no seguimento de um tiroteio em massa numa escola em Estocolmo.

[o trailer de “Quicksand”:]

O género Nordic Noir, na literatura e na televisão, partiu à conquista dos principais mercados europeus e além. Vários livros policiais foram traduzidos para mais de trinta idiomas e autores como os suecos Henning Mankell, Stieg Larsson e Liza Marklund, o norueguês Jo Nesbø e o dinamarquês Jussi Adler-Olsen vendem hoje milhões de cópias dos seus romances policiais fora da Escandinávia.

No que à televisão diz respeito, tudo começou com a série dinamarquesa “Forbrydelsen” (“The Killing”, 2007–2012), exportada para mais de cem países e territórios em todos os continentes, tendo mesmo conquistado um Emmy de melhor drama internacional em 2010 e o BAFTA Internacional em 2011, acabando depois por ter direito a uma versão norte-americana. Mais longe foi “Bron” (“The Bridge”, 2011-2018): a série passada na fronteira entre Dinamarca e a Suécia foi adaptada para vários mercados e fronteiras: Reino Unido e França, Estados Unidos e México, Estónia e Rússia, Alemanha e Áustria e Malásia e Singapura.

A entrada em cena dos serviços de streaming teve, naturalmente, um papel essencial na exportação do Nordic Noir, com destaque para o Netflix, onde a popularidade das séries nórdicas serviu também para abrir caminho para o sucesso internacional de produções oriundas de outros países, com a espanhola “A Casa de Papel” a servir de exemplo. Hoje em dia é possível, no Netflix, passar por séries holandesas, alemãs, polacas ou coreanas.

A “maneira” nórdica de fazer séries policiais contagiou também outros mercados. O ambiente negro, lúgubre, moralmente complexo e sem grandes metáforas — que pode parecer um paradoxo tendo em conta que os países nórdicos ocupam, invariavelmente, os primeiros lugares na lista das nações mais felizes do planeta – domina hoje, por exemplo, a produção inglesa. Os britânicos começaram por fazer a sua adaptação da série sueca “Wallander”, com Kenneth Branagh como protagonista, mas rapidamente passaram à produção própria com uma estética visivelmente inspirada nas séries nórdicas. Olhe-se, por exemplo, para “Broadchurch”, com Davis Tennant e a agora oscarizada Olivia Colman, ou para “Hinterland”, uma série galesa também disponível no Netflix.

[o trailer de “Broadchurch”:]

[o trailer de “Hinterland”:]

Um guia televisivo rápido para o Nordic Noir

“The Killing”. A primeira série do género a alcançar sucesso fora de portas, no caso na Dinamarca. A ação passa-se em Copenhaga, onde a inspetora Sarah Lund (interpretada por Sofie Grabol) investiga o caso de uma adolescente barbaramente violada e assassinada. A série durou três temporadas e teve direito a um remake norte-americano situado em Seattle protagonizada por Mireille Enos e Joel Kinaman.

Disponível no iTunes

“Bron” (“The Bridge”). Uma coprodução sueco-dinamarquesa que foi exibida em mais de uma centena de países. Tudo começa quando um corpo é encontrado exatamente no centro da ponte Oresund, que liga Malmö, na Suécia, a Copenhaga, na Dinamarca, dando início a uma investigação liderada pela detetive sueca Saga Norén e pelo seu congénere dinamarquês Martin Rohde. Vários remakes foram depois feitos, com destaque para a coprodução entre EUA e México, que passou também em Portugal.

Disponível no iTunes

“Deadwind”. Uma recente série finlandesa disponível no Netflix. Uma mulher aparece morta e enterrada num local onde será construído um empreendimento residencial em Helsínquia. Cabe à inspetora Sofia Karppi, que regressa ao trabalho depois de ter enviuvado, resolver o caso.

Disponível no Netflix

“Borderliner”. Uma produção norueguesa que pode ser vista no Netflix. Um polícia de Oslo regressa à sua cidade natal para investigar o que, à primeira vista, parece ser um suicídio, numa minisérie de oito episódios.

Disponível no Netflix

“Case”. O crime violento é coisa raríssima na Islândia mas nada que impeça esta série em que um advogado alcoólico e negligente se vê a braços com a investigação do aparente suicídio de uma jovem.

Disponível no Netflix

“Fallet”. Um série policial em ambiente de comédia que segue a tentativa de dois polícias conhecidos pela sua incompetência, uma detetive sueca e o seu congénere inglês, de resolverem um crime macabro.

Disponível no Netflix

“Bordertown”. Um respeitado inspetor de Helsínquia muda-se para uma cidade junto à fronteira da Finlândia com a Rússia onde espera ter uma existência tranquila com a mulher doente. Mas a vida naquele local ermo revela-se tudo menos pacífica.

Disponível no Netflix em alguns países