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Júlio Pomar

Erotismo anima corpos de homens e mulheres numa exposição de Júlio Pomar

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Para assinalar um ano da morte do artista, a 22 de maio, a diretora do Atelier-Museu do pintor organiza uma programação especial, iniciada pela exposição "Júlio Pomar: Formas que se Tornam Outras".

INÁCIO ROSA/LUSA

Autor
  • Agência Lusa

Corpos de homens e mulheres surgem animados pela sexualidade e erotismo nas telas e desenhos da nova exposição de Júlio Pomar (1926—2018), cuja obra foi atravessada por estas formas, “que amava por se tornarem outras”, quando pintava.

Para assinalar um ano da morte do artista, a 22 de maio, a diretora do Atelier-Museu do pintor, em Lisboa, Sara Antónia Matos, está a organizar uma programação especial, iniciada pela exposição que é inaugurada na quinta-feira, que dá pelo título “Júlio Pomar: Formas que se Tornam Outras”.

“Para Júlio Pomar, a pintura eram formas que se tornavam outras, e isso é muito visual nestes temas da sexualidade, erotismo e sensualidade”, salientou a responsável, em declarações à agência Lusa, numa visita ao Atelier-Museu, antes da inauguração.

No espaço amplo e aberto do edifício recuperado, junto à rua dos Poiais de São Bento, as 80 obras de pintura, desenho e colagens estendem-se pelo piso térreo e pelo primeiro andar, como se fossem um rasto de sensualidade, muitas vezes totalmente gráfico.

Mesmo nas obras dos anos 1940 – ponto de partida da exposição, que vai até aos anos 2000 – no período do neo-realismo, em que o pintor tratava de temas sociais, como as duras condições de vida dos trabalhadores, é visível a intensidade com que desenhava e pintava os corpos, salientou a diretora.

“Este período do neo-realismo é mais soturno nas cores e nos temas, mas a presença e realce das formas do corpo é já muito forte”, comentou Sara Antónia Matos, apontando para telas como “A Varina”, de 1949, na qual o corpo feminino, de contornos quase cubistas, mostra “uns seios proeminentes”.

Pinturas, assemblagens, cenografias, esculturas, desenhos e obra gráfica — gravuras, cartazes, serigrafias e ilustrações para livros — foram reunidas nesta mostra dedicada à obra de Júlio Pomar, num percurso de 70 anos.

O percurso continua nos anos 1960 e 1970, em que o erotismo é muito mais explícito, no meio de cores vivas, e surgem obras reveladoras de relações de amizade e de amor, como representações de Graça Lobo ou de Teresa Marta, a última companheira.

“Esta exposição fala de corpos e formas que se articulam e se complementam, ou fragmentam, e que, no seu encontro se tornam outras”, disse a diretora do atelier à Lusa.

Pintor e escultor, nascido em Lisboa, em 1926, Júlio Pomar, falecido em maio do ano passado, aos 92 anos, deixou um trabalho que é considerado de referência na história da arte moderna e contemporânea.

Tornou-se um dos artistas mais conceituados do século XX português, com uma obra marcada por várias estéticas, do neorrealismo ao expressionismo e abstracionismo, e uma profusão de temáticas abordadas e de suportes artísticos experimentados.

Sara Antónia Matos destacou ainda, nesta exposição, a obra “Banho Turco”, de 1968, inspirada na famosa tela de Jean-Auguste-Dominique Ingres, “O Banho Turco”, de 1862, e que marca uma viragem na obra de Pomar: “Quando ele se dirigia cada vez mais para a abstração, foi com esta obra de um banho turco que passou a estabilizar a pintura, em certos contornos”.

Depois, Pomar passou também a explorar outros géneros no mesmo estilo, nomeadamente paisagens, colagens e naturezas mortas, que aqui na exposição foram escolhidas na linha do mesmo tema.

No primeiro piso sucedem-se os desenhos de corpos femininos, e de casais entrelaçados, naquilo que fascinava Júlio Pomar: “formas que se tornam outras formas, corpos que se tornam outros corpos”.

E também surgem telas da série dos tigres, nas quais o corpo dos animais por vezes surge atravessado ou fundido por formas humanas, dando origem a outras.

O título desta exposição parte de uma afirmação do próprio artista — “Gosto de formas que se tornam outras” — retirada do seu livro “Da cegueira dos pintores”, de 1986, recordou a responsável à Lusa.

O artista deixou uma obra multifacetada, influenciada pela literatura, a resistência política, o erotismo e algumas viagens que o marcaram, como à Amazónia, no Brasil.

A obra foi dedicada sobretudo à pintura e ao desenho, mas realizou igualmente trabalhos de gravura, escultura e ‘assemblage’, ilustração, cerâmica e vidro, tapeçaria, cenografia para teatro e decoração mural em azulejo.

A exposição é inaugurada às 18:00 de quinta-feira, com curadoria de Sara Antónia Matos e Pedro Faro, ficando patente até ao próximo dia 29 de setembro.

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