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Polarização mundial dá atualidade a novo filme de Miguel Gomes sobre o livro “Os Sertões”

A inspiração surgiu algures 2015 e 2016, quando o português lia esta história sobre o conflito entre um governo e a população de uma pequena localidade chamada Canudos.

ESTELA SILVA/LUSA

Autor
  • Agência Lusa

O realizador português Miguel Gomes acredita que o ressurgimento de um sentimento de polarização no mundo tornou seu próximo projeto, o filme “Selvajaria”, inspirado no livro “Os Sertões” (1902), do brasileiro Euclides da Cunha, um reflexo da atualidade.

O projeto nasceu entre 2015 e 2016, quando o cineasta leu pela primeira vez aquela obra que narra um conflito violento entre o governo e moradores de uma pequena comunidade chamada Canudos, fundada por um líder religioso numa região pobre e semiárida do Brasil no final do século XIX, que terminou com o massacre de milhares de pessoas.

“O mundo está cada vez mais polarizado, há fações no norte e no sul, [existem divisões entre] os ricos e os pobres. […] Tudo está em efervescência, parece que tudo está prestes a explodir”, disse Miguel Gomes à Lusa durante a Festa Internacional Literária de Paraty (Flip), no Brasil.

“Esta atualidade [do romance ‘Os Sertões’] é percebida no mundo, na história de agora, por exemplo, quando se quer fazer crer que há uma espécie de guerras de religiões entre os islâmicos e o mundo ocidental judaico-cristão com barbaridades [que são cometidas] dos dois lados. Isto me trouxe a memória da Guerra de Canudos”, frisou.

O cineasta também contou que andava a questionar-se sobre o tipo de filme é possível fazer a partir de um romance com mais de 100 anos hoje, um tempo marcado por incertezas e recuos.

“No continente americano, no continente europeu, há uma série de coisas que pensávamos serem já estabelecidas como os direitos humanos e os mecanismos democráticos, que pensávamos estarem garantidos porque todo o mundo tinha assimilado e hoje estão em falência”, argumentou.

“Portanto, é um bocado triste dizer isto, mas […] de repente [descobri que] é um filme de guerra. Canudos é uma tragédia nacional [do Brasil] , mas eu acho que é uma tragédia que se pode desenhar num microcosmos e que ecoa o resto do mundo”, completou.

Miguel Gomes também mencionou a atualidade da história e presença de uma grande polarização dentro do Brasil.

“Estava a tentar fazer um filme de ficção a partir de um livro, mas um filme de ficção. Pensei: será que vou terminar por filmar um documentário? Basta olhar, por exemplo, a diferença da votação nas presidenciais brasileiras entre [a votação] no nordeste e o resto do Brasil para perceber como esta polarização está tão extremada. A atualidade [desta história] no Brasil é evidente”, ponderou.

O projeto contará com uma série de particularidades como, por exemplo, a participação de moradores da região de Canudos que não são atores, que Gomes conheceu quando pesquisava para criar o argumento, quando esteve no local onde ocorrerão as filmagens.

“Estas pessoas podem trazer para o filme, a partir do momento em que não são atores, a sua própria personalidade. Pode ser algo tão simples como a maneira de andar. O Euclides [da Cunha] tem lá no ‘Os Sertões’ um trecho em que ele fala de como os sertanejos [moradores] serpenteiam pela catinga [vegetação], contornando os espinhos de um modo particular. Eu quando cheguei lá confirmei isto”, relatou.

Haverá ainda um narrador que representará o próprio autor do romance Euclides da Cunha no filme.

Embora parte do argumento já seja conhecida, o realizador português fez suspense sobre como será mostrado Antônio Conselheiro, líder religioso e fundador de Canudos, que foi a principal figura daquele conflito.

“O [Antônio] Conselheiro, quer fosse louco ou não, acabou por ser, por sua atuação, um grande líder político que ainda hoje tem repercussão. A figura do Conselheiro era para Euclides [da Cunha] um louco que entrou para a história porque não teve lugar no hospício. Já para outros era um semideus, um profeta. Eu acho que ele só pode ser uma figura misteriosa”, avaliou.

Questionado sobre o conhecimento do público português a respeito da história e do livro que inspira “Selvageria”, Gomes conclui afirmando que pouca gente conhece “Os Sertões” e a Guerra de Canudos em Portugal.

Conhecido pela realização de “Tabu” (2012), premiado no Festival de Berlim, e pela trilogia “As Mil e uma Noites” (2015), Gomes deverá começar filmar “Selvajaria” até ao final do ano.

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