“O Traidor”

O quase octogenário Marco Bellocchio dá um ótimo contributo para o acervo dos “filmes de Mafia” com esta obra sobre Tommaso Buscetta, o primeiro grande “arrependido” da Cosa Nostra, a Mafia siciliana, que nas décadas de 70 e 80, com as suas informações, contribuiu para a prisão, anos mais tarde, de Totò Riina, o brutal líder da organização, e para o sério golpe que esta recebeu. Não é que Buscetta (soberbamente interpretado por Pierfrancesco Favino, já visto em “Suburra” ou em “Rush-Duelo de Rivais”, no papel de Clay Regazzoni) tivesse tido uma súbita e gigantesca crise de consciência. É que, sendo um “homem de palavra à antiga”, como ele próprio se define, repugnaram-lhe os métodos violentos e arbitrários de Riina, que não recuava ante mandar matar mulheres, crianças e parentes inocentes de membros da organização, o que ia contra o seu código de comportamento tradicional. Bellocchio recria com grande rigor e sentido dramático os interrogatórios e os julgamentos coletivos dos mafiosos, e “O Traidor” contém ainda uma sequência inesquecível, a do atentado ao juiz Giovanni Falcone em 1992, para o qual os criminosos fizeram explodir um troço inteiro da auto-estrada de Palermo, e que graças aos efeitos digitais vemos de dentro do carro em que aquele, a mulher e três guarda-costas da polícia seguiam.

“Branca como Neve”

Dar a Isabelle Huppert o papel da madrasta má de Branca de Neve numa versão contemporânea deste conto de fadas, e depois subaproveitar personagem e atriz, é imperdoável. É o que Anne Fontaine faz nesta releitura de fumos “feministas”, em que Branca de Neve, interpretada por Lou de Lâage, se chama Claire e trabalha na estalagem do falecido pai, que a madrasta, Maud, herdou. Esta fica furiosa quando sabe que o seu amante só tem olhos para Claire, atenta contra a vida dela e deixa-a por morta no meio do campo. Mas a jovem sobrevive graças a um fazendeiro e vai encontrar não sete anões, mas outros tantos homens, habitantes da vila em que se instala, parte dos quais seduzirá, libertando-se assim dos constrangimentos da sua educação e da sua vida com a madrasta, e emancipando-se sentimental e sexualmente. Redundante e enfadonhamente “revisionista”, “Branca como Neve” deve ser dos filmes menos conseguidos da autora de títulos tão respeitáveis como “Como Matei o Meu Pai”, “Nathalie”, “Gemma Bovery” e sobretudo o excelente “Agnus Dei-As Inocentes”.

“Dia de Chuva em Nova Iorque”

No seu retorno a Nova Iorque, e à sua bem-amada Manhattan, Woody Allen continua perfeitamente sintonizado no seu comprimento de onda estilístico, narrativo e intelectual, assinando um filme cujo herói é Gatsby Welles (Timothée Chalamet), um estudante universitário de família  abastada, que gosta de jazz clássico e filmes antigos, veste-se como se tivesse 50 anos, joga póquer com apostas altas, despreza as suas origens apesar de viver do dinheiro dos pais e não tem a menor ideia do que fazer com a vida. Aproveitando ter ganho um dinheirão ao jogo, Gatsby acompanha até Nova Iorque a sua namorada, a bonita, aérea e nada brilhante Ashleigh (Elle Fanning), que vai entrevistar um famoso realizador (Liev Schreiber) para o jornal da universidade, e hospedam-se os dois num hotel de luxo, com a ideia de passarem o fim-de-semana juntos.  Mas a chuva torrencial e uma série de peripécias e de encontros inesperados vão separá-los cada vez mais. “Um Dia de Chuva em Nova Iorque” foi escolhido como filme da semana pelo Observador e pode ler a crítica aqui.

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