Quando em 2007 a adaptação de A Bússola Dourada surgiu nos cinemas, era inesperado imaginar que seria um arranque em falso. Realizado por Chris Weitz, que trazia “Era Uma Vez Um Rapaz” na bagagem, o filme seria a primeira entrada de uma trilogia em volta do universo de Philip Pullman e dos livros Mundos Paralelos/His Dark Materials. O elenco encabeçado por Daniel Craig e Nicole Kidman não chegou para vender esta história de uma realidade alternativa com animais falantes e, claro, mundos paralelos. Apesar dos números simpáticos, 372 milhões nas contas de box office, “A Bússola Dourada” foi uma das muitas adaptações sem consequência que tentaram apanhar o comboio das bem sucedidas versões de “O Senhor dos Anéis” e “Harry Potter”.

A versão série de “Mundos Paralelos” estreia esta madrugada, de domingo para segunda, na HBO. A trilogia deu livros de fantasia/fantástico que hoje são uma referência, mas tem um problema neste tipo de adaptações: acontece numa complexa realidade alternativa onde universos paralelos se cruzam e tem um tom – e temas – que tanto servem um público juvenil como adulto. Qual é então o problema? Quando não se é carne nem é peixe, isso costuma dar salganhada nas adaptações. Por exemplo, os temas de “Mundos Paralelos” são tão ou mais sombrios do que os de “Guerra dos Tronos”, mas o universo de Pullman está povoado por animais falantes.

[o trailer da primeira temporada:]

São conhecidos como “daemons” e acompanham certas personagens, sendo uma espécie de exteriorização da alma, ou uma voz da consciência. Funcionam muito bem – aliás, são importantíssimos – nos livros e quando se vence o preconceito na série, tornam-se num elemento muito equilibrado entre a trama e algum do humor que existe no texto. Mas vencer o preconceito é sempre um salto de gigante e, neste caso, exige entrar no ritmo da série e perder tempo com alguns episódios: e ver três episódios, até se ficar convencido, é uma grande exigência nos dias que correm. Prova de como isto é um o obstáculo? Faça o exercício mental de imaginar que os dragões de “Guerra dos Tronos” falavam e se isso influenciaria – ou não – a sua opinião sobre a série.

Mas “Mundos Paralelos” tem ainda um outro problema. A produção da BBC/HBO está a tentar distanciar-se da ideia de ser um substituto de “Guerra dos Tronos”, mas é impossível convencer a audiência do contrário. E também é difícil de acreditar nessas intenções da BBC/HBO, uma vez que o primeiro teaser de “Mundos Paralelos” surgiu dias antes do fim de “Guerra dos Tronos”. O timing, mais uma vez, pode tramar a adaptação da obra de Pullman. Se no cinema tentou apanhar a carruagem de outros universos do fantástico e falhou, na televisão surge imediatamente a seguir ao maior fenómeno de sempre do género. Por isso, sim, é legítimo pensar que “Mundos Paralelos” quer ser a nova “Guerra dos Tronos”. Contudo, para “Mundos Paralelos” o fazer, é preciso não acreditar nisso.

[Dafnee Keen fala sobre a sua personagem:]

Os dois primeiros episódios de “Mundos Paralelos” são realizados pelo oscarizado Tom Hooper (“O Discurso do Rei”) e Jack Thorne (“Skins” e “This Is England”, entre muitos outros trabalhos para a televisão britânica) é responsável pela escrita dos oito episódios desta primeira temporada. Para quem conhece os livros, há uma decisão criativa que salta logo à vista: apesar do ambiente algo steampunk da série, “Mundos Paralelos” na televisão acontece num mundo visualmente mais parecido com o nosso – contudo, os zepelins continuam a ser um dos meios preferidos de transporte. Os elementos visuais puros da Era Vitoriana são colocados de lado para afastar o imaginário steampunk e de ficção científica: o steampunk continua a ser um elemento visual mal amado na transição livro-ecrã, como provado recentemente pela a adaptação de “Engenhos Mortíferos”, baseado nos livros de Philip Reeve, uma espécie de sucedâneo de Pullman e “Mundos Paralelos”.

Tal como nos livros, a série segue a aventura de Lyra Belacqua (Dafnee Keen) num mundo que é povoado por feiticeiras, ursos armados, uma organização chamada Magistério, uma espécie de maçonaria fundida com a Igreja Católica, e existem — claro está — mundos paralelos.

[James McAvoy fala sobre a sua personagem:]

Ruth Wilson, Lin-Manuel Miranda, Clarke Peters e James McAvoy encabeçam o restante elenco desta adaptação que, se convencer o grande público, tem tudo para durar muitos e bons anos. O universo de Pullman não merece comparações com outros e é muito melhor se for ingerido com uma cabeça limpa. Até porque vai precisar dela para admitir que pode eventualmente ficar viciado numa série com animais falantes.