Há quinze anos não teria sido como na noite de quarta-feira, no B.Leza, em Lisboa – Natalie Merring não teria entrado em palco de fato e camisa brancos, como uma espia sediada no Panamá, para praticar a sua pop cósmica garrida como cinemascope, cheia de confiança nas canções que compuseram um alinhamento irrepreensível – há quinze anos Natalie estaria a a rasgar a T-shirt branca mas suja de sangue falso e usaria a sua admirável garganta para produzir outro tipo de sons e outro tipo de experiência musical: era a vocalista de uma banda de metal chamada Satanized e costumava acabar os concertos no chão do palco a fingir a sua própria morte.

Na adolescência, Merring queria muito fazer música mas ao seu redor havia apenas bandas de metal; de modo que toca a encher as T-shirts brancas de sangue sujo. A experiência não durou muito: Merring aborreceu-se da limitações cena metaleira e, acima de tudo, aborreceu-se com o seu papel: imitar a agressividade de um rapaz. Aquela música não podia estar mais longe da sua maneira de ser, a de uma rapariga ensimesmada, que passava os dias a ler quando não estava a aprender música.

O seu passo seguinte foi aquele que normalmente os empreendedores proíbem: ir para a sua zona de conforto e compor canções folk. Deu a si mesma o nome Weyes Blood, a partir de Wise Blood, o extraordinário romance de Flannery O’Connor, e criou uma folk austera, feita de melodias antigas, de uma voz solene e solitária e de que canções que pareciam vir de um mundo que já não existe.

Mas foi em 2016, com Front Row Seat to Earth, que ela começou a encontrar um som que era só seu, que saía por completo das referências ao passado. Front Row Seat to Earth era uma improvável combinação de pop de banda-desenhada com rock progressivo, como se os Genesis ou os Yes fossem a banda de acompanhamento de Elton John; em “Used to be”, o segundo tema desse disco, há metais grandiloquentes em fundo, enquanto Merring canta, afectada e teatral, “You used to be the one”; lá atrás um coro canta nha nha nha nha. Isto é tudo tão improvável que se torna irresistível.

Sem a libertação de Front Row Seat to Earth não haveria Titanic Rising, o disco deste ano, que Merring trouxe a Braga e  a Lisboa, e que ela descreve como “um encontro entre os Kinks e a Segunda Guerra Mundial ou uma mistura de Bob Seeger com Enya”, no que é – talvez – a melhor definição que até agora li sobre o disco, será, inclusivé, uma definição humilde face a tudo o que acontece no disco.

Liricamente, Titanic Rising é uma recriação do apocalipse segundo uma millenial: vamos todos morrer porque as marés estão a subir e como é que se pode amar em sossego se nem sabemos respirar debaixo de água e quanto é que a renda de um quarto irá custar quando as temperaturas se tornarem insuportáveis?

Musicalmente é um pequeno milagre, uma montanha-russa de descidas sinuosas e ascensões vertiginosas, um vendaval de cordas luxuosas e metais, guitarras-slide e pianos e sintetizadores que parecem saídos do kraut-rock alemão dos anos 70 – como se Brian Wilson fizesse a banda-sonora do “Feiticeiro de Oz”.

Era impossível reproduzir Titanic Rising ao vivo, a opção foi adicionar as cordas pré-gravadas ao som de uma banda que inclui bateria, baixo, guitarra e teclas – o que realça o núcleo central das canções, tal como foram criadas. E realça a voz, aquela espantosa voz: toda a “magia” do disco está presente (as guinadas improváveis, as subidas estrepitosas, os arranjos imaginativos) mas é a voz que nos prende, canção após canção – e não há muita gente que possa arrancar um concerto com uma sequência de três canções como “A lot’s gonna change”, “Used to be” e “Everyday” (esta última um single perfeito, que faz tanto sentido nos anos 70 como fará no futuro).

O material à disposição de Merring é hoje tanto e tão bom que uma descrição de um concerto seu se torna numa sucessão de adjetivos elogiosos: “Something to believe” é grandiosa e cheia de curvas, “Andromeda” explode como fogo-de-artifício em dia de festa na aldeia, “Movies” é um colosso que acumula tensão antes de disparar rumo ao infinito. No encore ainda há espaço para uma admirável e inesperada versão desse clássico que é “Whiter shade of pale” (a lembrar o amor dela por esta época e pelos órgãos hammond).

Quem já viu Merring ao vivo várias vezes não tem dificuldade em avaliar da dimensão da sua libertação nos último par de discos: desapareceu a austeridade, a qualidade medieval da sua música, que antes era particularmente sofrida e agora está cheia de humor mesmo na escuridão, que agora procura os refrões grandiosos, a cor; ela própria parece mais solta, mais senhora de si, cheia de carisma, até na conversa de circunstância.

Julia Jacklin, Angel Olsen, Natalie Merring: em 2019, o indie-rock é das meninas. Mas isto já não é indie-rock, está a galáxias de distância. Isto é a música que vamos ouvir no futuro, quando as águas subirem, as temperatura se tornarem insuportáveis mas mesmo assim menos que a renda de um quarto em Lisboa, a música que vamos ouvir mesmo antes de morrermos, só para sorrirmos de prazer uma última vez.