Imaginar o futuro e o papel da tecnologia nas nossas vidas é sempre um exercício fascinante – sobretudo quando as opiniões pertencem a figuras públicas que nos habituámos a ouvir falar sobre outros temas. É o caso do psicólogo Eduardo Sá; do diretor-geral do Observador, Rudolf Gruner; da cantora Isaura e do escritor Pedro Chagas Freitas. Desafiados a pensar a influência da tecnologia 5G a nível pessoal e profissional, destacam as oportunidades e refletem sobre os desafios que se colocam.

A chegada do 5G, ou quinta geração de internet móvel, tem sido descrita como um fator disruptivo, que vai abrir a porta ao aperfeiçoamento de uma nova geração de serviços: vídeos de alta definição, jogos interativos, veículos sem condutor, cirurgias à distância, hologramas, realidade aumentada, etc. A Europa deve ter as primeiras redes 5G implementadas até ao próximo ano, mas os testes já estão a ser feitos e nisto a operadora NOS tem sido pioneira em Portugal. As mudanças são tantas que os especialistas dizem ser quase impossível prever o que aí vem.

O 5G permitirá a conectividade de inúmeros objetos à internet e entre si. Já não se trata apenas de ligar pessoas, mas também de permitir o controlo de máquinas, dispositivos e objetos utilitários do nosso dia-a-dia. Neste novo ecossistema, é possível descarregar a informação de forma instantânea, muito mais depressa do que hoje, e mais depressa do que qualquer um de nós poderia imaginar.

“Acabam-se os tempos de espera”

A cantora e compositora Isaura descreve-se como fã de tecnologias. “Gosto dos equipamentos e das possibilidades que nos oferecem; gosto de botões, ecrãs e de que o mundo nos esteja na ponta dos dedos”, resume. Reconhecida pelos portugueses através do tema “O Jardim”, interpretado por ela e por Cláudia Pascoal no festival da Eurovisão em 2018, Isaura entende que “a última década foi um compasso de espera para que pudéssemos aprender a lidar com a internet”. Foram anos em que definimos a nossa relação com as redes sociais e percebemos como consumir música, cinema, séries ou livros em ambiente digital. A fase em que experimentámos alter-egos na rede, ou então fomos apenas nós próprios, e passámos a assinar um jornal digital, a ir ao banco através do ecrã, a saber o que fazer com as nuvens de dados.

Por isso, a partir de agora, estaremos aptos a aceitar uma inovação tão consequente como a rede 5G. “Acabam-se os tempos de espera”, antecipa Isaura. “Como artista e produtora de música, o que me entusiasma mais em relação ao 5G é precisamente o fim da latência: será possível estar numa chamada via Skype com um produtor do outro lado do mundo, para trabalharmos em simultâneo e em equipa na mesma canção. Já há alguns anos que se testam plataformas em que uma sessão de estúdio pode estar a ser alterada simultaneamente por diversos computadores a quilómetros de distância. Acredito que o 5G possa ter um impacto muito grande na forma como se escreve e se produz música. O mesmo para áreas como a animação 2D e 3D, o cinema ou a fotografia.”

Em registo literário, Pedro Chagas Freitas, um dos mais populares ficcionistas da atualidade, afirma: “Os dias podem tornar-se maiores. É esse um dos mais importantes segredos da grande tecnologia: aumenta os dias, o que, otimisticamente, pode aumentar as pessoas: fazê-las maiores.”

Por seu lado, Rudolf Gruner, está convicto de que “a maior parte das utilizações que vão ser feitas do 5G ainda nem sequer foram inventadas”, enquanto Eduardo Sá não duvida de que esta tecnologia “trará o desafio de reinventar as comunicações e o modo como as vivemos, mas trará, sobretudo, a urgência de reinventarmos o Homem”.

Desafios de uma novidade

O psicólogo clínico e professor no Instituto Universitário de Ciências Psicológicas, Sociais e da Vida (ISPA), e também colaborador da Rádio Observador, sublinha os desafios desta e de qualquer nova tecnologia. São várias as perguntas que ocorrem a Eduardo Sá.

Será que a quinta geração de redes de comunicações móveis se transformará “num instrumento mais versátil que nos ajudará a pensar melhor pela nossa cabeça”? Irá acentuar a forma como estamos “dependentes dos telemóveis e das respostas que eles nos vierem a dar”? Será que os pais serão “mais capazes de se tornarem melhores pais ou, pelo contrário, acabarão por ser, sobretudo, ‘telepais’”? Será que a diversidade da informação nos tornará “mais singulares ou, pelo contrário, irá tiranizando a diferença, empurrando-nos para a unicidade de pontos de vista”? Será que o mundo se tornará “mais justo ou, pelo contrário, irá penalizando todos os nossos movimentos”?

Seja como for, Eduardo Sá acredita que o aumento da velocidade na internet móvel irá, ao que tudo o indica, “libertar espaço para que os desempenhos técnicos se possam dar mais facilmente à distância” e para que “a inteligência artificial concorra com a inteligência humana”, o que modificará necessariamente “a nossa noção de aprendermos com a experiência”.

Neste sentido, Pedro Chagas Freitas acrescenta que “há espaço para tudo” e que “a agilidade não inibe a profundidade”, porque “o problema nunca é o instrumento, apenas o uso que é feito dele. A tecnologia é também isso: quando é boa, está lá para não termos de pensar nela”, resume o escritor.

Para o gestor e diretor-geral do Observador, Rudolf Gruner, a tecnologia 5G “é muito mais do que uma simples evolução de 4G”, pois “não se trata só de fazer ‘downloads’ de filmes em segundos, em vez de longos minutos”, como atualmente.

“Mais do que os benefícios para os utilizadores individuais nos seus telemóveis, trata-se de conectar milhões de dispositivos em tempo real, que dão comandos uns aos outros e reagem em milissegundos, aquilo que hoje se denomina Internet of Things. A evolução para os carros autónomos, que andam sozinhos pelas estradas, usando informação que recebem instantaneamente e em grandes quantidades de outros carros que estão também a circular, de sinais e outras fontes, só será verdadeiramente possível com o 5G”, exemplifica Rudolf Gruner. E remata com otimismo: “O futuro é promissor.”