Um texto dramático transformado numa obra coreográfica onde a palavra não existe. É este o desafio que o encenador e coreógrafo Victor Hugo Pontes tem desenvolvido nas suas duas últimas criações. “Traduzir uma linguagem verbal para uma linguagem corporal e, assim, esbater as fronteiras que existem entre o que é o teatro e o que é a dança. É isto que tenho explorado”, explica em entrevista ao Observador.

A primeira experiência aconteceu em 2016 com “A Gaivota” de Anton Tchekhov, a segunda partiu da história “Seis Personagens à Procura de um Autor”, de Luigi Pirandello. Os dois clássicos têm em comum “o teatro dentro do teatro”, o jogo observativo entre o real e a ficção. Mas se em Tchekhov as personagens apresentam-se em duos ou trios, em Pirandello acontece o aposto e todos estão o tempo todo em cena. “Isso não é problemático quando existe a palavra, aí o foco é claro, mas a partir do momento em que não existe palavra, todos os corpos em cena têm o mesmo peso e importância. Para conduzir o espetador na minha leitura tenho de o direcionar, para onde quero que ele observe.”

Foto: José Caldeira

Mas, afinal, como é que um texto se transforma em dança? O processo de criação passa por “várias camadas”. “Em primeiro lugar há um estudo exaustivo do texto, em que fazemos uma análise dramatúrgica profunda sobre o tempo, a ação, o espaço, o acontecimento principal, os sons, os objetos e os símbolos”, revela o encenador.  Após esse levantamento, o grupo começa a improvisar verbalmente e no desenrolar dos ensaios essas palavras vão sendo substituídas por frases coreográficas sem palavras, mas com determinadas intenções e emoções, muito próximas do que são as palavras escritas por Pirandello.

“Apesar de não falarmos, todos sabemos o que está a ser transmitido. É claro que o público nunca chega a ter esta leitura fidedigna do próprio texto, porque lhe falta as palavras, mas também não é esse o meu intuito. Deixo um espaço muito grande ao espetador para ser ele próprio a construir a sua própria narrativa”, afirma, acrescentando que a maior dificuldade é libertar-se das barreiras naturais que um texto criar.

Para Victor Hugo Pontes, mais interessante do que impor uma interpretação é mostrar como é possível um objeto concreto, em que a palavra é retirada, se pode tornar mais forte e, de certa forma, mais poético. Na fronteira entre o teatro e dança, o criador prefere “ficar numa zona cinzenta” e o privilégio de não ser nem uma coisa nem outra. “Não gosto de por etiquetas, tenho formação nas duas áreas e sempre estiveram presentes no meu trabalho, complementam-se. Aqui, as artes performativas cruzam-se verdadeiramente e nenhuma tem mais protagonismo do que a outra.”

Foto: José Caldeira

“Drama” pode estar mais próximo da dança porque não tem palavra, e o teatro está muito associado a ela, mas tem personagens, que é algo que na dança normalmente não existe. “Prefiro ficar nessa zona cinzenta, de não ser uma coisa nem outra.”

O criador é fiel ao texto e respeita todas as didascálias de uma forma quase literal, prova disso é o piano conduzido ao vivo por Joana Gama, que dá complementa e introduz diferentes ambientes às cenas. “Tento respeitar as dinâmicas e as indicações do autor, se é uma criança de oito anos, não é um adolescente a fazer de criança ou vice versa.”

Em palco estarão 20 pessoas permanentemente, num elenco composto por bailarinos fixos, mas também perfeitos anónimos. “Em cada local em que apresentamos o espetáculo há a integração de intérpretes da comunidade local, que podem ser ou não artistas.” No Porto, Victor Hugo Pontes realizou um workshop de duas semanas, recebeu 90 interessados em trabalhar com ele, mas apenas 12 foram selecionados. Género e faixas etárias foram o critério principal desta seleção.

Foto: José Caldeira

“Drama” estreou em Guimarães, passou por Lisboa, e chega esta sexta-feira ao Teatro Rivoli, no Porto. No próximo ano, irá passar por Coimbra, Aveiro e Braga.