Que a China é um país muito “kitsch”, já o sabia. Mas não imaginava que lá ainda se dança ao som do disco dos Boney M. e com sapatos fluorescentes, como se vê numa das várias sequências visualmente arrebatadoras de “O Lago dos Gansos Selvagens”, o novo filme policial de Diao Yinan, que em 2014, com outro policial, “Carvão Negro, Gelo Fino”, ganhou o Urso de Ouro do Festival de Berlim, acrescentando-lhe o Urso de Prata do Melhor Ator. Nesta sequência, passada numa feira ao ar livre, agentes da polícia em busca de um fugitivo misturam-se com as pessoas que dançam, usando também sapatos fluorescentes. A situação degenera numa perseguição com tiroteio e na eliminação de um marginal num descampado sem luz, ficando-se apenas a ver as silhuetas dos polícias e o brilho dos seus sapatos no escuro em redor do cadáver.

[Veja o “trailer” de “O Lago dos Gansos Selvagens”:]

Como este, há outros palpitantes “tours de force” visuais em “O Lago dos Gansos Selvagens”, que é a transposição, para a China de hoje (a ação passa-se numa grande cidade do interior do país), a cores e com mais orçamento, de uma daquelas séries B policiais a preto e branco, económicas e fatalistas, como o cinema americano fazia muitas, em especial nos anos 50. É o caso dos “Jogos Olímpicos do Roubo”, em que duas “famílias” rivais de delinquentes, e depois de uma cena de pancadaria num hotel que controlam, resolvem que aquela que conseguir roubar mais motos numa noite, fica com as melhores zonas da cidade para “trabalhar”. É durante essa competição que o chefe de um dos “gangs”, Zhou Zenong (Hu Ge) comete um terrível erro, que o leva a ser perseguido pelos outros “gangsters”, e pela polícia, que põe a sua cabeça a prémio.

[Veja uma conversa com o realizador Diao Yinan:]

Zhou quer que a mulher, Shujun Yang (Regina Wan) e o filho pequeno, que o abandonaram, recebam o prémio oferecido pela sua captura, para compensar tudo aquilo por que passaram por ele se ter dedicado ao crime, e pretende que seja ela a entregá-lo. Os polícias andam a seguir e a intimidar a mulher de Zhou, porque sabem que ela os levará até ao marido. Os criminosos, por seu lado, e para chegarem primeiro, puseram uma jovem prostituta, Liu Aiai (a excelente Gwei Lun-Mei, que fazia de mulher fatal em “Carvão Negro, Gelo Fino”), que atende os clientes literalmente dentro do Lago dos Cisnes Selvagens do título, no encalce de Shujun. E Liu localiza-a antes dos agentes da lei.

[Veja uma cena do filme:]

Exímio e expressivo utilizador de todas as ferramentas da oficina cinematográfica, Diao Yinan filma brilhantemente esta empolgante e tensa busca noturna em duas frentes, com enorme sentido dramático e visual do espaço, das atmosferas e dos lugares, seja um zoológico onde a polícia encurrala um dos “gangsters”, seja um prédio vetusto e labiríntico por onde Zhou foge de um dos perseguidores. Yinan diz tudo através desta intrincada, trepidante e ofegante coreografia de corpos em movimento pela noite fora, ora nas sombras, ora em locais iluminados por néons de cores berrantes e molhados pela chuva estival, recorrendo a um mínimo de diálogo e exposição. Ao mesmo tempo que nos vai revelando uma China marginal, pobre, decrépita e pirosa, muito longe do pais “high tech”, laborioso e sorridente da propaganda e dos telejornais.

E em vez de claudicar e desiludir no final, arruinando tudo o que de bom fez até lá chegar, como acontece a muito bem lançado policial ou “thriller” de ação, “O Lago dos Gansos Selvagens” tem uma conclusão à altura, com uma piscadela de olho cúmplice e onde se escreve direito por linhas tortas. Diao Yinan foi vasculhar ao acervo do cinema americano e tirar matéria para fazer um dos melhores filmes chineses recentes.