Já existiam vários casos de Covid-19 na Europa, mas em Montenegro ainda não havia registo de qualquer infeção quando o governo decidiu proibir reuniões públicas, fechar escolas, restaurantes, e encerrar várias passagens da fronteira com a Sérvia, de onde é frequente virem vários turistas para aproveitar o litoral. Estávamos a 13 de março e, três dias depois, com o escalar dos casos nos balcãs, os voos seriam suspensos, assim como as linhas internacionais de autocarros e o comboio. Ainda não se sabia, mas nesta altura, porém, o novo coronavírus já estava em território montenegrino: a 17 de março seriam confirmados os primeiros dois casos no país, com Montenegro a ser o último país da Europa atingido pela pandemia. Seria, no entanto, um dos primeiros a assumir que o vírus foi erradicado, como anunciou o governo esta segunda-feira.

“Somos o último país europeu que registou um primeiro caso da Covid-19 e o primeiro que conseguiu erradicar o vírus!“, declarou em comunicado oficial o ministro da Saúde, Kenan Hrapovic. Segundo o Instituto de saúde pública local, este pequeno país com cerca de 650.000 habitantes numa área de 13,450 quilómetros não regista um novo contágio por coronavírus desde 4 de maio — o dia em que, coincidentemente, começou a aliviar as medidas de confinamento. Assim, em Montenegro, o país deu como erradicado o vírus ao fim de 20 dias sem qualquer novo caso e os números ficaram fechados, para já, nos 324 casos positivos.

Montenegro afirma ser o primeiro país a erradicar a Covid-19 e a estar “livre do coronavírus” após 20 dias sem contágios

Ainda este domingo, antes do anúncio, foram examinadas 140 casos suspeitos, ainda assim nenhum testou positivo, com as autoridades e concluírem agora que no país “não existe nenhum caso ativo de infeção” pelo coronavírus. O Instituto de Saúde anunciou que caso a ausência de novos contágios se prolongue durante num período de 28 dias, Montenegro proclamará oficialmente o fim da epidemia em 2 de junho.

Mas quando é que um país está e condições para assumir que se livrou do novo coronavírus? Segundo Ricardo Mexia, presidente médico de Saúde Pública do Departamento de Epidemiologia do Instituto Ricardo Jorge e Presidente da Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública, esta determinação é feita quando existem dois períodos seguidos de incubação do vírus em causa sem qualquer novo caso positivo, o que no novo coronavírus significa dois períodos seguidos de 14 dias, ou seja, de 28 dias sem nenhum novo caso — daí o Instituto de Saúde reservar para dia 2 de junho a data oficial para o fim da pandemia naquele país.

“Em teoria podemos afirmar isso. É um bocadinho arbitrário, mas é a forma como se contabiliza” explica ao Observador Ricardo Mexia.

Estas contas permitem concluir que já não há transmissão no território em causa. Foi isso que aconteceu, por exemplo, com o Ébola. Não significa, no entanto, que aquele país não volte a registar mais casos de Covid-19, até porque vai levantar as restrições que enfrentou desde meados de março.

Nenhum positivo após desconfinamento

Se as duas primeiras infeções no país foram registadas a 17 de março, num paciente que tinha acabado de chegar de Espanha e outro dos Estados Unidos, e se os números escalaram para mais de 2o casos positivos numa semana, com registo de um morto, a 4 de maio foi o primeiro dia de vitória após a batalha contra a pandemia que fechou nos zero novos casos positivos, como explica o Balkaninsight. Foi precisamente o dia anterior à entrada em vigor das primeiras medidas de confinamento —  postas em prática de forma gradual como aconteceu em tantos países da Europa, e mesmo em Portugal. A 5 de maio cabeleireiros, salões de estética, dentistas, lojas e ginásio voltaram a abrir portas, embora com apertadas medidas de segurança: uso de máscara em espaços fechados e distância social. Já a 18 de maio foi o dia da reabertura de cafés, restaurantes, bares e centros comerciais. E os novos casos mantiveram-se no zero.

O Organismo Nacional de Controlo de Doenças infeciosas anunciou também que os eventos desportivos reabririam a 1 de junho, mas sem público, assim como a circulação entre cidades, que até agora ainda não foi reaberta.

Desde o início da pandemia, foram registados 324 casos positivos no Montenegro, com 249 recuperações registadas e 8 mortos. Apesar das restrições impostas, o governo nunca chegou a declarar o estado de emergência — com severas críticas por parte do parlamento que não foi ouvido na tomadas destas decisões. Embora a 1 de abril, já com uma centena de casos positivos, tenha declarado recolher obrigatório entre as 19h00 e as 5h00 e banido atividades físicas ao ar livre. Impôs também que as crianças com menos de 12 anos só pudessem sair de casa acompanhadas por um adulto. O recolher obrigatório só foi levantado a 15 de maio.

Esta segunda-feira,  governo montenegrino disse também planear reabrir as suas fronteiras aos cidadãos de diversos países da Europa, mas não da antiga aliada Sérvia, o que colheu fortes críticas de Belgrado.
O primeiro-ministro do Montenegro indicou que as fronteiras serão reabertas apenas para os cidadãos dos países que cumpram os critérios estabelecidos pelas autoridades de Saúde, como um máximo de 25 doentes com Covid-19 por cada 100.000 habitantes.

O primeiro-ministro Dusko Markovic revelou que os países que cumprem esse critério são a Croácia, Eslovénia, Áustria, Alemanha, Polónia, República Checa, Hungria, Albânia e Grécia.

“Vamos abrir as fronteiras aos países que possuem um idêntico estatuto epidemiológico”, disse. “Não vamos solicitar testes especiais, todos vão receber instruções claras sobre o que os espera no país e que regulamentos devem respeitar”, disse, sem mencionar a Sérvia.

O ministro dos Negócios Estrangeiro sérvio, Ivica Dacic, definiu a decisão do Montenegro como “ridícula” e politicamente motivada.