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Enviada especial do Observador em Munique, Alemanha

Polónia-Portugal, 30 de junho de 2016, quartos de final do Campeonato da Europa. A Seleção Nacional começou praticamente a perder, graças a um golo de Robert Lewandowski logo ao segundo minuto de jogo, e estava condenada a correr atrás do prejuízo contra um onze que para além do eficaz avançado também tinha Milik, Krychowiak e Błaszczykowski. O momento decisivo chegou já depois da meia-hora: Renato Sanches combinou com Nani e rematou de pé esquerdo, à entrada da grande área, para bater Fabianski.

O golo, o bonito golo, correu o mundo. Portugal acabou por seguir em frente para as meias-finais, vencendo a Polónia na decisão por grandes penalidades, e Renato Sanches acabaria por se tornar o jogador mais novo de sempre a disputar uma final de um Europeu, aos 18 anos, um registo que ainda mantém. Conquistado o Euro 2016 pela Seleção Nacional, o jogador formado no Benfica fez as malas e rumou ao Bayern Munique, por quem tinha assinado já em maio a troco de cerca de 35 milhões de euros (poderia chegar aos 80 em objetivos) depois de uma época de estreia assinalável nos encarnados, sendo também o primeiro português a atuar pelos bávaros e a quarta contratação mais cara da história do clube alemão.

EURO 2016 - Quarter final Poland vs Portugal

O momento em que Renato Sanches marcou o golo que empatou o jogo contra a Polónia, nos quartos de final do Euro 2016

Em Munique, porém, nada correu como era esperado. Renato estreou-se em setembro, a titular contra o Schalke 04, mas cometeu vários erros até ser substituído por Kimmich e foi muito criticado pela comunicação social alemã. Phillip Lahm, que na altura ainda era o capitão do Bayern saiu em defesa do jovem médio e garantiu que este era “um jogador muito, muito bom”. “Caso contrário não estaria aqui. É um campeão europeu e vai definitivamente ser um ativo para nós no futuro”, acrescentou o experiente lateral. Em outubro, o internacional português recebeu uma nova injeção de confiança: ganhou o Golden Boy, o prémio do Tuttosport que distingue o melhor jogador europeu com menos de 21 anos, e tornou-se o primeiro português a alcançá-lo (um feito que, entretanto, já foi igualado por João Félix).

Nessa primeira época, em 2016/17, o Bayern Munique foi campeão alemão. Mas Renato Sanches só esteve em 25 jogos em todas as competições, só foi titular em quatro ocasiões na Bundesliga, só disputou uma única partida por inteiro e não registou qualquer golo ou assistência. Sem saber falar alemão, o jovem médio teve muitas dificuldades para se integrar num grupo mais velho e mais experiente e não conseguiu competir com a concorrência no setor intermédio, que incluía nomes como Thiago Alcântara, Arturo Vidal ou Xabi Alonso. Na altura, Lothar Matthäus, antigo jogador da seleção alemã e do Bayern, elegeu-o como um dos três piores elementos da temporada; mas Carlo Ancelotti, o treinador, garantiu que Renato iria permanecer no Allianz Arena no ano seguinte.

O jantar a 4 de dezembro de 2015 onde Renato Sanches percebeu que a sua vida tinha mudado

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E permaneceu — mas só para efeitos contratuais. Em agosto de 2017, o Bayern anunciou o empréstimo de Renato Sanches ao Swansea City, que na altura estava na Premier League. A ideia era simples: colocar o médio a jogar regularmente numa liga de topo, ainda que num clube da segunda metade da tabela, para que adquirisse competitividade e ritmo e pudesse regressar à Alemanha já com outra capacidade para lutar por um lugar. Nada, porém, correu pelo melhor. Renato foi inconsistente durante a primeira metade da época, sem nunca conseguir impressionar ou ser um óbvio titular, e nem a chegada de Carlos Carvalhal em dezembro conseguiu ajudar o médio. Em janeiro, o internacional português sofreu duas lesões musculares em dois jogos consecutivos da Taça de Inglaterra e não voltou a jogar até ao final da temporada.

Carvalhal, que também não conseguiu evitar a despromoção do Swansea City ao Championship, permitiu que Renato Sanches passasse os meses de recuperação em casa, na Alemanha, até porque o clima mais ameno ajudava a apressar a reabilitação. Mas no final da época, em jeito de balanço, não deixou de dizer tudo o que achava sobre o jogador. “O Renato sabe que fez uma temporada muito má. Não está ao nível em que já esteve e a lesão que teve em janeiro acabou com ele. O Renato tem muito talento mas ainda tem muito para aprender. Parou de aprender quando saiu do Benfica e foi para um dos maiores clubes do mundo”, atirou o treinador português. Com tudo isto e de forma natural, o médio ficou de fora da convocatória de Fernando Santos para o Mundial da Rússia.

Lille OSC v AS Saint-Etienne - Ligue 1

No Lille, Renato voltou a jogar regularmente e fez parte da equipa que conquistou a Ligue 1

No ano seguinte, já com Niko Kovac à frente da equipa, Renato voltou ao Bayern. E o novo treinador garantiu que contava com ele: “Vou tentar fazer com que se sinta bem aqui. Quando alguém se sente bem, é muito mais fácil jogar bem. Ele tem qualidades que não vemos todos os dias na Bundesliga e foi por isso que o Bayern Munique o contratou”, disse o técnico. O jovem médio estreou-se a marcar pelos alemães logo em setembro — e, curiosamente, contra o Benfica, num jogo da fase de grupos da Liga dos Campeões — e até teve um bom início de época, sendo até considerado o melhor jogador do clube nesse mês. Globalmente, fez 24 jogos e marcou dois golos, com o segundo a aparecer na última jornada da Bundesliga, uma vitória contra o Eintracht Frankfurt que significou a revalidação do título.

Em 2019/20, não foi preciso esperar muito para perceber que Renato Sanches continuava muito desconfortável no Bayern Munique. Logo em agosto, depois de entrar em campo já nos últimos instantes para substituir Müller num jogo contra o Hertha Berlim, o médio deixou claro na flash interview que queria deixar o clube para jogar mais e mais regularmente. Em seguida, falhou o treino pós-jogo e saiu do Allianz Arena diretamente para casa, acabando por ser multado pelo clube em 10 mil euros. “Não é apropriado sair a correr e irritado depois do primeiro ou do segundo jogo. Ele faria melhor se mantivesse a calma. Vai ter as oportunidades dele”, disse, na altura, Karl-Heinz Rummenigge, o CEO dos alemães. Renato, porém, não quis esperar pelas oportunidades: uma semana depois da partida contra o Hertha Berlim, o Bayern anunciou que o médio português ia rumar ao Lille a título definitivo.

European Football Championship - Hungary - Portugal

A entrada de Renato, na segunda parte da partida contra a Hungria, foi fulcral para a vitória da Seleção Nacional

Renato Sanches chegou a França a troco de 25 milhões, tornando-se a transferência mais cara da história do clube, e integrou-se depressa num plantel onde também estavam Tiago Djaló, José Fonte e Xeka — para além de Nico Gaitán, com quem tinha jogado no Benfica. Na primeira época do médio português, muito marcada pela interrupção provocada pela pandemia, o Lille ficou no quarto lugar da Ligue 1, foi eliminado da Taça de França nos oitavos de final, chegou às meias-finais da Taça da Liga e não passou da fase de grupos da Liga dos Campeões. Renato fez 30 jogos e marcou quatro golos, números superiores aos que tinha registado em Munique. No final da temporada, reconheceu que o salto para o Bayern tinha sido maior do que a perna.

“Acho que não estava preparado no meu primeiro ano. Foi tudo muito rápido e depois, quando cheguei, não me preparei da melhor forma para representar o clube naquele momento. Cheguei e lesionei-me durante um mês. Perdi a época quase toda, no primeiro treino lesionei-me e depois o mister [Carlo Ancelotti] falava muito comigo e dava-me muitas oportunidades. Não consegui corresponder e, nesse aspeto, assumo toda a responsabilidade. Não consegui corresponder (…) Depois, com o Niko Kovac, se calhar merecia mais oportunidades pelo que treinava, pelo que jogava e acima de tudo pelo que ele me prometeu várias vezes. Estava sempre a conversar comigo, eu pedia-lhe sempre para ir embora e ele dizia que não. Dizia que eu tinha muita qualidade e que gostava muito de mim, só que havia muita gente com muita qualidade naquele plantel e que tinha de esperar pela minha vez (…) A certa altura comecei a ser convocado mas os minutos não apareciam. Se não dava, preferia ir-me embora”, explicou o jogador ao MaisFutebol, numa entrevista dada no verão passado.

Renato Sanches ligou o motor e o milagre aconteceu: Lille sagra-se campeão de França e quebra hegemonia do PSG

No Lille, Renato voltou a entrar nas escolhas de Fernando Santos, renasceu como jogador, recuperou coerência e consistência e fez parte o grupo de heróis de Christophe Galtier que conquistou a Ligue 1 e apanhou de surpresa o crónico campeão PSG. Nas últimas semanas, tem sido associado a uma ida para a Premier League, com os destinos mais prováveis a serem Wolverhampton ou Liverpool, mas por agora o jovem de 23 anos permanece focado no Euro 2020. Na passada terça-feira, teve um papel instrumental na vitória contra a Hungria ao entrar na segunda parte para desequilibrar e romper que uma defensiva que estava já muito encaixada na Seleção, depois de já ter tido uma exibição muito positiva no particular contra Espanha. Este sábado, no Allianz Arena, Renato Sanches regressa ao sítio onde nunca conseguiu ser feliz com a possibilidade de mostrar tudo o que poderia ter dado ao Bayern Munique.