O mais recente filme de Maryam Moghadam e Behtash Sanaeeha, “O Perdão”, começa de forma seca, cruel: uma mulher visita a prisão porque o seu marido vai ser executado. Mina, a mulher, interpretada por Maryam, fica sozinha com uma filha surda, e um trabalho que é insuficiente para sustentar a família, pagar a renda. Não demora muito até o espectador – e Mina – saber que o marido da protagonista foi injustamente acusado de um crime. E é aqui que começa o perdão, o de um homem, o juiz, que se infiltra na vida dela, com uma identidade falsa, para a recompensar do mal que fez.
Maryam e Behtash são um casal iraniano. É o terceiro filme que escrevem juntos, o segundo que realizam coomo dupla e o primeiro que ganhou maior espaço nas salas internacionais. Como os próprios explicam, numa entrevista realizada em videoconferência, essa atenção tem-lhes trazido problemas. Uma forma de evitar a censura no Irão, ou estas reprimendas, é evitar falar na lei — antes, concentrarem-se nas pessoas. “O Perdão” cria personagens para falar nas pessoas, mas a crítica ao sistema, não só à pena de morte, mas à justiça, à burocracia, à impotência, é latente.
Em conversa com o casal, é tangível a dificuldade que existe em filmar no Irão, mas também em mostrar e falar sobre os filmes. Uma das cenas mais marcantes de “O Perdão”, quando a protagonista tira o lenço e revela que não é só aquilo que o espectador viu até então – também é uma mulher que pode, e quer, ser desejada – é uma razões principais para o casal estar neste momento a ser julgado no seu país: e a impossibilidade de mostrar o filme no Irão torna a situação ainda mais caricata.
[o trailer de “O Perdão”:]
Muitos dos filmes iranianos que chegam a Portugal falam de vivências extremas. No caso de “O Perdão”, há a questão da pena de morte. Essa intensidade, ideia de extremo, faz parte do vosso dia-a-dia?
Maryam Moghadam [MM]: Penso que é comum irmos beber à nossa experiência, à nossa volta, às pessoas. Podes falar de uma dor que sentiste, estás mais à-vontade para o fazer. Em relação a este filme, há muito tempo que pensávamos escrever um guião sobre a pena de morte, especialmente porque é uma tragédia que afligiu a minha família… o meu pai foi executado quando eu era uma criança. A minha personagem é muito inspirada na minha mãe, mas não é a história da minha mãe e do meu pai.
Behtash Sanaeeha [BS]: É a história de muita gente, em diferentes países, onde há pena da morte. Lemos casos diferentes, por todo o mundo, investigámos durante seis, sete anos. Escrevemos o primeiro argumento há nove anos e reescrevemos várias vezes entretanto. Filmámos há apenas dois, três anos.
Há medo da censura?
MM: Em todos os regimes totalitários, muito religiosos, existem muitas leis para tudo, que fazem parte do teu dia-a-dia. Até é difícil falar disso, porque estou a falar contigo neste momento, estás noutro país, mas é perigoso falar sobre isto. Afeta as pessoas, até na sua personalidade. Somos sempre suspeitos de tudo, de toda a gente.
Ou seja, é um risco filmarem.
BS: É sempre um risco. Aliás, estamos a ser julgados por causa deste filme. Se queres fazer um filme aqui e criticar…
MM: Criticar o que quer que seja.
BS: Não é fácil mostrar os filmes, tanto dentro como fora. Dentro do país, não temos permissão para o mostrar. O filme foi banido aqui, não sabemos se alguma vez no futuro poderemos mostrar aos espectadores iranianos. Mostrá-lo fora do Irão também pode causar problemas, como temos agora.
MM: Podes criticar as pessoas, as suas decisões, mas não podes criticar a lei, religião, pessoas de poder. Muitos filmes iranianos estão a criticar pessoas, como é que as pessoas se deviam perdoar, etc. Mas no nosso filme não estamos a falar de pessoas, é mais do que isso.
BS: É mais sobre a lei.
MM: E isso é um tabu no Irão.
Que sentimento vos causa esta impossibilidade de mostrarem os vossos filmes ao vosso povo?
BS: É algo muito triste para nós, estamos sempre a pensar nisso: quando é que vamos mostrar os nossos filmes aos iranianos? Se não tiveres permissão, a única possibilidade que existe para veres é quando os filmes ficam disponíveis na internet, fazem o download ilegal e veem. Mas não irão ver num ecrã grande, nos cinemas. A audiência nunca será grande: serão os cinéfilos, os fãs.
MM: É desapontante.
▲ Maryam Moghadam e Behtash Sanaeeha, quando apresentaram "O Perdão" no festival de Berlim
Criar este tipo de personagens, dentro desta trama, é uma forma de evitarem o que é proibido filmar?
BS: Era algo que queríamos fazer do início: não queremos fazer só filmes políticos, a criticar o sistema. Estamos sempre mais interessados nas personagens, na história, no drama. Isto é, na sua essência, uma história de amor: um amor proibido, entre duas pessoas, por causa do seu passado. Quando falamos de uma situação complicada, torna-se sempre político, sobre a sociedade, os problemas que temos… até a economia. Tentamos sempre ter um equilíbrio entre as personagens, drama e a sociedade.
MM: Quando queres falar sobre algo é fácil seres pretensioso e dizer coisas com grande significado e esqueceres a história. Interessa-nos mostrar como as coisas que queremos dizer afetam as personagens. E é por isso que o filme fica muito concentrado nas personagens.
Por exemplo, a sua personagem: é uma mulher, uma mãe, uma viúva, uma cunhada, uma nora, uma pessoa que trabalha. Mas só muito à frente no filme, quando mostra o seu cabelo, é que percebemos que também é alguém que pode e quer ser amada.
BS: Isso é um problema do cinema iraniano, não podemos mostrar a realidade das nossas vidas, nos filmes. Não sei sabes, a mulher iraniana, dentro da casa, não usa uma hijab [lenço]. Mas nos filmes…
MM: É proibido mostrar uma mulher real sem o lenço.
BS: Nos filmes estão sempre a usar dentro de casa e isso não é credível, porque não é a realidade. Esse momento que mencionas, deve ser a primeira vez desde a revolução que se vê uma mulher sem o hijab, numa cena. Isso é uma das razões pelas quais o filme é banido…
MM: E porque estamos a ser julgados. Uma das razões é essa cena.
E que outras razões existem?
MM: O filme questiona e critica a lei. É a lei de Sharia, a lei de Deus, não deverias criticar.
O erro na sentença, como acontece no vosso filme, é frequente no Irão?
BS: Há casos… num país com a pena de morte, no Irão ou qualquer outro, há sempre erros. Acontece em todo o lado.
MM: É muito normal.
BS: E aqui é o mesmo. Houve um caso aqui há uns meses, no ano passado houve outro. Acontece com frequência.
MM: E estes são os que descobrem. Devem existir imensos que não são descobertos. Falámos com advogados e juízes e disseram-nos que há imensos que não vêm a público.
Não houve problema em eles vos dizerem isso?
BS: Só alguns falaram à vontade disso. E já não exerciam, falaram da sua experiência, nas últimas cinco décadas.
Num país onde é tão difícil ver cinema, como é que vocês se tornaram realizadores?
BS: Somos ambos cinéfilos desde crianças. Adorávamos cinema, começámos a ver filmes aos cinco, seis anos. Os nossos pais também eram. Nos tempos a seguir à revolução, havia muita coisa proibida, como um vídeo. Teres cassetes de vídeo em casa podia levar-te à cadeia. O meu pai tinha imensos filmes, um vídeo, toda a gente vinha à nossa casa ao fim de semana e viam filmes connosco. Comecei a ver filmes do Bergman, Tarkovsky, Fellini, Antonioni, em criança. E com ela é a mesma coisa, ela via filmes com a mãe, depois do pai ter sido executado. No nosso caso, não sabemos fazer outra coisa. Nascemos para isto… é o que realmente gostamos, e é o média que queremos usar, em que pensamos sempre. Não sabemos fazer outra coisa. Temos de lutar e lutar e lutar para fazer os filmes.