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Manifestação contra a crise da habitação em Lisboa contou com milhares de pessoas
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▲Manifestação contra a crise da habitação em Lisboa contou com milhares de pessoas

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

▲Manifestação contra a crise da habitação em Lisboa contou com milhares de pessoas

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

"Luís, eu não sou egoísta". A manifestação que encheu o Rossio com molhos de chaves e recados ao Governo

Milhares manifestaram-se em Lisboa pelo direito à habitação, do Marquês ao Rossio. Encabeçado por Alfredo, de 98 anos, o protesto acabou com tendas montadas e o aviso da polícia à desobediência civil.

Tem 98 anos e caminhou à frente de toda a gente. Nas mãos, segurava uma bandeira de Portugal que recusou deixar cair. Alfredo Fernandes, presença assídua em quase todos os protestos da capital, foi o rosto que marcou a dianteira da manifestação pelo direito à habitação convocada pela Acampada de Lisboa, que este sábado à tarde desceu do Marquês de Pombal até à Praça D. Pedro IV, no Rossio. Ao longo da Avenida da Liberdade, milhares de pessoas juntaram-se aos protestos iniciados há duas semanas no Porto para exigir o congelamento e tetos às rendas, o fim imediato dos despejos sem alternativa habitacional e mais habitação pública. Mas, à cabeça de uma marcha dominada pelos jovens e pela contestação cerrada ao Governo de Luís Montenegro, é este homem quase centenário quem marca o passo com as cores verde e vermelha bem erguidas. Quando lhe perguntamos por que razão encabeça o protesto, responde sem hesitar: “É para engrandecer as manifestações”.

A presença não surpreende quem acompanha os protestos em Lisboa: Alfredo está em quase todos. Desce a Avenida no 25 de Abril, no 1.º de Maio e até já marchou com a mesma bandeira ao ombro pelos direitos dos animais. Ir a manifestações tornou-se quase uma rotina, um passatempo de quem gosta de ver gente e de participar. Nasceu no concelho de Vieira do Minho, Braga, mas vive em Lisboa desde 1950, há 76 anos. Considera-se “já mais de cá do que de lá”. O seu problema de habitação ficou resolvido logo a seguir à Revolução de Abril, numa época em que teve “um bocado de sorte” quando lhe ofereceram “uma casa assim um bocadinho barata”. Por isso, garantiu ao Observador que não marcha em nome próprio: “Não ando aqui por minha causa. Estou aqui pela geração futura, que isto está a andar muito para trás“.

▲ Alfredo Fernandes segurava uma grande bandeira de Portugal

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Apontou o dedo àquilo que classifica como a “força da ignorância”, lamentando o desinteresse geral da população enquanto “meia dúzia de espertalhões tomam conta do mundo e fazem o que querem”, dominados pelo “dinheirinho [que] dá a volta a tudo”. Guarda na memória as reuniões do Conselho da Revolução, o momento em que Vítor Alves (militar que se destacou após o 25 de Abril) anunciou na televisão o rumo ao socialismo e a posterior governação de Mário Soares em que o país ficou “dois anos sem comer bacalhau” até o socialismo ser “metido na gaveta”. Rejeita qualquer ligação partidária — “como sou apartidário, venho à frente” — e este sábado fez questão de manter o símbolo nacional na frente porque “a bandeira portuguesa não é para andar atrás”. Aos jovens, deixou um conselho: “A mensagem que eu poderei deixar é não desistir, é lutar. Sem luta nada se consegue“, recordando que “a água tanto bate na rocha que a rocha vai desaparecendo”.

“Eu quero ter um salário e uma casa para viver”: o arranque da marcha com olhos postos no futuro

A concentração começou a ganhar forma no Marquês de Pombal, com início marcado para as 15h00 sob o lema: “Não temos casa, montamos tendas”. O protesto deste sábado deu continuidade a uma mobilização iniciada duas semanas antes na cidade invicta e mantida diariamente por centenas de pessoas. Entre a multidão avistavam-se cartazes a exigir “a paz, o pão, a habitação“, a avisar que “o Governo recua e o povo está na rua” ou a lembrar que a “falta de empatia é também uma forma de miséria”. Vários rostos da política marcaram presença no arranque da marcha, entre os quais Isabel Mendes Lopes, Helena Roseta, José Manuel Pureza e Fabian Figueiredo.

Nas mãos dos manifestantes multiplicavam-se mensagens. Ana Carmona, de 56 anos, empunhava um cartaz onde se lia “egoísmo é o preço da habitação em Portugal“. Mãe de dois filhos, confessou ao Observador que tem dificuldades em pagar a renda da casa e explicou que o ordenado “mal chega para as despesas”, considerando “impossível garantir um bom futuro” aos jovens sem medidas concretas para tornar as casas acessíveis.

A marcha desceu a Avenida a um passo lento, mas ritmado por coros de protestos contra o Executivo. “Montenegro, presta atenção: as tuas casas vão virar ocupação” e “Montenegro, eu quero ter um salário e uma casa para viver” foram dos cânticos mais repetidos ao longo de todo o percurso.

▲ Manifestantes tinham vários cartazes com mensagens dirigidas ao Governo

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

A multidão entoou ainda: “Abaixo o Montenegro que vai cair, vai cair. E viva o povo unido a resistir, a resistir”. E recuperou palavras de ordem antifascistas e de denúncia da atuação das forças de segurança, com a frase: “Repressão policial é herança colonial”.

Entre os manifestantes ouvia-se também: “Somos todas Maricarmen” — em alusão à mulher de 87 anos despejada em setembro, após cerca de 70 anos a viver na mesma casa, em Madrid. O caso converteu-se num símbolo ibérico da crise habitacional.

No meio do cortejo, a descer a Avenida, a revolta fazia-se ouvir também na voz de quem já trabalha há anos e ainda não se sente realizado. Paulo Soares, de 32 anos, lembrou que o artigo 65.º da Constituição da República Portuguesa impõe ao Estado a garantia do direito à habitação, acusando o Governo de acelerar despejos e travar medidas de proteção social.

Embora admita estar numa posição privilegiada, com um salário acima da média, explicou que continua a viver com a mãe por não conseguir comprar casa nem contrair crédito à habitação: “Não quereria que fosse ad aeternum, gostaria de não ter de depender da minha mãe para ter um teto”.

“Temos assistido a uma aceleração naquilo que são os despejos às famílias que estão em cumprimento, mães e pais com crianças sem casa, estudantes que se deslocam da sua área de residência e que chegam a Lisboa e ao Porto a pagar 500 ou 600 euros por um quarto. Isto é um verdadeiro ultraje. Nem todos podemos estar numa posição privilegiada como Luís Montenegro, que tem alegadamente mais de 55 imóveis. Isto não é a justiça, não é aquilo que Luís Montenegro prometeu antes de ser eleito e o povo vai continuar a manifestar-se”, disse Paulo ao Observador.

Montenegro trava acesso a dados sobre 55 imóveis declarados à Entidade da Transparência. Diz ser disparate ideia que quis esconder

Num dos momentos sonoros do final da tarde, milhares de participantes ergueram e chocalharam em uníssono molhos de chaves de casa, repetindo o gesto que se transformou na imagem de marca das mobilizações pelo direito à habitação.

A guerra dos números: 25 mil para os ativistas, exagero para a PSP

No balanço da adesão verificou-se a divergência de números. A organização da Acampada de Lisboa estimou a presença de 25 mil pessoas na iniciativa. Já a PSP não avançou qualquer estimativa oficial, mas considerou esse cálculo “manifestamente alto“, tendo o comissário da PSP chegado a rir-se ao ser confrontado com os alegados 25 mil manifestantes apontados pela organização.

Imagens captadas por drone ao longo da Avenida da Liberdade revelavam algumas clareiras no cortejo, demonstrando uma afluência inferior à de manifestações sindicais realizadas no mesmo traçado.

"Não nos chamem egoístas quando eles têm 55 imóveis e nós temos zero. E depois vêm para as redes sociais dizer que somos drogados e desacreditados. Venham à rua ver o que de facto se está a passar".
Maria Inês Teixeira, manifestante

Adriana Lima, uma das porta-vozes da Acampada, reiterou ao Observador que o objetivo desta ação passa por “acelerar as mudanças legislativas que reforcem a proteção dos inquilinos” e exigir diálogo ao Governo, acusando Montenegro de ignorar o problema da habitação.

A porta-voz destacou ainda uma “onda de solidariedade” motivada pelo descontentamento popular face às respostas governamentais. “Muita gente está também a ficar revoltada, não só pela crise da habitação, mas por sentir que o Governo está constantemente a tentar reprimir e diminuir a nossa luta. Têm sido dias muito intensos, mas muito bonitos“, sublinhou.

“Luís, eu não sou egoísta”: o desabafo no passeio com a praça do Rossio entupida

A descida demorou cerca de uma hora a mais do que o horário previsto inicialmente, fazendo o protesto alcançar o destino apenas por volta das 18h00. À chegada ao Rossio, a coluna de manifestantes que descia a Avenida da Liberdade foi recebida com aplausos por uma outra multidão que já se concentrava nos Restauradores e na praça.

Rapidamente se gerou um problema de espaço na praça lisboeta. A carrinha que encabeçava a marcha viu-se forçada a imobilizar-se logo à entrada do Rossio, impedida de avançar devido à multidão que enchia o recinto.

▲ Manifestantes gritavam: "Montenegro, eu quero ter um salário e uma casa para viver"

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Um pouco afastada do pelotão de pessoas que gritavam e batiam palmas, sentada na calçada portuguesa, estava Maria Inês Teixeira, de 21 anos. Comia calmamente um croissant com queijo enquanto segurava um pequeno cartaz com uma mensagem dirigida ao primeiro-ministro: “Luís, eu não sou egoísta. Quero sair da casa dos meus pais”.

Recém-licenciada em Sociologia, a jovem — habituada desde os sete anos a ir a manifestações por influência da família — desabafou sobre o futuro: “Fui educada que se estudasse, fosse para a universidade e tirasse boas notas, o meu futuro estava quase garantido. E agora sou adulta e estou a ver que isso é tudo uma mentira“.

Trabalhadora-estudante, relatou ao Observador o labirinto que encontrou na procura de emprego, onde ora lhe pediam experiência que não tinha, ora a descartavam por excesso de qualificações, conseguindo apenas duas respostas a dezenas de currículos enviados. Com um ordenado de 900 euros e rendas na cidade a bater nos 1.200 euros, a autonomia parece-lhe uma ilusão.

“Não consigo e nem sequer tenho uma luz ao fundo do túnel para conseguir sair de casa. Nós, jovens, estamos mesmo em pânico”, confessou Maria Inês. Olhando para a praça cheia, acrescentou com revolta: “Não nos chamem egoístas quando eles têm 55 imóveis e nós temos zero. E depois vêm para as redes sociais dizer que somos drogados e desacreditados. Venham à rua ver o que de facto se está a passar”.

Governo isola manifestantes e tenta contra-narrativa sobre Habitação

A assembleia popular e o acampamento contra o relógio: das seis exigências ao aviso policial da meia-noite

Com a praça cheia, os manifestantes deram início imediato à montagem de dezenas de tendas entre a estátua de D. Pedro IV e o Teatro Nacional D. Maria II. A operação procurou manter uma disposição com filas organizadas, corredores feitos com fita-cola no chão e tendas próximas de modo a formar uma espécie de cordão de segurança. A meio do processo, uma rajada de vento chegou a levantar várias tendas que ainda estavam sem qualquer peso no interior. Para acolher quem tencionava pernoitar, a organização distribuiu cobertores e almofadas, apelando àqueles que não iam dormir no local para que, ainda assim, permanecessem o máximo de tempo possível na praça.

▲ Várias pessoas começaram a montar tendas assim que chegaram ao Rossio

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Entre os acampados estavam Lucrécia, de 34 anos, e Francesco, de 30, cidadãos italianos a viver em Lisboa há vários anos. “Estamos aqui porque esta cidade está a tornar-se numa Disneyland e não é possível viver assim”, lamentou a italiana ao Observador.

Francesco, que já mudou de casa quatro vezes em apenas um ano, encontra-se atualmente sem teto e obrigado a guardar os seus pertences numa arrecadação enquanto divide alojamento temporário com uma amiga. “Com o nosso ordenado não é possível pagar casas em Lisboa sozinho”, disse. Ambos questionaram a eficácia da resposta política e o risco de confronto com a polícia na madrugada: “A polícia tem casa, tem filhos, chega ao fim do mês como nós. Não somos nós contra os polícias, porque a habitação é para todos”.

A assembleia popular, feita para discursar sobre o rumo das manifestações, arrancou por volta das 20h00 (uma hora depois do previsto), antecedida pelos cânticos de Grândola, Vila Morena, de Zeca Afonso, acompanhado de gritos de “25 de Abril sempre, fascismo nunca mais”. Ao microfone, no palco improvisado, sucederam-se intervenções de cidadãos a apelar à resistência, a exigir uma greve geral e a tecer fortes críticas a Luís Montenegro e ao Orçamento do Estado para 2027. O movimento anunciou, ainda, uma nova mobilização já para a próxima terça-feira, às 18h30, com um protesto marcado para junto das escadarias da Assembleia da República contra a proposta orçamental.

A Acampada de Lisboa sintetizou as seis exigências durante a intervenção: a reversão da lei do arrendamento, a paragem imediata de demolições e despejos sem alternativa habitacional, o travão à aquisição de habitações por fundos imobiliários, o reforço substancial do parque de habitação pública, a aplicação de tetos efetivos às rendas e a recuperação estatal de imóveis devolutos.

▲ Assembleia popular começou por volta das 20h00

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

O início da noite ficou marcado pela iminência da intervenção da PSP. Durante a tarde e o início da noite a presença policial manteve-se reduzida, sem carrinhas do Corpo de Intervenção à vista. Porém, as autoridades fizeram saber que a partir das 00h30 as tendas não poderão permanecer na praça, sendo os manifestantes convidados a desmontá-las ou arriscando a sua remoção coerciva. Perante a perspetiva de o protesto transitar para desobediência civil, a organização convocou para as 22h00 uma reunião de “segurança coletiva horizontal” destinada a alinhar estratégias e regras de conduta comuns para quem optasse por pernoitar no Rossio.

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