Num excerto da apresentação da série documental “Planeta A”, vemos o ator João Reis no meio de uma manifestação de extrema direita na Polónia. A seguir, saltamos para o Faial, nos Açores, onde o ator vai ao encontro dos tubarões. Mais uns segundos e já estamos na Alemanha, onde João Reis acompanhou uma tensa manifestação ativista contra as minas de carvão da Renânia. Um palco diferente para o ator, um verdadeiro “túnel de hiper-realismo”, que viajou entre a África do Sul e a Europa.

Só faltou ir à Antártida, mas talvez numa segunda temporada, quem sabe. Haja vontade, meios e audiências. Para já, a partir desta segunda-feira, dia 18 de abril, às 22h45, fiquemos pela primeira volta das nove horas em torno do globo terrestre que compõem “Planeta A”.

[o trailer de “Planeta A”:]

Em nove episódios, feitos através de uma parceria entre a RTP e a Fundação Calouste Gulbenkian, realizada por Jorge Pelicano,  produzida pela Até ao Fim do Mundo, seremos novamente espectadores, mas agora “à portuguesa”, daquilo que cada um de nós está a fazer ao planeta. Das alterações climáticas à fragilidade das democracias, das desigualdades sociais à sustentabilidade deste pontinho azul da Via Láctea, “Planeta A” quer, acima de tudo, atirar um anfitrião, neste caso um português, para o meio da ação. Para mostrar como tudo está ligado e como ainda há tempo para aplicar soluções.

“Queríamos ter a ação real, o que estava a acontecer. Há muita palavra sobre sustentabilidade. Ela está no ambiente, na democracia, na pobreza, no consumo e nas cidades. Mas acho que as pessoas estão cansadas de palavras, era preciso mostrar”, revelou o realizador Jorge Pelicano, autor de filmes como “Páre, Escute e Olhe” (2009) ou “Pára-me de Repente o Pensamento” (2014) — habituado, por isso, a estas andanças de reportar o mundo em forma de cinema ou de televisão.

“Foi a pior altura para fazer um documentário através do qual se quer mostrar o mundo”

Em fevereiro de 2020, depois de longos debates e reflexões, entre consultores da Gulbenkian e jornalistas, a equipa liderada por Jorge Pelicano estava pronta para começar a filmar. Guião fechado, João Reis preparado para ir para o terreno, com perguntas em riste, algum receio, coração aberto. Pouco tempo depois, a Covid-19 fechava-nos a todos em casa. “O maior problema foi mesmo a marcação das filmagens. O mundo fechou por causa da pandemia pouco tempo depois de querermos começar a filmar. Entrevistados, cientistas, projetos em suspenso, tudo em casa. Foi a pior altura para se fazer um documentário onde se quer mostrar o mundo”, confessa Jorge Pelicano.

Pouco a pouco, o bolo documental lá se foi cozinhando. Fora esse obstáculo partilhado por praticamente toda a humanidade, com tantos projetos de séries e cinema a ficarem em suspenso, Jorge Pelicano revela que, apesar dos ambientes tensos onde a sua equipa de cerca de sete elementos andou, não foi difícil construir o “Planeta A”. Um planeta que pode mostrar um território germânico, na linha da frente do combate às alterações climáticas, mas que continua a ter oitenta centrais a carvão. Ou um planeta que tem ilhas portuguesas nos Açores, que estão cada vez mais na nata da nata do turismo, mas que também foram porta de entrada para a pesca intensiva.

Por outro lado, João Reis, que foi “completamente despejado” para este desafio, queria deixar-se surpreender. Não porque não estivesse a par de todas estas questões, mas porque este seria um desafio distante da ficção a que está habituado. O improviso passaria a ser a arma principal. Como quando um ator está em contracena com o seu par. Para o bem e para o mal. “Isto exigiu da minha parte uma disponibilidade enorme, sobretudo quando estava desconfortável. Claro que houve receio, quer na Polónia ou na Alemanha, por exemplo. Quando os ativistas ambientais invadiram uma central térmica, houve carga policial. Os seguranças roubaram-me o telemóvel, tentaram agredir-me. Teve de ser a polícia a proteger-me”, revela.

Já na Polónia, com manifestantes de extrema direita, a história foi ligeiramente diferente. É que se de um lado estavam homens repletos de ódio, difíceis de conter, com “discursos perturbadores, “do outro estava uma força policial com pouca paciência. “Tentei manter a calma, passar ali como testemunha. Há sempre um ar de desconfiança, porque partiam sempre do princípio que estava ali como jornalista”, diz.

“Planeta A” deseja ser mais uma solução

Quanto à envergadura de uma série portuguesa como esta, muito próxima de uma linha seguida pelas grandes plataformas de streaming e dos efeitos no público que João Reis e Jorge Pelicano gostariam de obter, as opiniões já não divergem tanto. O realizador, que fez questão de dizer que esta produção em nada se assemelha a produções internacionais sobre a mesma temática — mesmo que José Fragoso tenha dito ao Observador que o orçamento foi maior do que o habitual graças também ao apoio da Fundação Calouste Gulbenkian — acredita que uma série documental portuguesa ainda pode ter influência. Pior seria não fazê-la, deixando que as pessoas se vão esquecendo do que está em causa.

“As pessoas já perceberam que o caminho que estamos a fazer não é o correto. Essa urgência existe, pode haver uma mudança de atitude, a realidade já nos mostrou o que está a acontecer”, afirma alguém que, entretanto, passou a ir às reuniões da sua Junta de Freguesia. Porque ainda que a mensagem da série seja universal, o conselho do realizador é outro: “é importante saber o que se consegue fazer na rua em que cada um vive”. Bom ponto de partida, claro está.

Quanto às comparações netflixianas, o melhor é mesmo não as fazermos. Sim, a produção olhou para a “História de Deus com Morgan Freeman”, mas seria impossível copiar. “Não tem comparação. Acima de tudo, esta é uma perspetiva portuguesa com enquadramento internacional”, esclarece. Resta saber se o público português terá disponibilidade para abraçar este “Planeta A”. Porque é preciso assumi-lo: João Reis e Jorge Pelicano esperam gerar empatia no grande público da RTP.

Para João Reis, pessimista por natureza, ter chegado à conclusão de que todas as temáticas abordadas estão ligadas, aumentou-lhe, por um lado, a angústia, mas também um pouco a esperança. Confuso? Não, falta a explicação: “Conheci projetos e pessoas incríveis que estão a remar para o outro lado, que estão a tentar garantir o futuro do planeta, sem tretas, estando mesmo no terreno”. Mesmo assim, não se tornou num ativista. As dúvidas e preocupações aumentaram. Mas há que continuar a acreditar que não será preciso fazer a mala para Marte. Se estes episódios não convencerem o leitor, nem a partilha do ator, João Reis deixa um conselho: em vez de apontarmos ao crescimento económico desmedido, deveríamos começar a “decrescer”. E não é na altura.