“Entretenimento? Detesto entretenimento! Não faço filmes para entreter as pessoas”, disse John Cassavetes certa vez numa entrevista, e é verdade. Após vermos um filme dele, podemos sentir-nos deprimidos, arrebatados, angustiados, confundidos ou arrasados, mas nunca entretidos, no sentido mais raso da palavra. E podemos voltar a constatá-lo no ciclo “John Cassavetes — O Verdadeiro Rebelde”, que inclui cinco filmes fundamentais do realizador, em cópias digitais restauradas: o pioneiro “Sombras” (1959), “Rostos” (1968), “Uma Mulher Sob Influência” (1974), “A Morte de um Apostador Chinês” (1976) e “Noite de Estreia” (1977), e começa quinta-feira, dia 21, em Lisboa (Cinema Nimas) e Porto (Teatro Campo Alegre e Cinema Trindade), indo até dia 3 de agosto.

Considerado o pai do moderno cinema independente americano, John Cassavetes começou a carreira como ator, e nunca deixaria de o ser, para poder continuar a pagar os seus filmes e manter o individualismo intransigente, a liberdade criativa e a integridade artística, que proclamava e defendia com ferocidade (quando, em 1963, o seu colega e produtor Stanley Kramer remontou “Uma Criança à Espera”, um dos seus filmes de estúdio, Cassavetes atirou-se-lhe ao pescoço). Ele soube sempre trabalhar dentro e fora do sistema de Hollywood, embora Seymour Cassel, um dos atores da sua “família” cinematográfica, tenha dito que se Cassavetes tivesse encontrado outra fonte de financiamento, nunca mais teria representado para outros realizadores, apenas nos seus próprios filmes.

[Veja o “trailer” de “Sombras”:]

Martin Scorsese, um seu grande admirador, disse que, mais do que o realismo mais cru e extremo, John Cassavetes procurava nos seus filmes “a verdade mais profunda da vida e das pessoas”. E as mais das vezes, uma verdade incómoda. Mesmo um dos seus maiores detratores (juntamente com a lendária Pauline Kael), o crítico e historiador de cinema David Thomson, concedeu que Cassavetes foi como “um sociólogo da sua América média. Ele escolhe pessoas básicas, pouco esclarecidas e infelizes no seu sucesso. São uma raridade no cinema americano, rigorosamente desprezadas pela maioria dos realizadores: são gente maçadora.” E não há melhor filme para o ilustrar do que “Rostos”, rodado após uma frustrante passagem por Hollywood, e povoado por personagens tão vulgares e baças como desesperadas.

[Veja o “trailer” de “Rostos”:]

Os filmes de John Cassavetes funcionam em vertigem visual, turbilhão dramático, desassossego sentimental e incontinência verbal. Fala-se, discute-se, grita-se, bebe-se e fuma-se muito e os climas emocionais alternam entre o terror e o regozijo, a depressão e a alegria, a tristeza e a euforia, raramente contemplando a “normalidade” do meio termo. O silêncio, a calma, a reflexão, não têm lugar neles. O estado natural das suas personagens é o desatino: emocional, psicológico, existencial, familiar, conjugal, profissional e até mesmo mental (“Uma Mulher Sob Influência”). Actor intenso, Cassavetes, a filmar, amplificava essa mesma intensidade, por vezes até ao insuportável. E podia tornar-se auto-indulgente e caótico, como em “Maridos” (1970), um dos seus poucos filmes clamorosamente falhados.

[Veja o “trailer” de “Uma Mulher Sob Influência”:]

Visceralmente alérgico aos códigos de fabrico, às convenções, aos lugares-comuns, às personagens feitas e ao polimento formal do “mainstream” da indústria cinematográfica americana, John Cassavetes criou uma gramática visual e uma dinâmica narrativa próprias e inconfundíveis, totalmente adequadas aos ambientes, às personagens, e à expressão da conflitualidade crónica, das convulsões emocionais e existenciais e dos estados de espírito extremados que punha em cena nas suas fitas. Poucos são os realizadores em cuja obra gesto e discurso são tão coerentes, tão significativos e complementares, como na do autor de “Rostos” e “Gloria”. A sua influência quer em cineastas seus contemporâneos, que nos das gerações seguintes, foi enorme.

[Veja o “trailer” de “Morte de um Apostador Chinês”:]

Cassavetes não era um estilista nem um contador de histórias tradicional. O seu interesse estava todo nas personagens, no humano, na sua relação com os outros e na busca incerta de amor, ternura, segurança, felicidade (não de sexo, que nunca foi uma das preocupações do realizador, e cujo crescente abuso de exibição e exploração no cinema americano ele reprovava e detestava). Segundo o seu amigo e produtor Sam Shaw (e também grande fotógrafo de Hollywood, nomeadamente de Marlon Brando, Marilyn Monroe e do próprio John Cassavetes), “os filmes do John não têm enredo propriamente dito. As personagem são o enredo, de tal forma ele nos envolve nelas, nos mete por elas dentro”.   

[Veja o “trailer” de “Noite de Estreia”:]

E no cinema de Cassavetes, a inquietação, a instabilidade, a frustração, a infelicidade, são democráticas, atingem a todos: gente abastada, da classe média ou operária, empresários e trabalhadores manuais, burguesas e donas de casa, artistas e atrizes (“Noite de Estreia”). Esperança, paixão, felicidade, são condições passageiras, instáveis, voláteis. O verismo cru, nervoso e turbulento dos seus filmes, ajudado pela sua oposição a tudo o que fosse plano “compostinho” ou rigorosamente enquadrado (dizia sempre aos diretores de fotografia com que trabalhavam que esquecessem tudo o que faziam habitualmente), faz-nos sentir como espiões involuntários, intrusos relutantes do imprevisível e agitado espectáculo da vida emocional e mental das personagens. E só mesmo John Cassavetes para pegar no formato do policial, dar-lhe uma valente guinada e levá-lo para o seu “habitat”, como fez em “A Morte de um Apostador Chinês”.

[Veja John Cassavetes falar sobre o seu cinema:]

Tendo fundado uma distribuidora para os seus filmes, a Faces International, o realizador rodeava-se de uma “família” de técnicos e de atores que utilizava regularmente, caso do citado Seymour Cassel, de John Marley, Peter Falk (para o qual realizou e com quem contracenou num célebre episódio da série “Colombo”, em 1972), Ben Gazzara e, acima de todos, a sua mulher, a fabulosa e empática Gena Rowlands, principal intérprete de quase todos os filmes mais importantes do marido e seu “alter ego”, presença correlativa e representante primeira das suas preocupações e fixações. Esta enorme e constante proximidade com os atores, que eram também amigos íntimos e mesmo parentes (Lady Rowlands, mãe de Gena, aparece em vários filmes) e o facto de usar as suas casas como cenário, levaram o crítico Roger Ebert a adiantar que os filmes de John Cassavetes são emocionalmente autobiográficos. Ao que eu acrescentaria: e também temperamental e psicologicamente.

[Veja John Cassavetes e Gena Rowlands na rodagem de “Amantes”:]

https://www.youtube.com/watch?v=rC7oCZn2Wio

Opositor frontal do “Método” de Lee Strasberg, Cassavetes fundou um “workshop” de representação para pôr em prática as suas ideias. Tinha uma maneira muito pessoal de trabalhar com os atores (também entrou nalguns dos seus filmes), ensaiando durante algumas semanas antes da rodagem e depois dirigindo-os o menos possível e dando-lhes o mínimo de informações durante as filmagens.  A intenção era que fossem eles a descobrir o essencial sobre as personagens que interpretavam, por si e interagindo com os outros membros do elenco (o que por vezes os levava à exasperação, como confessaram Falk e Gazzara – aquele chegou certa vez a dizer-lhe que só voltaria a trabalhar ao seu lado como actor, e que nunca mais queria que ele o dirigisse como realizador). Mas Seymour Cassel revelou que, se tal se mostrasse necessário, Cassavetes interrompia a rodagem e voltava a ensaiar até tudo estar como devia.

[Veja Martin Scorsese falar sobre “Sombras” e John Cassavetes:]

https://www.youtube.com/watch?v=T75s3c2gsVk

O grande mito sobre os filmes de John Cassavetes, e que demorou algum tempo a ser desfeito, foi de que eles eram totalmente improvisados – quando na verdade eram cerradamente escritos e reescritos pelo realizador, com a excepção do primeiro, “Sombras” (também ousadamente pioneiro pela maior parte das personagens serem negras, e por mostrar uma relação interracial). Cassavetes, no entanto, gostava de estimular a criatividade dos seus actores durante as filmagens e quando uma cena lhe agradava sobremaneira ou conseguia filmá-la num só plano, mostrava a sua satisfação de detrás da câmara, com um sorriso rasgado ou um polegar bem ao alto. “Ele era generoso, mas às vezes podia ser insuportável”, contou Peter Falk, acrescentando: “Mas não é assim com todos os grandes realizadores visionários?”.

Além dos cinco filmes já mencionados, o ciclo John Cassavetes-O Verdadeiro Rebelde, vai mostrar também outros quatro títulos do cineasta, em outras tantas sessões especiais, apenas no Cinema Nimas: “Maridos” (1970), “Tempo de Amar” (1971), “Gloria” (1979) e “Amantes” (1983), a sua última realização. Este ciclo irá posteriormente a Setúbal (Cinema Charlot), Coimbra (Teatro Gil Vicente), Braga (Theatro Circo) e Figueira da Foz (Centro de Artes e Espectáculos).

(Ver aqui todas as informações: https://medeiafilmes.com/ciclos/ciclo-john-cassavetes-o-verdadeiro-rebelde)