Enquanto dezembro não chega para se finalmente compreender como é o futuro do universo de “Avatar”, com “Avatar: O Caminho da Água”, o original regressa esta semana aos cinemas numa versão remasterizada em 4K HDR. Antes da estreia em finais de 2009, a expectativa era imensa. O filme trazia nova tecnologia, novas formas de fazer motion capture e uso do 3D. O sucesso foi estonteante, bateu inúmeros recordes e popularizou, durante uns tempos, a compra de televisões em 3D. Talvez hoje já pareça um passado bem distante, mas “Avatar” prometia – e foi – uma experiência 3D inovadora no cinema. Cumpriu as expectativas e aumentou a febre pelo formato, até ela esmorecer.
Contudo, “Avatar” queria ser muito mais do que um feito tecnológico. Ao longo da carreira, James Cameron sobre sempre ler o presente e os seus medos – às vezes com anos de antecipação. Fê-lo com “Aliens” ou com a saga “O Exterminador Implacável” e a ideia de “avatar” estava em sintonia com o crescimento das redes sociais, mas também da crescente popularização de existências em realidades virtuais, como era o caso de “Second Life”, na altura, e muitas outras experiências no universo dos videojogos que não gozaram de tanta fama. Com o crescente uso da palavra “metaverso” nos últimos dois anos, é altura de perceber que se calhar a proposta de “Avatar” não andará tão longe da realidade quanto isso.
Porquê relançar agora, além do óbvio: há um novo filme – o primeiro de quatro que estrearão ao longo desta década. Numa conferência de imprensa virtual realizada há dias, na qual o Observador esteve presente, James Cameron realçou um motivo que lhe parece simples: “Passaram-se mais de doze anos desde a estreia. Quem tiver 22 ou 23 anos, é muito pouco provável que tenha visto o filme no cinema. Isso, de certa forma, significa que não viu realmente o filme, porque é suposto ser visto no cinema, em 3D. E ‘Avatar’ é muito mais impressionante nesta nova versão 4K.”
[o trailer de “Avatar”:]
O regresso de “Avatar” ao cinema, primeiro com a versão remasterizada do original e, em dezembro, com o segundo capítulo do franchise, renovam a ideia de um propósito de cinema que Cameron imaginou e que não teve um real seguimento após a sua estreia. Sim, houve promoção do 3D, o formato tornou-se, de facto, mais popular, e o motion capture (criar movimento digital através de movimento humano, captado através de tecnologias avançadas) hoje em dia é usado de formas que, por vezes, nem se imaginam. Contudo, em simultâneo, também aconteceu o advento do streaming, as pessoas ficaram mais por casa e o propósito de experienciar uma “sensação de imersão num mundo/fantasia e a disposição para aceitar essa fantasia e vivê-la – de uma forma relacionável – com as personagens”, como diz Cameron, parece ter desaparecido do cinema.
Por causa da tecnologia, é relativamente fácil pensar em “Avatar” como um videojogo. Não tem a ver só com o aspeto visual, tem também a ver com a forma como algumas personagens existem em Pandora, como avatares para conviverem com a população local: os Na’vi. O que Cameron criou com o filme original foi a possibilidade do espectador embarcar numa viagem/jornada clássica através dos olhos de uma personagem. Embora o espectador não posso tomar decisões, a personagem que Sam Worthington interpreta, Jake Sully, era um veículo de entrada para um mundo/experiência. Não podia ser jogado ou comandado, mas o contacto com o universo de “Avatar” dava uma forte sensação de presença.
Em simultâneo, como Zoe Saldana (que interpreta Neytiri) recorda na mesma conferência de imprensa, “Avatar” foi criado por James Cameron, “o criador de Sarah Conor [Exterminador] e Ellen Ripley [Alien]”, personagens femininas fortes. Por isso, quando Saldana – que estava a mudar fraldas na altura que recebeu o telefonema – soube que iria interpretar Neytiri, ficou muito entusiasmada: “Ela usa arco e flechas, sabe artes marciais, sobe as árvores…”, aludindo ao facto de ir interpretar uma personagem feminina forte no universo de James Cameron.
▲ Próximo de um videojogo, ou de uma experiência virtual, mas sem o ser, "Avatar" é cinema
Por falar em “Aliens” e Ripley: Sigourney Weaver também faz parte do elenco, como Dr. Grace Augustine, e ela recorda-se bem da primeira vez que viu o filme: “A primeira vez que se vê a personagem do Sam a entrar naquele mundo, a ter aquelas experiências físicas e a parecer cair num imenso vazio, no meio das ilhas flutuantes… o uso do 3D causa um efeito de presença, como espectador sentes que estás a tomar aquelas decisões na mesma sala que Jake.” Ou seja, havia — ainda há — qualquer coisa em “Avatar” que causava essa sensação de pertença. Sam Worthington diz, a dado momento que James Cameron descreveu a tecnologia como “o próximo passo na maquilhagem”. “Tive sempre receio que a coisa não passasse bem para o espectador, porque a Sigourney é azul, a Zoe é azul, eu sou azul… Mas éramos nós, os detalhes estavam todos lá. Tudo se traduzia bem, o nosso trabalho, as nossas interpretações.”
Aconteceu todo um outro mundo entre 2009 e 2022. Mas “Avatar” está de regresso, primeiro, numa versão remasterizada para nos trazer de volta a um mundo que impressionou na altura, por mais defeitos que tivesse: uma história que ficava aquém das expectativas e que era completamente cilindrada pela experiência que o filme promovia. Mas talvez essa falta de equilíbrio fosse necessária para aceitar “Avatar” enquanto experiência de uma tentativa de viver a vida de uma personagem através do cinema: próximo de um videojogo, ou de uma experiência virtual, mas sem o ser, é cinema. A verdade é que “Avatar” ficou na memória e vê-lo no cinema uma primeira vez é uma grande experiência. Agora, pode a história sobreviver após esse primeiro contacto? Só se saberá quando a sequela se estrear no final do ano.