No centro da acção de Tananarive (com argumento de Mark Eacersall e ilustração de Sylvain Vallée) temos Anémée, um notário reformado. Só isto, por parecer aborrecido, já adivinha que será o contrário. Como expectável num notário (por puro clichê, claro), e ainda por cima reformado, e à cabeça de uma novela gráfica, para trás deixou uma vida organizada e calma, sem grandes aventuras. Para se entreter, e fascinar, ouve as histórias do vizinho, Jo, e logo a priori fica evidente o contraste entre as aventuras de um e a vida lassa de outro, com o segundo a viver através do primeiro.
Contra uma vida confinada, havia uma em que parecia caber tudo, em que o inesperado já era expectável. Sempre em circunstâncias desfavoráveis, numa espécie de vida à Indiana Jones, Jo contava histórias desde lutas na Guerra da Indochina ou o trabalho como gigolô ou garimpeiro. E, à Indiana Jones, saía sempre por cima de tudo, e impecável. Tudo, no seu passado, parecia épico e heróico, e o próprio herói tinha laivos de biblioteca, cheio de histórias dentro. Assim que as contava, apanhava a atenção de Amédée como uma mão.
Ora, com a morte repentina de Jo, o notário, na lassidão da vida reformada, vê-se em busca de um herdeiro dos seus bens patrimoniais. Com isto, o livro envereda logo pelo movimento inverso ao da vida de Anémée até então. Pela primeira vez, o protagonista irá aventurar-se. Parece coisa pouca, mas, para quem nunca viveu fora dos riscos, o movimento sabe a coisa épica. Mete-se no descapotável que nunca tinha visto a vida fora da garagem e lança-se em busca de respostas.
Livro: “Tananarive”
Autores: Sylvain Vallée e Mark Eacersall
Editora: Asa
Tradução: Helena Guimarães
Páginas: 116
Enquanto o enredo se desenvolve, e pegando nos detalhes das histórias contadas, Amédée lá vai percebendo que nem tudo o que se conta é real, e o leitor vai tendo acesso a isto em simultâneo, vendo a forma de pensar e a corporização do raciocínio, ao mesmo tempo que chega à mesma conclusão. Num trabalho com uma narrativa instigante, o argumentista vai atando as pontas, com Anémée a aperceber-se da realidade, mandando abaixo as crenças – as verdades – anteriores. Pelo meio, a memória do vizinho aparece, e o protagonista entra em diálogo com a aparição fantasmagórica. E, com isto, enquanto ata os pontos, criando uma narrativa por si só, Anémée vai mostrando o passado daquele homem, ao mesmo tempo que introduz na narrativa outras personagens.
O seu movimento de busca é amplo, e traz outras gentes, e outras realidades, ao enredo. Estas aparições de Jo funcionam como a consciência de Amédée, que se vai desafiando em diálogos internos, atando fios, ou procurando atá-los. Com isto, finta-se também a necessidade de criar balões de pensamento para se seguir o fluxo de consciência da personagem, ao mesmo tempo que se vai criando uma dinâmica tanto narrativa quanto visual. Para o leitor, é satisfatório ver a forma como as narrativas e as expectativas se cruzam. Por um lado, há a história épica, inicialmente contada. Por outro, há a lassidão da vida, e a certeza de que esta não tem menor valor literário. Pelo contrário, é a quebra de expectativas que dá ao livro uma maior densidade emocional, agarrando o leitor, surpreendendo-o, impactando-o.
▲ A parte gráfica é fascinante, detalhada, cheia de cores, cuja paleta varia, e muito, consoante as situações, num registo semi-realista. Acrescentando muito ao texto, esta parte é, por si só, também um festival
Com isto, o leitor observa, de um lado, uma vida regrada que não deixou mossas e, do outro, uma espécie de vida que chama, que interessa, e que é cheia de buracos, assim como o que sustenta uma e outra, pelo menos no plano retórico. Ao mesmo tempo, a previsibilidade de Anémée, para os mais cínicos, saberá quase a uma vitória, já que o seu cinzentismo implica a ausência de cenários negros. Nem bom nem mau – mas, sobretudo, nem trágico.
Descobrir o passado de Jo é a aventura de Anémée, ao mesmo tempo que despir-se do que assumira como a verdade e da imagem que tinha de um homem que lhe fora próximo durante muito tempo. É também aqui que entra a magia de Eacersall, que, com a maior subtileza, deixa que impere a subjectividade. Num enredo que tem muito, mas que não tem a rigidez da aritmética, a dúvida insiste até ao fim, ainda que se procure matá-la, e é também isso que agarra e encanta o leitor. E, perante duas, ou mais, versões de um homem, o protagonista vai pesando o que deu de si ao mundo, o que implica pesar também o que deixou de dar.
A parte gráfica é fascinante, detalhada, cheia de cores, cuja paleta varia, e muito, consoante as situações, num registo semi-realista. Acrescentando muito ao texto, esta parte é, por si só, também um festival.
A autora escreve de acordo com o antigo acordo ortográfico.