Quando The Pitt é bom, é muito bom. Os momentos são óbvios e fáceis de referenciar e, quase por regra, estão ligados à morte, sobretudo à forma como se lida com a morte nas urgências de um hospital. Médicos, enfermeiros e familiares. As mortes começam logo no início e a questão é menos a morte em si, mas o modo como se faz notar na ação hiperfrenética destas urgências em Pittsburgh. Tanto que, mais à frente, quando uma criança é protagonista, sente-se a diferença, há algo que parece abrandar. E, embora não seja necessário ser dito o porquê, há um diálogo que o faz. Não é The Pitt, a própria série, a dar a mão ao espectador, mas a fazer a diferença. Há por ali momentos de muito boa televisão. Mas também outras coisas, nem por isso tão boas. Os dois primeiros episódios já estão disponíveis na Max. Os restantes treze chegarão a um ritmo semanal.
The Pitt é uma criação de pessoas que estiveram envolvidas na já clássica série Serviço de Urgência (que também está disponível na Max). Um trio: o criador, showrunner e também produtor de The Pitt, R. Scott Gemmill, John Wells, que produz e realiza alguns episódios, e Noah Wyle, o ator que era um jovem em Serviço de Urgência e que agora comanda a equipa de médicos desta nova série. Wyle também produz e escreveu alguns episódios.
Os espectadores vão reconhecer Wyle. E não é pela ideia de transição de uma série para a outra, mas porque, ao fim de três décadas, o seu papel em Serviço de Urgência foi marcante. A forma como agarra as rédeas de The Pitt logo nos primeiros minutos mostra como estamos num sítio seguro. Mas eis a pergunta inevitável: numa altura em que há tanta oferta, em que outros géneros parecem captar a atenção, ainda há lugar para os corredores de um hospital, de umas urgências, darem lugar a grande televisão? Já lá vamos. E não, leitor, não estamos a empatar.
[o trailer de “The Pitt”:]
Quando Serviço de Urgência surgiu, havia pouca oferta. E embora já existissem séries com médicos e hospitais, até em circunstâncias muito concretas (pense-se em M.A.S.H.), Serviço de Urgência foi marcante nos anos 1990. O elenco era ótimo e, se a memória falhar, recomenda-se que veja as primeiras temporadas para perceber como ainda se aguenta no tempo. Era muito boa televisão (melhor do que nos lembramos, melhor do que gostamos de acreditar só porque apreciamos dizer que vivemos num período de ouro da televisão). House e Anatomia de Grey foram outras duas séries que tornaram os hospitais populares e depois houve um pouco de tudo. Tal como as séries de tribunais e advogados, polícias ou bombeiros, as séries “de hospital” entraram naquele domínio comum de televisão de profissões. Há muita oferta, por regra destacada nos canais de televisão e não no streaming, quase sempre com uma ideia de localização ou de unidade definida.
Vamos ser realistas sem preconceitos: para esse tipo de televisão já não há saco. Não é por ser boa ou má, cada coisa tem o seu lugar, e, embora, ainda haja séries dentro desse formato que sejam um sucesso, é um formato ultrapassado, que está a viver à custa de um audiência que resiste à mudança. É comida de conforto para quem não quer experimentar outro tipo de iguaria, aparentemente demasiado exótica.
Agora está à espera que digamos que The Pitt é diferente, certo? Mas, na verdade, não é. Preenche todos os requisitos da base da fórmula. Altamente localizado, em Pittsburgh, o título da série é uma referência à cidade mas também à forma como o protagonista, Robby (Wyle) se refere às urgências (uma alusão a “pit”/cova); o centro são os médicos e os enfermeiros e, tal como acontece com as outras séries, por vezes diverge para outra coisa a fim de dar algo mais a quem vê, para fazer com que os espectadores se sintam menos cansados; apesar das personagens levarem pouca bagagem para as urgências, há sempre alguma bagagem e o drama pessoal floresce aqui e ali; há frequentemente uma notória vontade de convencer-nos de que há algo mais ali, mas nunca há. Ainda assim, esse estado de permanente sugestão faz com que o regresso aconteça. E depois há tanta, tanta informação a ser debitada, que parece hiperpormenorizada e convence o mais desprevenido dos espectadores de que se continuar a ver, um dia torna-se especialista em diagnósticos só por ver televisão. Episódio atrás de episódio. Até o frenético se fazer lugar seguro.
▲ "The Pitt" não traz nada de novo. Não vale a pena andar com rodeios. Mas quando entramos nas urgências, não saímos até resolver o problema. Nunca se sabe, não é?
Mas — reconheça-se — The Pitt tenta dar a volta à coisa e o formato é uma das ferramentas para enfrentar tal missão. Os quinze episódios (a imprensa teve acesso a dez, antes da estreia) representam quinze horas de um turno no serviço de urgências. As horas vivem-se como se estivéssemos em 24 (a série de ação com Kiefer Sutherland), mas sem a contagem decrescente. É uma ideia que funciona, porque ao longo dos episódios é notável o desgaste coletivo e há detalhes que fazem denotar bem a loucura de tudo o que se passa. Não há contrarrelógio visível, porque o contrarrelógio é o ADN das próprias urgências. A sugestão das quinze horas é uma ideia vencedora só por essa camada invisível. Por exemplo: há um momento em que Robby tem de ir à casa-de-banho, é interrompido e só consegue ir no episódio seguinte. Quem nunca foi interrompido pela vida e teve de esperar uma hora para ter 1 minuto de normalidade humana?
Pelo meio, entre mortes, casos de abuso, imensos problemas de coração, queimaduras e pregos espetados nos lovais menos óbvios, rouba-se uma ambulância do hospital e os funcionários fazem apostas em volta dos diferentes cenários possíveis: quem roubou, em que direção foi, onde vai parar, como irá parar, etc. No frenesim constante, este tipo de detalhe faz a diferença. Sobretudo quando é tão bem equilibrado com o resto. E o que é o resto? As urgências, claro, mas também a equipa médica, entre os que fazem aquilo há anos, os que estão no seu primeiro dia e os médicos estagiários. A única coisa nova que há a acontecer em The Pitt – e mesmo isso é discutível – é tudo acontecer durante um turno. Não há pausas, é uma injeção constante de adrenalina.
The Pitt não traz nada de novo. Não vale a pena andar com rodeios. Mas quando entramos nas urgências, não saímos até resolver o problema. Nunca se sabe, não é? E cada vez que pensamos em sair, pensamos nos tempo que já perdemos ali à espera. E se tivermos de voltar outra vez? Se entrarmos com pulseira verde, esperamos mais. Depois de 10 horas nestas urgências, é inevitável esperar mais cinco. Esse é o problema, que não é um mau problema: uma vez que entramos, torna-se difícil sair. Nesse aspeto, The Pitt é uma fórmula vencedora. Afinal, importa fazer as coisas bem, porque quando The Pitt é bom, é muito bom.