Carolina Deslandes e Diogo Clemente sobem, nos próximos dias 24 e 25 de janeiro, ao palco do Coliseu dos Recreios, em Lisboa. Já no dia 7 de fevereiro, a dupla viaja até ao norte do país onde atua no Coliseu do Porto. Estes três concertos marcam o regresso aos palcos do espetáculo Eu e Ele, que teve a sua estreia e única edição em 2017. Na altura, Carolina e Diogo eram um casal e estavam no início de uma história que já tem muito para contar. A nível pessoal, três filhos e do ponto de vista profissional dezenas de canções. A artista portuguesa, descrita por Diogo Clemente como “o Cristiano Ronaldo da música feminina portuguesa”, acredita que serão cerca de 60 as produções musicais em que já colaboraram. O produtor e músico não arrisca números, mas concorda quando Carolina Deslandes prevê que “mais virão”.
Os concertos em Lisboa e no Porto marcam um reencontro “especial” que pretende celebrar a amizade e a trajetória musical de ambos. Um regresso ao passado que é ao mesmo tempo uma amostra do presente e das pessoas que hoje são, cantado a duas vozes num alinhamento de canções construídas a dois. A dupla abriu as portas do estúdio à Rádio Observador que foi acompanhar os preparativos para a segunda edição do espetáculo Eu e Ele.
A primeira foi em 2017, dois anos depois do início de uma história que começou em 2015. Carolina Deslandes e Diogo Clemente foram um casal durante cinco anos, mas em 2020, chegava a notícia da separação. Ainda assim, a trajetória em conjunto não terminou. Para além dos três filhos, a música nunca deixou que se separassem. Os dois sublinham que os seus principais sucessos são sobretudo canções de amor feliz, mas reconhecem que o impacto da música é maior quando o sentimento é o oposto – tristeza. Questionados sobre a melhor altura para escrever uma música, respondem sem hesitar: “É quando estás muito alguma coisa… Muito feliz, muito triste, muito chateado etc…”. “Só não podes estar num estado ameno”, complementa Diogo Clemente.
Carolina Deslandes: “Gostamos genuinamente um do outro”
Não há dúvida de que para a dupla a música é muito mais do que uma profissão. Cresceram a ouvir, a cantar e a escrever canções. “A música é algo que dá jeito, é algo curativo. É como ir à missa”, diz Diogo Clemente. Contudo, acrescenta que hoje em dia o tempo que despende com a música não é o mesmo de outrora. Refere que aprendeu a “setorizar as responsabilidades” com o nascimento dos filhos. Uma espécie de balança que, acredita, beneficiou também o seu lado profissional. “A música ganhou muito com isso. Viver fora da música traz muito à música”. É assim que pensa Diogo Clemente, que desde os 14 anos – altura em que venceu a Grande Noite do Fado – dá cartas no mundo da música, mas que só agora tomou a liberdade de lançar o seu primeiro álbum. “Amo-te E Outras Coisas P’ra Te Dizer” é um projeto que tem por base um livro, também escrito pelo próprio, de 133 poemas. Por quê só agora? Diogo Clemente responde dizendo que lançar um disco “nunca foi um objetivo desde cedo, apesar da pressão externa”. Sublinha ainda a componente “demasiado pessoal” e “solitária” dos poemas que deram origem às canções e que o fizeram esperar por esta altura, a “melhor altura”, e que o levou a fazer uma espécie de “retiro” em Gaia, no distrito do Porto.
▲ Carolina Deslandes no festival Sol da Caparica, em Almada, em 2023
CARLOS M. ALMEIDA/LUSA
Carolina Deslandes não acompanhou as gravações do álbum de estreia de Diogo Clemente, mas o produtor é o primeiro a assegurar que a artista conhecia todas as canções. Até porque a cumplicidade entre os dois, principalmente no mundo da música, beneficiou a carreira de ambos. A posição é defendida pelos dois com um “claro que sim”. De uma “soma inesperada” a uma dupla de sucesso, os dois cresceram em conjunto. Da elegância do fado e teimosia com a escrita por parte de Diogo Clemente à irreverência de Carolina Deslandes, que “adorava rap e tinha o cabelo verde”. Ainda assim, em comum têm a opinião de que “Chico Buarque é Deus na terra”. Uma fusão de géneros, temas, formas de pensar e gostos que juntou dois mundos diferentes e fê-los crescer. “Uma soma muito bem cozinhada”, conclui Clemente.
No fundo, uma equipa em tudo, como descrevem. “Continuamos a trabalhar juntos, fazemos um co-parenting muito próximo, vivemos perto um do outro e a vida continua a dividir-se dentro do que faz sentido, cada um com espaço para a sua individualidade. Gostamos genuinamente um do outro.”, refere Carolina que assegura que trabalhar com Diogo Clemente traz claros benefícios, apesar de nem sempre ser uma tarefa fácil. “Temos os dois personalidades fortes, temos demasiada confiança e às vezes quando tu trabalhas com pessoas com quem tens demasiada confiança é difícil seres tão profissional como és com as outras pessoas. Mas dá sempre o melhor resultado”, acrescenta a artista, que sublinha a liberdade para chorar, rir e mesmo errar durante o trabalho. Uma forma de trabalhar que vê como rara, pelo modo como “trabalha com a mesma naturalidade com que existe”. Tão natural quanto a capacidade de Carolina e Diogo se acompanharem na música.
▲ Diogo Clemente, músico e produtor
Caixa Alfama
Ora ao piano, ora à guitarra, Diogo Clemente começa a melodia que é acompanhada pelo timbre calmo de Carolina Deslandes, que, embora magoada nas cordas vocais e sem forçar muito a voz, quase como uma espécie de futebolista em treino condicionado, é capaz de silenciar um estúdio que se prepara para fazer uma entrevista. Os sons dos cabos a tocar no chão e o ajuste de cadeiras não ofuscam Carolina Deslandes, que prossegue num tom baixinho e inconfundível. Um jeito primoroso que deixa-nos a pensar “imagine-se se não estivesse com a voz magoada”.
Entre risos e sem nunca colocarem em causa a continuidade no mundo da música, Carolina Deslandes e Diogo Clemente tentaram olhar para um universo paralelo em que não fossem artistas. Então e o que seriam? Diogo chega-se à frente e sem hesitar chuta “jogador de futebol” (de preferência do Sporting). Depois, diz que se via perfeitamente como marceneiro e justifica ao revelar que foi ele quem construiu o estúdio onde estávamos. Uma espécie de “estúdio de garagem” bastante acolhedor e com tudo ao dispor. Já Carolina, não consegue fazer o exercício com a mesma facilidade. Ainda refere “escritora”, mas depois descarta a possibilidade por continuar a ser uma opção artística. Confessa mesmo a dificuldade que seria viver fora das artes e por isso acredita que optaria por um trabalho “ligado à organização de espetáculos e eventos”.
Ouça aqui a reportagem da Rádio Observador no ensaio.
A verdade é que o espetáculo organizado é o desta sexta-feira, altura em que o público terá a oportunidade ver o regresso da dupla. O primeiro regresso porque no dia seguinte — sábado — há novo encontro no Coliseu de Lisboa — com ambos concertos esgotados. Depois, será preciso esperar cerca de 15 dias para voltar a ver Carolina Deslandes e Diogo Clemente juntos em palco. Desta vez no Porto, um concerto que deve também significar um “até já” duradouro, isto porque os dois não têm a intenção de voltar com o espetáculo Eu e Ele para breve. Não é um “adeus”, mas Carolina Deslandes sublinha que este espetáculo representa um “lugar que têm e voltarão quando quiserem sempre, mas é um lugar que não queremos cansar”. No entanto, e para gáudio dos fãs, as produções musicais nas quais trabalham em conjunto vão continuar a surgir, algo que a dupla nem sequer coloca em causa.