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Hora viva! Começa aqui a segunda temporada de Transformar Portugal. Este é um podcast do Observador, uma parceria com a EY, onde debatemos temas fundamentais para o futuro da economia portuguesa. Nesta segunda temporada, vamos olhar para setores de atividade que podem ser transformadores. Começamos, naturalmente, pela indústria e vamos fazê-lo com o Armindo Monteiro, que é presidente da CIP, a Confederação Empresarial de Portugal, a mais importante organização representativa das empresas, que se junta a Hermano Rodrigues, principal da EY Parthenon, e José Roque, partner da EY, responsável pelas áreas da indústria e da energia. Eu sou o Paulo Ferreira. Começo, antes de mais, por dar as boas-vindas aos três. É um gosto recebê-los aqui. Armindo Monteiro, começando por si, o país continua a apresentar níveis de produtividade significativamente abaixo daquilo que são as médias da União Europeia. São conhecidos, há muitos bloqueios, as empresas são mais pequenas, qualificação dos recursos humanos, o investimento em tecnologia, a questão das instituições também. Se tivesse que escolher um, conseguiria indicar um principal bloqueio à produtividade?

Olá, Paulo Ferreira. É um prazer estar aqui e em tão boa companhia com os amigos da EY, o José e o Hermano. Este tema, Paulo Ferreira, é um tema que deveria mobilizar os portugueses. Esta ideia que só nos mobilizamos quando estamos perante uma prova desportiva, quando queremos conquistar medalhas olímpicas ou um campeonato europeu ou mundial de futebol, que é importante. Eu confesso, também é apaixonado pelo desporto, mas nós temos um problema estruturante. E o problema estruturante é que a forma como nós organizamos a nossa economia nos últimos 50 anos, que naturalmente tem depois explicação, porventura, nos séculos anteriores, mas agora referindo só nos últimos 50 anos. A forma como nós organizamos foi, de facto, com valor acrescentado baixo. E eu começo por dizer valor acrescentado baixo, porque parto logo para dizer a produtividade baixa, quem nos estiver a ouvir e não estiver suficientemente esclarecido, vai logo dizer: "Lá estão os patrões a apontar o dedo aos trabalhadores". Nada disso.

Questão de organização da economia.

A produtividade tem muito pouco a ver com o esforço individual do trabalhador. Tem muito mais a ver, de forma que acabo de dizer, a forma como estamos organizados, a forma como o Estado permite que sejamos ou não eficientes e a forma como o investimento está a acontecer nas empresas. Se nós não tivermos investimento, se nós não modernizarmos, eu referindo-me concretamente à parte industrial, porque os serviços é outra questão, mas na parte industrial, se nós estivermos mais perto da manufatura que propriamente da automatização, é óbvio que nossa produtividade vai ser sempre baixa. Ou seja, não vale a pena nós discutirmos muito isto sem termos em conta esta premissa. Se nós tivermos a nossa indústria muito baseada em manufatura, parte artesanal e não industrial, é óbvio que nós vamos ter uma produtividade baixa. Também pode o trabalhador trabalhar de sol a sol, que não vai mudar isso. Portanto, é preciso termos esta consciência que a produtividade é mais complexa do que aparenta.

Destes fatores todos que há pouco falámos, isso remete-nos então para o investimento em tecnologia e dimensão das empresas.

É isso mesmo, Paulo Ferreira. Ou seja, se tivesse que escolher um, eu escolheria a intensidade de investimento. Se nós não criarmos um verdadeiro apelo ao investimento, em conseguirmos modernizar as nossas empresas, automatizando-as, arranjando forma de subir no valor acrescentado daquilo que produzimos, subir em termos de fileiras, subir na cadeia de valor, nós não vamos conseguir resolver esse problema. É um problema crónico que não vamos conseguir resolver.

Hermano Rodrigues, no caso da indústria, nós temos a União Europeia, no fundo, a colocar o setor industrial no centro da agenda, a tal reindustrialização da Europa. Até que ponto é que isto é uma oportunidade para Portugal também se tornar mais competitivo?

Eu acho que é uma oportunidade enorme. Acho que tal como há uns bons anos atrás, os ventos correram muito a favor com a Primavera Árabe, etc, de Portugal para atividades mais ligadas ao turismo. Eu acho que, neste momento, os ventos correm de forma muito favorável em Portugal para temas de reindustrialização. Não reindustrialização, necessariamente, nos mesmos setores ditos tradicionais, em que Portugal já tem uma pegada, mas em muitos setores onde, de facto, Portugal, apesar de ter muito boas condições, ainda não tem um peso relativo significativo na economia. E, portanto, efetivamente, Portugal pode se posicionar de uma forma muito efetiva para estes bons ventos, como destino de investimento industrial sustentável, tecnologicamente avançado. Porque, por um lado, dispõe de uma base industrial diversificada, ainda é dos países europeus onde permanece uma base industrial forte e diversificada. É muito importante ter esta conceção.

Temos muitos setores de atividade dentro da indústria, claro.

Absolutamente. A competitividade hoje joga-se não necessariamente em setores muito específicos, mas cada vez mais numa interpenetração e numa cooperação entre setores que no passado eram muito mais limitados, muito mais autónomos e, portanto, ter uma base industrial diversificada dá uma vantagem grande. Depois, um segundo aspecto muito importante que é uma forte vocação exportadora, isto é, nós não só temos esta base industrial robusta, significativa, diversificada, mas estamos nos mercados internacionais, estamos cada vez mais em mercados mais exigentes. E por último, temos capital humano qualificado, abundante e bastante competitivo, e temos uma crescente disponibilidade de energia renovável. Não sei se ainda é, neste momento, para os utilizadores industriais, sobretudo para os grandes consumidores intensivos em energia a preços competitivos, mas que temos uma base cada vez mais interessante, é um fato.

E são fatores de competitividade esses.

São fatores de competitividade.

Claro, devem ser potenciados.

Só frisar que não basta tê-los, é preciso torná-los efetivos, e eu acho que é aí que nós estamos a falhar. Para isso não é necessário termos mais incentivos financeiros ao investimento. Eu acho que é mais ter capacidade para executar projetos com rapidez e com previsibilidade. Portanto, os ingredientes estão aí, é só preciso organizá-los melhor para sermos mais efetivos.

Claro, e pô-los a trabalhar uns com os outros. José Roque, a questão da tecnologia é fundamental. A indústria, não só em Portugal, mas em todo lado, tem vindo a incorporar, de fato, mais automação, robótica, digitalização. Em que áreas é que acha que nós temos maior potencial para ganhos rápidos de produtividade e de competitividade?

Bom, ganhos rápidos pode ser sempre um desafio.

Claro.

Temos que abordar sempre os temas de uma forma estrutural, mas pensando realmente no tecido empresarial que temos e no que já existe no terreno. Normalmente, nos projetos que fazemos, o desafio da maior parte da indústria não é necessariamente: "Ah, agora tenho que montar sensores para ir buscar dados". Os dados normalmente já lá estão. Portanto, considero que há realmente aqui um "low hanging fruit" no potencial dos dados. Olhar para os dados que já temos dentro de casa, dentro da indústria, trabalhá-los, trazer naturalmente inteligência artificial para que consigamos gerir os ativos de forma melhor, ter uma manutenção preditiva desses mesmos ativos e quase que criar uma janela para o futuro do que é que pode ser a minha linha de produção, a minha integração com o planeamento. As ferramentas que estão disponíveis hoje em dia realmente são aceleradores muito importantes e realmente um catalisador fundamental para conseguir capturar valor adicional ao que já temos sem um grande investimento. Tocava só num segundo ponto, que é algo que estamos a ver agora surgir a nível global, que é o tema que é chamado a inteligência artificial física. Não é mais do que os robôs autômatos ligados a modelos de inteligência artificial. Acho que já todos vimos estas corridas ou estes Jogos Olímpicos dos robôs autômatos da China. Por vezes parecem um pouco até trapalhões, chamemos assim.

Sim.

Mas os carros iniciais também o eram. E hoje em dia temos aproximadamente 1,6 mil milhões de veículos a rolar nas estradas por todo o mundo. Portanto, claramente o caminho é esse. Quando nós olhamos para o tecido empresarial e para aquilo que produzimos, e produzimos bem, têxtil técnico, moldes, componentes, metalomecânica, achamos que esta nova componente da automação com os robôs autômatos ajuda precisamente aqui numa fase de integração que preferência séries mais curtas e mais especializadas do que a automação em massa. Portanto, aí também julgamos que há claramente um potencial enorme.

Um ganho forte, claro.

Precisamente.

Claro, mais eficiente. Armindo Monteiro, há pouco o Herman já referiu este tema. A CIP tem defendido que o problema de Portugal não é tanto a falta de estratégias, mas sim a dificuldade em executá-las, passar da ação à prática. Isto é, por mais meios e recursos adequados que tenhamos, depois é preciso pô-los alinhados numa boa execução. Olhando para a administração pública, que reforma concreta é que acha que teria hoje maior impacto na competitividade das empresas?

De fato, o que o Herman Rodrigues referiu, estou totalmente de acordo. É que o desafio hoje em Portugal não é apenas econômico, é claramente institucional. É esta capacidade que nós temos em Portugal de querermos olhar para este ponto e resolvê-lo, porque há vários pontos que nós identificamos, fazemos o diagnóstico, mas não queremos manifestamente resolvê-lo. E este ponto, se nós não resolvermos, vamos continuar a ter nos relatórios, sejam internacionais, sejam nacionais, dizer que a economia portuguesa cresceu, por exemplo, 1.5 E depois aquela frase sempre terrível que é: "Abaixo do seu potencial". Ora, sendo abaixo do seu potencial, significa que não estamos a fazer tudo aquilo que nós podemos fazer para realmente crescer ao nível daquilo que podemos e merecemos crescer. Para isso, nós precisamos de colocar o desafio como absolutamente prioritário. E nesta questão da industrialização, nós estamos a acordar, temos a ter aquilo que alguns dizem, um violento despertar, que é percebermos que o facto de nós, não apenas Portugal, mas a Europa, colocarmos a fábrica do outro lado do mundo, não foi talvez a melhor solução. Foi durante algum tempo, fomos eficientes em termos de custo, mas há outras variáveis que hoje são igualmente importantes. Matérias-primas, naturalmente, energia, o custo da energia e a logística. Hoje a logística já não é só o transporte. Antes, a logística era o transporte. Hoje, na logística, temos o transporte, temos a promoção do próprio produto e temos, naturalmente, a fase de entrega, que não é bem o transporte, é como é que fazemos a entrega.

Como é que chega ao cliente.

Como é que chega ao cliente. Exatamente. E tudo isso, onde também está o transporte, mas não é só o transporte, portanto, uma logística eficiente, que também requer uma rede eficiente. E nós, por exemplo, temos uma eficiente que é a rodoviária, mas para aí.

Sim, a ferrovia é melhor nem falarmos.

Ferrovia, nem falemos nisso. E quando falamos de indústria, naturalmente que há produtos que são eficientes se houver um custo de transporte baixo e esse a ferrovia poderia resolver. Não é o caso. Por isso, hoje, pensar uma política industrial em Portugal, na Europa, articulada, requer olharmos para variáveis, que são variáveis que até agora nós não construímos. É um bocadinho cada um por si. E temos que ter esta noção que, por exemplo, na excessiva regulamentação que a Europa faz, não tem em conta aquilo que é uma realidade, é que nós não estamos sozinhos no mundo. De nada serve regulamentarmos no espaço europeu quando as regras fora do espaço europeu são completamente diferentes. Na parte do ESG, seja na parte ambiental, seja na parte social, inclusive na parte do ambiente, temos agora que resolver isto. Nós queremos, naturalmente, não somos negacionistas, nós sabemos os problemas que o planeta tem, sabemos que estamos no século XXI e que, portanto, não podemos fazer retrocessos em relação a conquistas sociais que promovemos e que queremos potenciar, mas temos de ser muito realistas. A economia tem que acompanhar tudo isso. Nós não podemos deixar de ser competitivos e por isso temos que sempre ter em conta o impacto que todas estas regulamentações nos fazem no mundo onde estamos sós. Porque se pensarmos na Ásia, no Médio Oriente, nos próprios Estados Unidos, não têm as mesmas regulamentações que nós.

Mas os impactos da atividade deles são globais também.

Absolutamente.

Em termos ambientais.

A diferença, Paulo Fraga, é que nós regulamentamos e depois tentamos produzir. Nos Estados Unidos produzem e depois onde veem excesso, regulamentam. E essa é a forma de corrigir.

Deixe-me pegar nesse ponto da regulamentação, Armando Rodrigues. Aqui uma questão só, aqui um detalhe: nós temos um problema claramente com licenciamentos, decisões administrativas, não tanto pela solução final, que muitas vezes é a aprovação, mas no tempo que se demora a chegar lá. Estamos a falar de indústria onde estes sistemas são fundamentais. Era realista nós estabelecermos metas vinculativas para estas áreas?

Bom, eu acho que não só é realista como é mesmo necessário. Em linha com aquilo que o Armindo referiu. Não se fazendo, nós vamos continuar a reunir as condições, mas não vamos chegar lá, porque efetivamente a confiança na tomada de decisão é absolutamente fundamental. E, portanto, como o Armindo também dizia, nós precisamos de reforçar de forma, eu diria, quase que radical o investimento. E não vamos conseguir fazer, número um, só com investidores nacionais. E, portanto, se os nacionais já perdem a paciência, então os internacionais pensam em várias outras alternativas. Portanto, é realista, é necessário. Se as empresas se conseguem adaptar a regras exigentes, a administração pública também tem que o conseguir fazer, e tem que se conseguir criar as condições para isso. E hoje as condições de suporte para isso são tremendamente mais favoráveis do que há quatro anos atrás ou cinco, e até do que há dois anos atrás.

Fala da tecnologia e de inteligência artificial.

Fala da tecnologia, fala da inteligência artificial.

Para dar apoio a isso.

Os ingredientes estão aí. Evidentemente que metas claras obrigam a uma maior responsabilização da administração pública, mas eu penso que a rapidez não precisa de comprometer o rigor. Portanto, é possível compatibilizar rigor e velocidade, e é por aí o caminho. Acho que é preciso inverter um bocadinho. Um aspecto final relacionado com este, que eu acho que também poderá ajudar, é que nós temos em Portugal um modelo, que é muito um modelo de controle e de sanção associada. Portanto, os incumprimentos que eventualmente podem existir por parte das empresas, dão origem a um processo de sancionamento

O mesmo podia acontecer na administração pública

Também poderia, mas acho que o modelo tem que mudar. Nós, por exemplo, damos a Irlanda como um país de referência na atração de investimento direto estrangeiro. As agências públicas na Irlanda tratam as empresas como clientes. As empresas são clientes das agências públicas irlandesas e, portanto, as agências públicas irlandesas têm gestores de cliente. O que é que os gestores de cliente querem fazer? Querem identificar os problemas e montar com as empresas um roadmap para resolver os problemas. Não é aplicar a coima, porque a coima é o último desincentivo que nós queremos introduzir. Nós queremos é arranjar soluções. Ora, o modelo tem que mudar.

Uma visão cultural completamente diferente.

Completamente diferente. E os resultados estão à vista.

Claro.

E os resultados estão à vista.

Os deles e os nossos. José Roque, vamos entrar na questão da energia, que também é fundamental como contexto de competitividade. Obviamente que a eletrificação da indústria vai exigir, ou já está a exigir, um reforço grande das redes, do armazenamento, de uma maior capacidade também de ligação ao sistema elétrico. Nós estamos a avançar à velocidade que devíamos, precisamente para acompanhar as necessidades da indústria?

A velocidade nunca é aquela que nós queremos. Olhando para o tema de energia, de forma lata, Portugal no ano 2000 tinha uma dependência energética de aproximadamente 85%.

Energética, olhando para todas as fontes.

Matriz energética completa. Hoje em dia tem 65%.

Reduzimos bastante.

Reduzimos bastante, quando não temos petróleo e não temos gás. Um pouco acima da média europeia, mas a média europeia também é composta por países que têm efetivamente essas reservas. Portanto, temos feito um caminho de aposta nas energias renováveis, precisamente porque elas são endógenas. Temos sol, temos vento, temos água, temos resíduos, podemos gerar biometano. Agora, a indústria, como nós, como as famílias, quer energia disponível e a preço competitivo. Então, temos contexto. Isto está no cerne do que é toda a energia. O caminho, efetivamente, tem vindo a ser feito. E se nós pensarmos na alternativa, por exemplo, olhando hoje em dia para o preço do petróleo, estamos nos 107, 108 dólares. É 60% acima do que era há um ano. E controlamos pouco ou nada desse preço, porque é uma commodity mundial.

O preço é passado diretamente para o consumidor.

Precisamente, por isso que vemos as famílias agora a sofrer cada vez que vão ao posto de abastecimento. Portanto, efetivamente, temos feito esse caminho. O governo também tomou a decisão, muito em linha com toda a Europa, de aumentar significativamente o investimento nas redes. Cerca de 60% a 70%, tanto nas redes de transporte como distribuição. As redes têm vindo também a sofrer momentos mais difíceis, desde o apagão que começou em Espanha. A tempestade Kristen, que afetou mais de 6 mil km de redes de distribuição e cerca de 700 km de rede de transporte. Portanto, é preciso reconstruir tudo isso, ao mesmo tempo que estão a tentar chegar a mais indústria, a mais data centers, a mais subestações. Ao mesmo tempo que também está a competir no mercado global. Um exemplo muito simples: um transformador que é posto numa subestação. A subestação é basicamente uma coisa à escala industrial, que é o nosso carregador de telemóvel em casa.

Exato.

Temos o carregador de telemóvel na parede e ele passa dos 230 V para uma voltagem mais pequena, para os telefones e os computadores funcionarem.

E a subestação faz isso, mas para uma indústria.

À escala industrial.

É uma boa imagem.

Desde o momento da decisão de tomada de compra de um transformador para uma subestação, pode demorar até dois anos a ele ser entregue.

Para ser entregue.

Para ser entregue. E não estou a falar de uma coisa super customizada, porque a indústria também está a aprender e está a standardizar e tudo mais. Agora, alinhar todas estas componentes enquanto temos o consumo energético a subir. A eletricidade bateu o máximo de sempre o ano passado, com cerca de 53 TWh. É efetivamente desafiante pôr estas componentes todas a funcionar ao mesmo tempo.

Claro, alinhadas.

Enquanto temos também aqui depois esta componente da velocidade e do licenciamento que o Armindo e o Hermano tocavam.

Também se aplica aqui, obviamente, neste setor.

Imensamente. As linhas precisam passar por terrenos, precisam passar por estradas.

As próprias centrais, claro.

Alguns são públicos, outros são privados. Portanto, temos feito o caminho, exatamente, mas ainda há, efetivamente, trabalho a fazer.

Muito bem. Peço só uma nota ao Hermano Colrix sobre esta questão, antes de fecharmos com o Armindo Monteiro, estamos mesmo em cima do nosso tempo. Hermano Colrix, ligado aqui com a questão da energia, nós temos, de facto, uma componente cada vez maior de energias renováveis, que são mais baratas. A pergunta é: por que essa vantagem não se traduz plenamente numa economia real?

Pronto, porque, na verdade, isso não é um aspecto particular nacional. A produção de energia é apenas uma parte da equação.

Claro.

Desde a cadeia a montante até ao consumidor final, que pode ser doméstico ou não doméstico. Neste caso, estamos aqui, sobretudo, preocupados com o não doméstico Sendo que o doméstico, em muitos aspectos, também é muito importante. É uma equação muito importante numa parte que explica porque é que efetivamente a produção é apenas uma parte da equação.

Depois há o transporte, claro, há encargos, taxas.

O transporte e a distribuição é absolutamente fundamental.

Na componente de custo final, claro.

E, portanto, os mecanismos também de compensação públicos também são uma componente importante, sobretudo para os grandes consumidores industriais de energia. E, portanto, de facto, em Portugal, como o José Roque dizia, há constrangimentos relevantes em termos de redes, em termos de armazenamento, em termos de licenciamento, em termos de mecanismos de contratação de longo prazo, que também é algo muito importante. Quer dizer, tomada a decisão de atividades fortemente intensivas em energia, que normalmente implicam CAPEX de valores muito elevados, tem que ter algum tipo de compromisso, não é para hoje, nem é para daqui por um mês ou dois ou meio ano, é anos. Portanto, isso também falta. Portanto, estabilidade e previsibilidade dos custos energéticos. Mas eu diria que uma parte dos problemas acabam por emergir no contexto também, de facto, do transporte e da distribuição, que precisam de se tornar bastante mais efetivos.

E mais eficientes em termos de custos, certamente. Claro, tempo também.

E nesta equação, nós temos feito vários trabalhos sobre o tema e na verdade estamos a fazer agora um grande trabalho com a CIP sobre a matriz prevista de energia há 10 anos. E dada a necessidade que o José Roque indicou prevista para as próximas décadas em termos de aumento de consumo de energia, e eu estou a falar no mundo, na Europa, mas estou a falar em particular em Portugal. Nós, por exemplo, investimos neste momento mais investimento em data centers, porque nós não vamos ter capacidade para alimentar os centros de data centers.

Para lhes dar energia.

E portanto, desse ponto de vista, acho que tem existido ao longo do tempo um enviesamento, que é um enviesamento europeu, mas que Portugal agarrou muito bem, como tipicamente faz, e até agarrou bem demais. A solução para isto nunca passou, não passa, nem vai passar só pela eletrificação. Nós temos que ter em consideração os outros vetores energéticos que existem em Portugal. Temos que ter em consideração, por exemplo, uma rede de gás que foi criada, que é altamente capilar, que é talvez a rede de gás mais moderna da Europa, e mobilizá-la para aquilo que, por exemplo, é a emergência dos novos gases renováveis, que podem não só ajudar a inserir no sistema energia renovável, que não é eólica, não é solar.

Mas é outro tipo, claro, de renovável.

Competitiva e que simultaneamente até pode ser um vetor muito importante para resolver, de uma vez por todas, um conjunto de desafios de natureza ambiental que nós não conseguimos resolver ou conseguimos resolver mal. Portanto, acho que é a gestão de todo este ecossistema de uma forma inteligente que permitirá, de facto, não só atenuar aquilo que são pontos fracos, mas transformá-los em pontos fortes.

Claro, em vantagens. Armindo Monteiro, para fechar os desafios, enfim, são mais que muitos, falámos de alguns aqui. Se pudesse definir um único objetivo nacional para a próxima década, no fundo, que tivesse capacidade transformadora e mobilizadora também da sociedade civil, empresas, governo e por aí fora, qual é que seria?

Este é um ponto muito importante, porque nós normalmente pegamos nos assuntos portugueses e discutimos sempre, digamos, o last mile. Por exemplo, por que os salários são baixos? E não percebemos toda, vemos a árvore.

Vamos à origem do problema.

À origem, exatamente. Toda a raiz que está nesse problema. E hoje foi notícia ao Observador que uma central solar na Beira desistiu. Houve um projeto de uma central solar de 240 milhões e desistiram. E vamos tentar perceber primeiro, era importante, era fundamental, porque se nós precisamos é, de facto, atrair investimento externo. E, portanto, por que desistiram? Porque, naturalmente, a dificuldade do processo administrativo foi de tal maneira que naturalmente estão a ponderar desenvolver este projeto fora de Portugal. E vai-se ver. Nós estamos a pedir, enquanto confederação empresarial, estamos a pedir menor escrutínio. Não. Quando nós pedimos que haja simplificação, naturalmente que a simplificação não é para conceder ao escrutínio, ao rigor, à transparência, como de resto o Herman já dizia. O que nós queremos é aplicar aquela máxima que tempo é dinheiro. O problema é que em Portugal o tempo é imposto, ou seja, é uma penalização. E esta penalização que se aplica sobre os investimentos não pode acontecer. E sobretudo, um aspecto que também o Herman Rodrigues referia, que era: a administração serve para exercer sobre os cidadãos e as empresas um sentido pedagógico, no sentido de ajudar a cumprir as suas obrigações, ou está, digamos, vou utilizar uma palavra que todos compreendem, à coca, que haja uma falha para depois penalizar. É a ideia do polícia atrás do arbusto. Não, a ideia é criar este sentido, dissuadir este sentido de ajudar no cumprimento e não este lado mais penalizador que de resto a administração usa e abusa em Portugal. Desconfia. Ou seja, quando estabelece uma lei, não a estabelece no sentido de criar um level playing field, um campo de jogo equilibrado. Não. É logo com um conjunto de antecipações, de preconceitos, que vão: não é confiável o cidadão, nem a empresa e, portanto, não sendo confiável, vamos colocar já aqui uma data de postos nos passeios para que não se estacione lá. Ou seja, aquilo que o Paulo Ferrão há bocado dizia, é uma questão cultural. Tudo isto para dizer o quê? Que nós evoluiríamos melhor se fizéssemos compromissos e não tivéssemos esta desconfiança de uns com os outros.

A ideia da Islândia do cliente, da empresa é cliente da administração pública.

A ideia do gestor de cliente é realmente fundamental e não a ideia de construir, como muitos serviços fazem em Portugal, construir os orçamentos a partir das penalizações que cobram. Ou seja, já se estabelece como objetivo: hoje tem que dar sete multas para atingir o orçamento.

Há objetivos quase anuais para isso.

Exatamente. É aquilo que nas empresas chamamos de leads comerciais. As administrações passam a fazer leads, digamos de

Penais.

Penais, de penalizações para cumprir os seus orçamentos. Não é essa a lógica, não deveria ser essa a métrica. Aquilo que deveria ser a métrica é: regras claras, pedagogia, criar esta ideia de apoio, sobretudo as políticas públicas serem para potenciar a energia da sociedade e não para a canalizar, para responder administrativamente. O core business muitas vezes nas empresas está manietado, porque já andamos mais tempo aos papéis, também é uma expressão não coloquial, mas que todos entendem, mais tempo aos papéis e aos licenciamentos, etc., que propriamente no core business. E aqui, permitam-me utilizar a antena da Rádio Observador para isto. Empresas como a EY, que são empresas de conhecimento, são empresas de informação, são empresas que têm uma rede multinacional e que, portanto, estão ligadas às boas práticas. É bom os empresários portugueses, nós termos esta humildade de dizer: "Não sabemos fazer tudo bem e bem feito". Muitas vezes sabemos do nosso negócio, mas as otimizações não sabemos. E é bom termos alguns guias que as empresas de consultoria permitem dar. E não estou aqui a fazer uma publicidade às empresas de consultoria, que não me pediram fazê-lo, mas enquanto presidente da Confederação, devo reconhecer que muitas vezes nós precisamos, para subir na cadeia de valor, precisamos de conhecimento. E numa era desta sociedade da informação do conhecimento, como dizemos, que vivemos, já não basta a inspiração do momento. Precisamos de séries longas, muitas vezes, de dados para sabermos se estamos a tomar a boa decisão. E esta capacidade muitas vezes não a temos na nossa empresa e por isso não faz mal nenhum nós termos essa humildade de reconhecer que não fazemos tudo bem feito, mas se queremos e se temos a ambição de ir mais longe, devemos de facto fazê-lo em conjunto com quem nos pode ajudar. Estou a dizer isto porque, uma vez mais, nós estamos a fugir dos lugares da frente, dos ratings. E isto é terrível. Nós falamos sempre que temos baixos salários, mas muitas vezes não falamos que os baixos salários é pela produtividade, e a produtividade é por fazermos coisas com baixo valor acrescentado, é por não estarmos nas fileiras de valor acrescentado, é por não termos tecnologia suficiente que diferencie o produto ou que acrescente valor, e que essa competitividade não seja pelo preço, porque se for pelo preço, nós vamos sempre para uma competitividade medíocre da nossa economia.

E vamos perder para outros players.

E vamos perder. E se nós não conseguirmos dar este salto, que muitas vezes tem que ser um salto quântico, nós não vamos conseguir fugir do problema que voltamos à base: baixos salários.

Claro. Mesmo para fechar, por favor.

Só para dar um exemplo aqui precisamente do que o Armindo estava a dizer. Nós, em termos dos custos de eletricidade para a indústria, até estamos abaixo da média europeia. Mas depois olhamos para os Estados Unidos e para a China e o nosso custo é duas a três vezes o custo deles.

Que é uma diferença absolutamente brutal.

Juntamos a isto médias de licenciamento de um data center nos Estados Unidos de 24 meses, comparado com 48 meses na Europa.

Acabou.

Para um investidor que olha para o mundo

As contas que isso representam, claro, em termos financeiros depois.

Exatamente.

Não há milagres. Mesmo, Hermano, para fechar.

Só também para fechar, mais uma vez, voltar ao ponto fundamental que é: acelerar tempos de decisão não implica reduzir a exigência. Nós temos países como, por exemplo, a Noruega, países nórdicos, altamente exigentes, que têm 50 vezes mais, por exemplo, os níveis de aquacultura face à costa que têm do que nós. Portanto, ambos temos ótimas condições.

Claro.

Por que aqui não temos o investimento que a Noruega tem nesta área? A explicação é simples.

Claro, são as regras e a forma como a administração pública muitas vezes também as interpreta. Muito bem, agradeço aos três. Este pontapé de saída nesta segunda temporada de Transformar Portugal. Este é um podcast do Observador em parceria com a EY. Hoje falámos de indústria e do papel central que tem no desenvolvimento e futuro da economia portuguesa. No próximo episódio vamos olhar seguramente para outro setor de atividade, outra área, e teremos também, por isso, outros convidados. Obrigado e até lá.