“O Mike White pediu-nos para não sentir pressão sobre o que já tinha sido feito. Ele queria sobretudo que nos divertíssemos”, conta Sarah Catherine Hook numa mesa-redonda virtual perante imprensa, a propósito do criador, argumentista e realizador de The White Lotus. Há um subtexto nesta frase, que também existe no que Sarah afirma logo a seguir: “Tenho a certeza que muitos atores gostariam de fazer parte de The White Lotus, estou muito feliz e orgulhosa por estar aqui”. E este sentimento não existe apenas porque se trata de um dos fenómenos televisivos desta década: é porque é televisão boa que diverte, tanto para quem a vê como para quem a faz. Há muita televisão, mas não há muita assim. Porque é difícil fazer algo bom que não se leve muito a sério. Mike White conseguiu-o e prossegue na receita na terceira temporada, que se estreia em Portugal na próxima segunda-feira, dia 17, na Max.
Quando dizemos que The White Lotus não se leva muito a sério, é reconhecimento face aos méritos. Trata-se de uma mistura de géneros – comédia, drama, mistério, sátira e série-postal – sem se comprometer em ser um deles em particular ou atirar-se de cabeça para o formato Pokémon – é preciso apanhá-los a todos – algo muito típico das séries que querem ser tudo e depois são nada. Mike White não quer agradar a quem gosta muito de um daqueles géneros e procura aqui a cura; Mike White quer apenas entreter-nos. Começa logo com a apresentação das personagens, vemo-los, norte-americanos riquíssimos, a suarem estereótipos que se reconhecem a milhas, seja da ficção ou da vida real. Só que White não está a gozar com o turista norte-americano nem a metê-lo numa caixa. Nesta mesa-redonda, Sam Nivola dá uma boa explicação: “Há sempre um tema unificador em cada temporada – aqui é a espiritualidade, o budismo — mas, e podem não acreditar, esta é apenas uma série sobre a vida, sobre a banalidade neste mundo. Mas uma banalidade muito rica”. Parece simples porque é simples. Acontece que as pessoas a viver a vida em The White Lotus são milionárias. E talvez essas vidas – e respetivos problemas – pareçam bem diferentes dos nossos. Contudo, não sentimos qualquer distância ou inveja. Pelo contrário, sentimo-nos próximos, vemos aquele “viver a vida” como algo normal, ainda que luxuoso e requintado.
[o trailer da terceira temporada de “The White Lotus”:]
Depois do Havai e da Sicília, Mike White move a máquina The White Lotus para uma ilha tailandesa. Sarah e Sam são dois dos três irmãos da família Ratliff (o outro é interpretado por Patrick Schwarzenegger), acompanhados pelos pais, interpretados por Jason Isaacs e Parker Posey. Piper (Sarah) é o motivo pelo qual estão todos ali: ela está a fazer um doutoramento em volta de religião e quer conhecer um monge que tem um mosteiro naquela ilha. A família não se importa com as férias, mas não está particularmente entusiasmado com o destino. Nunca se perde uma oportunidade para lembrar o que os trouxe até à Tailândia: as “espiritualices” da mana.
Esta temporada é a mais longa das três: oito episódios que chegarão ao ritmo de um por semana. A série está mais lenta do que as anteriores, demora mais tempo a arrancar. Parte disso deve-se às mudanças que Mike White fez na fórmula: apesar de se manterem as personagens que servem de estereótipos, elas não seguem o mesmo padrão da primeira e da segunda temporadas. Havia sempre uma âncora, aqui não há. Todos os grupos de personagens têm o mesmo peso e a mesma medida. Isto talvez justifique o arranque lento, até porque a partir do quarto episódio as coisas são mais “normais”, mais dentro do terreno The White Lotus. Dito isto, descansemos todos: em The White Lotus tem havido sempre sempre um crime e desta vez também há.
Quem são os hóspedes que visitam a Tailândia? Além dos Ratliff, há um grupo de três amigas de infância, Kate (Leslie Bibb), Laurie (Carrie Coon) e Jaclyn (Michelle Monaghan), um grupo normal não fosse Jaclyn uma atriz de sucesso e as outras duas as amigas com um piquinho de inveja; e Rick (Walton Goggins) e Chelsea (Aimee Lou Wood), um tipo meio suspeito que está a viajar com a namorada muito mais nova. Mas eis o twist: Chelsea é bem mais esperta do que a típica namoradinha mais nova destes estereótipos. E isso faz dela uma das personagens mais ricas desta terceira temporada. Há mais personagens, mas falar delas implica mencionar alguns regressos. Vamos deixar essa descoberta para o espectador.
▲ Esta temporada é a mais longa das três: oito episódios que chegarão ao ritmo de um por semana
A pergunta que impera: consegue The White Lotus viver sem Jennifer Coolidge e a sua Tanya (personagem presente nas duas temporadas anteriores)? Consegue. Até porque Mike White encontrou outra Tanya em Parker Posey, a mãe Ratliff. Victoria é uma mulher do sul dos EUA – como Parker – e carrega com todos os dramas a que estamos habituados neste tipo de personagem endinheirada. E é isso que, a dado momento, perguntamos a Parker Posey nesta mini conversa virtual: qual é a coisa mais The White Lotus da sua personagem? “Ela poderia estar em qualquer hotel, em qualquer local do mundo, e isso não faria qualquer diferença. Ela está no topo do luxo, aliás já ultrapassou isso. É mimada, sabe pegar no telefone e pedir o que quer, o que é algo muito The White Lotus. Foi educada assim, não conhece limites. Já nada a deixa satisfeita. E cria drama onde não precisa de existir drama. Gosto disso nela, é muito sulista fazer grandes cenas à volta de coisa nenhuma.”
Por mais mimada que seja, a Victoria de Posey parece carregar, como a Tanya de Coolidge, o inexistente peso de um mundo que só existe na cabeça destas personagens. Ao ponto de acreditarmos nele. A certa altura, Victoria diz que quer morrer se ficar pobre, porque não sabe viver de outra forma e já viveu o suficiente para aprender. Há muita comédia naquele momento, mas também uma tristeza com a qual é complicado lidar. Rimo-nos e, em simultâneo, ficamos apreensivos sobre o que está para vir. É essa a magia de The White Lotus: faz-nos preocupar com o impreocupável enquanto vemos os outros de férias.