Será que temos pedalada para Alex Kapranos? É esta a pergunta que qualquer pessoa de 15 anos faz antes de ir a um concerto dos Franz Ferdinand. Claro que os que estão acima dos 30 nem se atrevem a sacar da interrogação. Porque Kapranos joga-se como poucos. Está nos 52 e foi pai, o que, imagine-se, considera “refrescante”. Veio à Aula Magna não como um catedrático esfalfado, mas com a leveza de um candidato a um estágio. E com o atrevimento também.
Human Fear, o título do novo álbum, é um bom conceito, assente num dos mais próximos dos sentimentos e na possibilidade de o superar, realizado com o lume do talento da banda – único. Há algo que se sente ao ouvir os Franz Ferdinand e que só se consegue topar nas melhores agremiações do indie pop-rock. Uma ideia de facilidade. A compor e a tocar. Há algo de beatlesco nos Franz Ferdinand — e isso pôde novamente ser comprovado esta sexta-feira à noite. O dom para a canção espalhou-se num alinhamento que se centrou no último álbum, mas que trouxe aqueles hits que os cidadãos da loja pediam, de senha imaginária na mão. Os amigos de Alex são muitos e têm idades variadas.
Antes do concerto, conversava com um amigo sobre uma certa ingratidão, notada aqui e ali nalgumas prosas indie chic, na receção ao novo álbum. E chegámos à conclusão de que se o novo álbum dos Ferdinand fosse o primeiro de uma banda que está aí a aparecer seria saudado com se fosse um champanhe refinadíssimo, a merecer prosas transbordantes de semiótica, prémios sobre uma misturada entre inovação e citação. Troféus com um cruzamento de merecimento e deslumbre. Porque nem tudo é fabuloso em Human Fear. Mas há muita qualidade na montra.
▲ No seu ambiente ao mesmo tempo cool e ansioso, o concerto anunciava-se como festa, confirmando-se que o mundo, em 2025, está a precisar de comunitária celebração
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
Vamos (mesmo) ao concerto – que, no seu ambiente ao mesmo tempo cool e ansioso, se anunciava como festa, confirmando-se que o mundo, em 2025, está a precisar de comunitária celebração (o editorial do número de Fevereiro da Les Inrockuptibles, “Hymnes à la joie”, fala disso). A banda trazia como missão a de apresentar o novo disco, sim, com uma formação que inclui o dotado guitarrista Dino Bardot e a vigorosa baterista Audrey Tait. Álbum covidianamente adiado – como referiu Kapranos numa belíssima conversa com Tim Burgess, dos Charlatans, no seu programa mais do que recomendável.
Tudo começou a meio tom com The Doctor, terceira canção de The Human Fear, com os seus órgãos a convidar ao ziguezague da dança. A letra é bastante boa e apela a um pedido de um doente para não ter alta:
“I’ve become accustomed
To this level of attention
I have nurses I can talk to
And thermometers to hold”
Quem nunca? Os fãs – e todos os fãs têm um lado de paciente – não reagiram grandemente, como se não conhecessem ou não valorizassem o que estavam a ouvir. A segunda foi um saltito até 2004 com o – aí já entusiasmante para a vontade de abanar das pessoas – The Dark of the Matinée. Lá à frente, um notório devoto que trazia vestida uma T-shirt dos Teenage Fanclub era um dos mais embalados da noite.
▲ Não há Alex sem aquela dose de ironia que nunca chega a ser cínica. Ele sabe que o emprego do cinismo já tem muita gente no quadro
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
Regresso ao álbum-novidade, com a singela Night or Day. E, outra vez, uma volta de carro pelos inícios – desta vez pelo segundo álbum, com Walk Away, provocando o primeiro pico, com várias vozes no público a cantar, em modo melancólico. Logo a seguir, a estreia, nas atuações ao vivo, de Cats – um pequeno falhanço nos acordes e a referência trouxe aquela comoção da exclusividade. Também tivemos um instante Tonight, de 2009, com No You Girls. Mais à frente, sempre no campeonato do passado, foram convocadas, por exemplo, Do You Want To, Evil Eye e Michael (muito bem tocada e interpretada). Claro, claro que o momento mais elevado foi o indie-funk de Take Me Out. Minto. Ou estou a ser pouco rigoroso. A última da lista, This Fire, perdoem-me a brincadeira, incendiou a sala. A máxima libertação que estava pronta para acontecer.
Houve mais seis temas do último (entre elas, o “à grega” Black Eyelashes – apelando às raízes kapranianas – e o barulhento The Birds), recebidos com moderação. Alguma dela, diga-se, injustificada. O discotequeiro Hooked é muito bem sacado. Já no encore, Audacious, com uma fragância a Divine Comedy, é incrível, na forma e na letra, a apelar à necessidade de convocar a bonomia até nas reuniões de condomínio. Ah, sim, sabemos, não há Alex sem aquela dose de ironia que nunca chega a ser cínica. Ele sabe que o emprego do cinismo já tem muita gente no quadro.