Cameron Winter não tem uma entrada na Wikipedia – os Geese, a sua banda desde 2016, onde canta e toca teclas, esses têm, mas ele não, o que é demonstrativo do grau de obscuridade do compositor ou, pelo menos, do pouco interesse que ele tem gerado entre os melómanos que são editores da maior enciclopédia online.

Pensemos nisto: há espécies raras de caracóis, das quais já só restam três representantes, que têm longas entradas na enciclopédia popular da internet; moedas que não são usadas há séculos têm direito a descrições enormes; e Cameron Winter? Nada, népia, nem uma palavra, o que é no mínimo injusto. Tudo isso mudará certamente em breve – não no que diz respeito às espécies de caracóis em extinção, mas em relação a Cameron – porque Heavy Metal, o disco de estreia recentemente lançado (que é como quem diz “em dezembro do ano passado”), é tão bom que será inevitável que o nome do bardo se espalhe de boca em boca até chegar às pontas dos dedos de um editor da enciclopédia.

Os Geese, apesar de serem uma banda de indie-rock bastante engraçada (e avariada), com particular destaque para 3D Country, o último disco (de 2023), cheio de coros e pinta, não eram isto – não atingiam este grau de beleza, nem enveredavam por este tipo de folk psicadélica em que nunca se sabe o que vai acontecer. Já havia uns laivos disto no disco supra mencionado, mas Heavy Metal é outro campeonato.

[o álbum “Heavy Metal”, na íntegra no Spotify:]

A tese de que Heavy Metal é um dos grandes discos dos últimos tempos não precisa de muito mais argumentos do que um par de canções do álbum, como por exemplo Nausicaä (Love will be revealed) , que nos presenteia um belo refrão e vai lentamente adquirindo tonalidades soul, em particular com os metais que vão aparecendo; ou a excecional Love Takes Miles, com a voz bêbeda, o piano quebrado, os metais ao fundo e uma segunda parte brilhante, com metais e mais não sei quantos instrumentos ao barulho, a criarem uma espécie de sensação de voo.

Uma publicação (a Line of Best Fit) escreveu, a propósito de Heavy Metal, que “desta vez Cameron Winter não está a brincar”, uma frase curiosa de aplicar a um rapaz de 22 anos que diz não ter medo de viver com os pais – o que interpreto como querendo dizer que não tem receio de perder tudo. Esse sentimento de risco sente-se em Heavy Metal, no sentido em que é claramente um disco feito exatamente como o seu autor quis – são canções, certo, mas são canções esquisitas, que não parecem conformar-se com os padrões convencionais do que deve ser uma canção. Cancer of the skull, por exemplo, sendo lindíssima, parece durante bastante tempo não ir a lado nenhum, só uma guitarra dedilhada e Cameron a cantarolar como se tivesse acabado de acordar, ainda de ressaca e após uma noite em que fumou toda a plantação de tabaco do Wisconsin. E depois, ao fim de mais de dois minutos, do nada vem uma melodia perfeita e sopros e pianos e que coisa mais linda.

[“Love Takes Miles”:]

Mas a razão pela qual a Line of Best Fit resolveu declarar que “desta vez Cameron Winter não está a brincar” é porque é o próprio Cameron a dizê-lo – em $0 quando desata a cantar, cada vez mais alto:

God is real, God is real
I’m not kidding, God is actually real
I’m not kidding, God is actually real
I’m not kidding this time
I think God is actually for real
God is real, God is actually real
God is real, I wouldn’t joke about this
I’m not kidding this time…”

E quando lhe perguntam se ele está a brincar, ele responde: “Leiam as letras. Eu literalmente digo que não estou a brincar”.

[“$0”:]

Não, Cameron Winter não está a brincar. Quer dizer, não sabemos – ele não tem particular interesse em elucidar as pessoas a seu respeito, muito menos sobre a música que faz. Supostamente o disco foi criado enquanto o rapaz lutava contra o vício em anfetaminas; supostamente o disco foi sendo composto e gravado nas lojas Guitar Centers – e supostamente ele foi banido para sempre das lojas, possivelmente porque a ideia da cadeia é que as pessoas comprem instrumentos, não que os usem para compor e gravar discos dentro das lojas.

Também é muito possível – a acreditar no que ele diz em entrevistas – que ele ande a tomar anti-depressivos, o que indicaria que está deprimido; ele admite explicitamente que viveu um período muito depressivo durante a gravação do disco e por mais que goste de trocar as voltas aos entrevistadores, julgo que não mentiria a este respeito. Não parece ter sido fácil: tocava uma canção ao piano, depois deitava-se com a cabeça enfiada entre almofadas, depois ia gravar um xilofone por cima do piano, voltava a deitar-se com a cabeça enfiada entre almofadas, gravava novo instrumento e assim sucessivamente, o que terá sido penoso para alguém deprimido (e que usa tantos instrumentos no disco).

Aliás, Heavy Metal tem um lado de libertação, o que poderá fazer sentido: alguém deprimido que procura escapar na música, desaparecer na música – e Heavy Metal lembra por vezes Astral Weeks, de Van Morrison, na forma como quem canta parece quase perder controlo e diluir-se na própria canção. Por vezes, como em Drinking Age, uma canção ao piano, lembra um pouco Rufus Wainwright – em parte isso deve-se à voz de Cameron, que além de poderosa tem aquele timbre de bêbedo que tanto o velho Van como Rufus também possuem. Os arranjos de cordas da canção ajudam à comparação com Wainwright, que também gosta de misturar cordas com violinos.

[“Drinking Age”:]

Ao NME, Winter disse que foi aconselhado a adiar a estreia a solo – na sua opinião porque as pessoas esperam que um tipo se lance a solo quando a sua banda já não vai a lado nenhum, não aos 22 anos. Mas ele andava a compor estas canções há muito tempo, ao lado das que compunha para os Geese – até que percebeu que queria que elas não soassem a Geese, o que inevitavelmente redundou num disco a solo. A outra razão que ele aponta para se lançar a solo? Ego e vaidade.

Uma vez tomada a decisão de que seriam canções a solo algumas questões musicais responderam-se a si mesmas: sempre que possível, ele evitaria ter bateria nas canções, sempre que possível, evitaria ter guitarra elétrica nas canções – e isto, diz ele, acabou por levá-lo a lugares mais estranhos do que aqueles que normalmente percorre com a sua banda. Há que reconhecer que tem razão.

Levou-o até a lugares mais estranhos do que os seus heróis Dylan e Cohen – ele tem uma obsessão por Teachers, de Leonard Cohen, e diz que nunca seria capaz de escrever uma canção assim. OK, amigo, mas escreveste Nausicaä (Love will be revealed), que é maravilhosa. Ele não quer, já agora, que romantizem o facto de ele ter estado deprimido a compor e gravar o disco, e foge da imagem do poeta torturado que acaba por criar uma obra-prima graças ao seu sofrimento. A dor, diz ele, não tem piada nenhuma.

Não romantizemos então a dor pela qual Winter passou. Mas não deixemos de assinalar o quão estranho e belo e fora deste mundo Heavy Metal é. Parece quase impossível que um disco tão denso e pesado possa ter sido escrito por um miúdo de 22 anos – com um vozeirão que custa a acreditar.

Aposto que neste verão já o veremos a entrar no circuito de festivais, mesmo que este seja um disco difícil de reproduzir ao vivo porque tem uma enorme panóplia de instrumentos; mas é álbum de crescimento lento e o seu reconhecimento aumentará ano após ano: dentro de 10 anos, haverá textos de jornal a celebrar Heavy Metal. Mas não é preciso esperar tanto tempo – podemos adorá-lo já hoje.