Há muitas formas de se avaliar o impacto que um músico teve: os discos que vendeu, a dimensão das salas que encheu, a grandeza dos nomes com quem tocou, a quantidade de músicos mais novos que o citam como influência, isto para não mencionar algo ainda mais subjetivo como a qualidade da música. Mas se dissermos que Everybody Loves the Sunshine (1976) — talvez a canção mais conhecida de Roy Ayrers — foi samplada mais de 200 vezes, entre elas por gente como Dr Dre ou Mary J Blige, e alvo de dezenas de versões (com gente como D’Angelo a não resistir a tentar à sua maneira), talvez isso nos dê uma noção da sua dimensão: eventualmente, Ayers não será um nome tremendamente conhecido do grande público, mas era um gigante entre os seus pares. Morreu a 4 de março, aos 84 anos, deixando-nos um magnífico reportório em seu nome.

Dos Velvet Underground costumava dizer-se que foram ouvidos por poucos enquanto existiram, mas que todos os que os ouviram correram a criar uma banda. E o mesmo se pode aplicar a Ayers: não sendo o mais famoso dos músicos de jazz, para mais dominando um instrumento pouco mainstream como o vibrafone, criou uma voz única e foi por essa voz que gerações subsequentes se enamoraram e que ajudou os músicos que vieram a seguir a experimentarem outros caminhos, fosse no jazz, na soul, no hip-hop, no R&B ou em qualquer género de fusão com raiz na música negra.

Não é por acaso que lhe chamaram tanto padrinho da neo-soul como do jazz-funk: Ayers tinha um talento inato para a mistura de géneros, em particular de jazz, funk, R&B e soul, o que serviu de matriz mais tarde para a mencionada neo-soul, praticada por gente como Erykah Badu, D’Angelo, Jill Scott e Maxwell, que se inspiraram nas suas melodias relaxadas (ou sensuais, fica à escolha) e na sua escolha de instrumentação (a malta da neo-soul preferia instrumentos reais a beats).

[“Love Will Bring Us Back Toghether” ao vivo:]

Pegue-se em meia-dúzia de canções de Ayers ao calhas e é absurda a dimensão do território musical coberto:  Love Will Bring Us Back Together (de Fever, 1979) é super funky, com palmas e clavichord, gingona como tudo; Searching, de Vibrations (1976), é muito mais lenta, planante, com um groove soul fundo, toda cetim e sedas e atmosfera cheia de fumo; Running Away, de Lifeline (1977), é muito mais dançável, muito graças à guitarra e à linha de baixo que se assemelha a um surto de sarna: não há maneira de nos livrarmos dela; enquanto We Live in Brooklyn, Baby, de He’s Coming (1972), é muito mais escura, quase cinemática (à conta do excecional arranjo de cordas) e procura traçar um retrato social da época, tornando-a uma canção mais pesada do que o habitual em Ayers.

O trajeto de uma canção na cultura popular é sempre difícil de prever, mas graças aos samples conseguimos ter uma ideia de em que foz as canções de Ayers desaguaram: We Live in Brooklyn, Baby foi samplada por Mos Def; Running Away foi usada por gente tão diferente e notável como os Jungle Brothers e Common; a estrutura de Bonita Applebum, o mega-êxito dos A Tribe Called Quest no início da década de 1990, assenta num sample de Searching, dando um apelo romântico e suave ao tema. Todos estes artistas são suficientemente diferentes entre si e trabalharam em géneros e eras tão diferentes que a conclusão é só uma: a música de Roy Ayers chegou a muitos lados durante muito tempo.

[“Vibrations” ao vivo:]

Mas o seu impacto não se ficou pelos rappers e produtores do século passado: já no século XXI os Sa-Ra, experimentadores de todos os derivados R&B e funk e soul, apontavam Ayers como um dos pilares do seu som; em 2015, Ayers fez uma aparição especial em Find Your Wings, do grande Tyler, the Creator; dois anos depois tocou no Camp Flog Gnaw festival, organizado pelo rapper, que o adorava.

Nada neste percurso seria de prever quando, em 1945, a mãe de Roy decidiu levar o filho a um concerto da Lionel Hampton Big Band. Mas o entusiasmo do rapaz foi de tal monta que no final do concerto o próprio Hampton lhe ofereceu ali mesmo as suas primeiras baquetas de vibrafone – o rapaz tinha então meros cinco anos, pelo que se pode dizer que quase nasceu de baqueta na mão.

Talvez a reação do garoto não tenha sido assim tão surpreendente: o pai tocava trombone e a mãe piano – nas suas entrevistas ele sempre destacou o facto de ter crescido rodeado de música como o grande motor do seu amor pela dita arte. O facto de ter crescido em South Park, em Los Angeles, que funcionava como o epicentro da música negra feita na Califórnia, também não há de ter prejudicado a viagem musical de Ayers.

[“We Live In Brooklyn, Baby”:]

Autodidata de imenso potencial, no liceu já tocava vários instrumentos, como o piano ou a guitarra (em particular a steel-guitar, que é difícil de dominar), ao mesmo tempo que cantava em coros e formava bandas. Mas Ayers não se ficou pelo autodidatismo: aos 17 entregou-se finalmente ao vibrafone e inscreveu-se na Los Angeles City College por forma a estudar Teoria Musical Avançada. Por norma, equivalemos a academia a escassa criatividade – no caso de Ayers, deu-se o oposto: quanto mais música aprendeu formalmente, mais liberdade sentiu para não cumprir regras e, como consequência, experimentar.

Em breve envolver-se-ia com a cena jazz local e no início dos anos 60 deu um passo rumo à, por assim dizer, profissionalização, quando tocou num disco do saxofonista Curtis Amy. A sua grande oportunidade surgiu poucos anos depois, quando se juntou à banda de Herbie Mann, o que lhe trouxe muito maior exposição na cena jazz e funk. A exposição tem as suas vantagens: faz-nos conhecer mais obra, mais artistas e, eventualmente, pode trazer-nos confiança: e foi assim que no início da década de 1970 criou o seu grupo, o Roy Ayers Ubiquity, em que começou a experimentar a sua fórmula única de misturar jazz, funk, soul e R&B.

Julgo ser razoavelmente consensual que o corpo fundamental da sua produção se encontra nos anos 70. Everybody Loves the Sunshine (de 1976) é, talvez, o seu disco mais conhecido e considerado como uma obra-prima de jazz-funk; Vibrations, do mesmo ano, é admirado pelos seus grooves; um ano antes, Mystic Voyage encontrava Ayers a incorporar disco na sua música; You Send Me, de 1978, atira-se de cabeça ao R&B, e está cheio das baladas suaves que se tornaram uma das suas imagens de marca.

[“Liquid Love”:]

Pessoalmente (já que ninguém perguntou), tenho preferência por uma gravação à margem da discografia principal: Virgin Ubiquity II é uma compilação de material nunca antes lançado por Ayers (gravado entre 19876 e 1981) e é espantoso que um músico se possa dar ao luxo de nunca editar canções como I Am Your Mind (Part 2), porque aquelas cordas e aquele groove e aqueles coros e toda aquela pinta mereciam ter sido um êxito desmesurado; Liquid Love, com o seu ritmo relaxadão e a melodia de clavichord, é talvez a minha canção preferida de Roy Ayers – e uma das minhas canções preferidas de todo o sempre.

Dizem que as pessoas só morrem quando morre a última pessoa que as ama – os músicos ainda veem esse prazo ser estendido: eles só morrem quando morrer a última pessoa que ama a sua música. E com alguma sorte algorítmica é muito possível que Roy Ayers permaneça entre nós, seja através das suas canções ou dos samples feitos sobre a sua obra, durante muitos e bons anos.