Numa das suas últimas entrevistas, dada à revista Quatro Cinco Um poucos meses antes de morrer, Adília Lopes (1960-2024) resumia a sua escrita da seguinte forma: “A minha poesia é uma epopeia da vida menor. Não é a descoberta do caminho marítimo para a Índia. É o caminho do corredor de minha casa entre a sala onde escrevo e leio e a cozinha. É doméstica. É feminina.”

A entrevista foi publicada em setembro de 2024, por ocasião do lançamento de Dobra no Brasil, na mesma altura em que saía em Portugal a quarta edição da obra completa de Adília, revista ainda pela própria autora – e tão bem resumida nessas frases. Com um título sugestivo que remete para a continuidade de Obra, publicada em 2000 pela Mariposa Azual, este volume definitivo, editado pela Assírio & Alvim, condensa 36 livros de poesia escritos ao longo de 40 anos, desde Um Jogo Bastante Perigoso – publicado em 1985 numa edição de autor –, ao mais recente Choupos, de 2023. Pequenos livros publicados, muitos deles, em pequenas editoras (e também um par de inéditos), e que somados dão mil páginas – tantas delas para dobrar no canto.

Nasci em Portugal
não me chamo Adília

Sou uma personagem
de ficção científica
escrevo para me casar”

— Adília Lopes, Clube da Poetisa Morta, 1997 (p.291) —

Nascida em Lisboa, em 1960, com o nome Maria José da Silva Viana Fidalgo de Oliveira, Adília Lopes começou a escrever poemas com 10 ou 11 anos, a confiar no que a própria diz em Dias e Dias (2020): “Voltava da escola no segundo andar do autocarro da Carris e apetecia-me escrever sobre o que via” (p.953). Tirou-os da gaveta no primeiro Anuário de Poetas não Publicados da Assírio & Alvim, em 1984, altura em que já tinha trocado a Física pela licenciatura em Literatura e Linguística Portuguesa e Francesa, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, não se tornando cientista como a mãe. “Escrever um poema / é como apanhar um peixe / com as mãos”, diz no primeiro livro (p.12). Muito anos mais tarde, cada vez mais em prosa e cada vez mais desperta para a beleza das coisas simples que a rodeiam, acrescenta: “Gostava que os meus poemas fossem pardos, modestos, pequenos, lisboetas como os pardais e que tivessem o som do piar dos pardais” (Pardais, 2022).


Título: “Dobra – Poesia Reunida (1983-2023)”
Autora: Adília Lopes
Edição: Assírio & Alvim 
Páginas: 1056

A proximidade dos assuntos que escolheu retratar valeu-lhe vários rótulos: a poeta-pop, a poeta-mulher-a-dias (título de um dos seus livros), a poeta dos tops. Mas Adília não cabe em nenhum deles. Dona de um humor requintado, tantas vezes usado consigo própria, elevou o doméstico à dimensão de poesia – uma poesia livre, poderosa e perigosa, como chega a escrever:

Diderot tinha-me prevenido
não leia versos
os versos podem ser perigosos como o fogo
leia romances policiais”

— Adília Lopes, O Poeta de Pondichéry, 1986 (p.50) —

Com citações de outros escritores ou em diálogo com as suas obras – de Fernando Pessoa a Nuno Bragança, Enid Blyton a Sophia de Mello Breyner Andresen, Clarice Lispector a Maria Teresa Horta, Agustina a Proust –, os seus poemas são cultos, mas também feitos de sabedoria popular, observações quotidianas, coisas que ouviu, que leu ou que recorda, e que transmite com uma franqueza desarmante. No meio de tantas leituras, a passagem que Adília escolheu como epígrafe para a sua obra completa, retirada do livro Menina e Moça, de Bernardim Ribeiro, não é inocente: “e mais, pois é conto de mulher, / não pode deixar de ser triste”.

E é esta ideia de sofrimento feminino, que se desdobra em poemas povoados de raparigas, meninas, mulheres, tias, freiras, mães, avós, criadas e bonecas, na primeira e na terceira pessoa, que constitui uma das marcas mais importantes da obra de Adília Lopes. Outra é o uso da ironia para salvar desse mesmo sofrimento, e até da crueldade, segundo têm escrito alguns “adilianos” como Rosa Maria Martelo.

A rapariga que esperava muito
as cartas do namorado
que lhe escrevia muito pouco
casou-se com o carteiro”
— Adília Lopes, A Pão e Água de Colónia, 1987 (p.66) —

À medida que a Dobra avança, torna-se também cada vez mais evidente a dimensão autobiográfica e confessional desta poesia, a ponto de o pseudónimo Adília Lopes se confundir com o nome e a pessoa civil Maria José da Silva Viana Fidalgo de Oliveira, de quem são partilhadas fotografias de infância ou da casa de família onde a autora morou toda a vida, em Lisboa, e sobre a qual tanto escreveu, com vista para os choupos – os que dão título ao último livro – e rodeada de gatos e de objetos antigos.

os meus gatos
gostam de brincar
com as minhas baratas”
— “Autobiografia sumária de Adília Lopes”, A Pão e Água de Colónia, 1987 (p.71) —

E agora a casa ficou silenciosa. Ecoam ainda e sempre os poemas. E os pardais.

Os poemas trouxeram-me
até aqui
barquinhos de papel”
— Adília Lopes, Carinho, 2021 (p.969)