No caso dos jogadores, o problema tem sempre solução. No passado, ter homónimos no plantel era resolvido da forma mais simples possível com a aplicação de I e II (exemplo: o Sporting chegou a ter João Luís I, que era lateral direito, e João Luís II, avançado). Agora, acrescenta-se apenas um nome pelo meio (exemplo: o V. Guimarães tem agora João Miguel Mendes, lateral esquerdo, e João Sabino Mendes, médio ofensivo). Já na parte dos treinadores, não há volta a dar. Assim, e depois de Portugal ter um Luís Castro a brilhar lá fora entre Shakhtar, Botafogo e Al Nassr – neste caso num plano mais mediático mas com menos sucesso –, agora há “outro” Luís Castro em destaque em França. “Outro” que, aos 44 anos, já tem várias experiências.

Depois de ter começado nos juniores do Moreirense, o técnico passou pela Associação de Futebol de Braga, pelo Vizela, pelos sauditas do Al Nassr (em 2011/12, quando liderou a equipa Sub-15) e pelo V. Guimarães antes de assumir funções de coordenação das camadas jovens nos minhotos e nos húngaros do Debrecen. Em 2018/19, a campanha pelos Sub-23 dos vitorianos fez com que tivesse a primeira experiência como técnico principal de um conjunto sénior mas acabou por deixar cedo os gregos do Panetolikos. Próxima paragem? Benfica. Nos juniores, na equipa B, nos Sub-23. Após várias tentativas, foi com Luís Castro que a formação encarnada ganhou a primeira Youth League, vencendo depois a Taça Intercontinental Sub-20. O mais “fácil” depois desses dois patamares era esperar por uma oportunidade mais acima. O treinador preferiu arriscar.

Acreditando no projeto apresentado pelos franceses do Dunkerque, Luís Castro rumou à Ligue 2 para mais uma equipa sénior. Na última temporada, entre muitas dificuldades, conseguiu garantir a permanência com o 16.º lugar; na presente época, está a ser um dos principais destaques das divisões profissionais gaulesas, ocupando a quinta posição perto dos postos de subida e brilhando com uma campanha como não se via na Taça há quase um século: sempre na condição de visitante, a formação do treinador português foi eliminando equipas como Auxerre, Lille e Brest até às meias-finais. Agora, seguia-se o todo poderoso PSG.

“Nos últimos anos, era um clube de terceira, quarta divisão. Foi comprado pelo grupo Amissos, que tem o Samsunspor e o Dunkerque neste momento. O objetivo foi torná-lo um clube de Segunda Liga mais sustentado, que se conseguisse manter e que fosse crescendo, visto que nos últimos 20 anos só esteve duas vezes na Segunda Liga. O grupo adquiriu o clube e quem ficou a tomar conta da parte desportiva foi a Demba Ba, o ponta de lança que jogou no Newcastle e no Chelsea. Foi a partir do Demba que o clube entrou em contacto comigo, com o objetivo de criar uma forma de jogar diferente, de tornar o clube mais forte. Na época passada, o objetivo era a manutenção, quando cheguei o clube estava na metade inferior da tabela. Na segunda parte, fizemos uma segunda volta extraordinária. A probabilidade de nos mantermos na Liga, em termos das casas apostas, era 2% e fomos a terceira melhor equipa na segunda volta. No verão, contratámos penso que 16 jogadores, mudámos o plantel e o perfil do jogador. Esta época está a correr acima da expectativas e daquilo que é o orçamento do clube”, explicou numa entrevista recente ao Mais Futebol.

Em paralelo, Luís Castro teria também a oportunidade de rever dois dos melhores jogadores com quem foi trabalhando na formação do Benfica, João Neves e Gonçalo Ramos, algo que Luis Enrique desconhecia. “Conheço o Luís Castro mas não sabia que ele tinha sido treinador do Gonçalo Ramos e do João Neves. Vou falar sobre isso com eles e ver se eles me podem ajudar… Analisámos bem o Dunkerque, eles venceram três equipas da Primeira Divisão francesa. Gosto do estilo de jogo do Dunkerque”, admitira. Mais do que gostar ou não, o espanhol foi surpreendido por esse estilo de jogo. Foi surpreendido na bola parada, foi surpreendido no jogo direto, foi surpreendido pela organização defensiva que nunca descurava as saídas rápidas. Não foi por acaso que, com 45 minutos de jogo, a formação do técnico português vencia por 2-0. Depois, imperou a lei do mais forte e, quase de forma natural, o PSG garantiu a presença na final da Taça.

Como seria de esperar, todo o jogo passou pelos pés dos jogadores do PSG, que em vários momentos foram mantendo uma posse acima dos 80%. No entanto, e naquilo que mais interessa, todo o efeito surpresa da equipa da casa manteve-se: na sequência de um livre lateral na esquerda do ataque, Vincent Sasso, que passou alguns anos por Portugal (Beira-Mar, Sp. Braga, Belenenses e Boavista), aproveitou um primeiro desvio de cabeça para surgir ao segundo poste e carimbar mais uma surpresa quase a mostrar que nada era impossível para o Dunkerque (7′). Nem com esse aviso tocou o despertador. Os campeões franceses foram ganhando cantos, tiveram alguns remates mesmo sem grande perigo, instalaram-se no meio-campo contrário mas a festa continuou a ser dos adeptos que viajaram em força até Lille, que festejaram o 2-0 de Muhannad Al Saad num dos lances mais simples que o futebol pode ter: passe direto na frente, primeiro desvio de cabeça e aparecimento do jogador saudita a bater Safonov e a aumentar ainda mais a surpresa (27′).

Luis Enrique olhava de forma atónita para o relvado, tendo algumas expressões de desespero como o ataque de fúria com Doué após uma falta sem necessidade ainda em zona adiantada longe da baliza. No entanto, e ainda antes do intervalo, o cenário começava a deixar de ser tão negro. Aliás, bastou Vitinha levantar uma vez a cabeça para tudo mudar, com um passe fantástico para Hakimi que assistiu Dembélé para uma “bomba” indefensável (45′). A cara de Sasso dizia tudo, com o desalento de quem percebia ser uma questão de tempo até tudo voltar à estaca inicial. Demorou três minutos: numa jogada de insistência na área, Marquinhos surgiu sozinho na área e fez o 2-2 (48′). Naatan Skyttä ainda teve uma oportunidade soberana para recolocar o Dunkerque na frente mas o jogo estava de vez nas mãos de um PSG “reforçado” por Gonçalo Ramos, com Doué a contar com um desvio à mistura num remate em zona frontal para fazer a reviravolta (62′), antes do 4-2 final por Dembélé, que seguiu sozinho desde o meio-campo até sentenciar de vez o jogo (90+3′).