No longo historial de encontros que Cannes promove entre os seus convidados de honra e acreditados (só jornalistas, andam por estas ruas 4000 pessoas), é costume poder ouvir-se com demora o homenageado com a Palma de Ouro à carreira. Tocou a glória este ano a Robert De Niro, como já aqui se deixara escrito. Habitualmente, a audiência é presenteada com uma conversa informal em jeito de panorâmica do percurso da vedeta em questão, assim aconteceu com George Lucas no ano passado e Meryl Streep no anterior.
Acontece que Robert De Niro é incomparável – e estava escrito no céu que a sua masterclass tinha de ser distinta de todas as outras. Quem esperava alguma revelação desconhecida da lenda viva que é De Niro, ou um olhar retrospetivo sobre Os Cavaleiros do Asfalto, O Caçador ou Touro Enraivecido, cedo percebeu que a conversa guinara para outro caminho. Cannes convidou para moderar a conversa o artista plástico, fotógrafo, street artist e cineasta francês JR (correalizador, com Agnès Varda, de Olhares Lugares em 2017), pessoa muito próxima do círculo familiar de De Niro desde que se instalou, aos 27 anos, em Nova Iorque.
A conversa desta quarta-feira focou-se muito mais na vida do que nos filmes. Num passado longínquo — a figura paterna — e no presente, já que o grande ator de 81 anos tem em curso com JR um projeto de documentário biográfico sobre o seu pai. Quem foi ele, perguntará o leitor?
▲ Robert De Niro e JR, esta quarta-feira, no Théâtre Debussy, em Cannes
Getty Images
Artista plástico nova-iorquino do pós-guerra, com traço no expressionismo e na pintura abstrata, Robert Henry De Niro (1922-1993) foi pai jovem, aos 21 anos, de um único filho batizado com nome quase idêntico – e tão célebre se tornou o rebento que ganhou o pai a alcunha de Bob De Niro Sr., para que os distinguissem. De Niro dedicou-lhe Um Bairro em Nova Iorque (1993), o primeiro dos dois únicos filmes que realizou.
Há três anos, De Niro levou JR ao estúdio do pai. O ator mantém esse espaço intacto, espécie de museu privado, com uma devoção de colecionador, do mesmo modo que coleciona guiões, objetos, figurinos de certas personagens que interpretou — como se não as quisesse abandonar. Em seguida, JR leu os diários de Bob De Niro Sr.: não fazia sequer ideia de que existiam.
Alguma amargura ficou entre De Niro e o pai? Algum lamento por todo o tempo que o filho, estrela no firmamento cinematográfico desde os anos 70, não terá dispensado ao progenitor? Há um pouco disto na dezena de minutos de footage do documentário que os festivaleiros puderam ver neste dia, pela primeira vez, num Théâtre Debussy a rebentar pelas costuras (e milhares ficaram de fora). Espécie de teaser do work in progress, com fotos ampliadas e aparições de Scorsese, foi recebido como um regalo. É bem notório o dedo de JR neste trabalho, vá lá saber-se quando estará pronto. A sala percebeu que paternidade rima aqui com mortalidade.
[De Niro sobre Trump, na cerimónia de abertura do festival de Cannes:]
E da morte, tem De Niro medo? “Medo tenho, mas não posso escapar dela. Então é melhor não ter medo, aprender a abraçar a vida, seguir em frente, ficar com tudo, o bom e o mau.” De Niro não sabe quando ficará o documentário pronto, se o chegará a ver em vida. “JR continuará a fazer-me perguntas quando eu estiver no caixão.” Também contou que DiCaprio está associado ao projeto. Contou JR: “Não sabemos de todo para onde vamos, nada disto está acabado.”
Cannes e De Niro têm uma riquíssima história desde Taxi Driver. Em 2011, o festival colocou-o na cadeira da presidência do júri – ganhou a Palma de Ouro o recém-regressado das calendas do olvido Terrence Malick, por A Árvore da Vida. E tanto mais havia a contar. Mas a nostalgia foi ultrapassada na curva. Depois de deixar a cerimónia de abertura com um ataque ao atual Governo americano, apoucando o seu “presidente filisteu”, depois de levar os franceses ao delírio com um discurso empolgante, concluído em “liberté, égalité, fraternité”, De Niro foi um mestre do tempo. Escolheu o passado que mais magoa, o dos seus pais: Robert Henry De Niro e Virginia Admiral. Escolheu o desconhecido que há-de vir. Escolheu, afinal, o presente – que é o tempo do cinema, o único em que os filmes contam.
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