Os olhos no fim estão esbugalhados. Os tímpanos exaustos por Kangding Ray. Ninguém estava à espera desta trip em Cannes. Melhor começar pelo princípio. Pelo momento em que aqueles tipos começam a empilhar colunas e mais colunas de som e, à volta, só há deserto. Estamos no sul de Marrocos. O que logo vem a memória, ainda os amplificadores não foram ligados, é Pink Floyd: Live at Pompeii, a trip cinematográfica que Adrien Maben rodou com os britânicos em 1971, no anfiteatro romano vazio do título.
Mas em Sirât a acústica é outra. O genérico relaciona a palavra arábica com a ponte que os humanos hão-de atravessar a caminho do paraíso. Por baixo da ponte está o inferno. Estamos, na verdade, não num concerto rock mas na antecâmara de uma rave clandestina em solo africano, em que os corpos se contorcem, estalados pelo sol, e onde toda uma nova fauna de europeus pedrados encontrou refúgio.
E depois chega “a personagem”, o ator profissional que se “esquece da profissão” e se entrega àquelas secretas criaturas, é Sergi López, que vai parar aqueles ambientes de Mad Max por outros motivos: acompanhado de um filho menor, procura a filha mais velha, de 20 anos, que ali se perdeu, pensa ele. Há meses que a filha não dá sinal de vida.
SergiLópez é a trave moral do filme e é extraordinário o que o ator espanhol faz aqui. É uma personagem com ressonâncias bíblicas, um homem posto à prova, como Job perante as pragas. Antes de chegar a um campo minado, Sirât exige-lhe um sacrifício tremendo que ninguém em Cannes vai conseguir esquecer tão cedo. E no entanto, López rechaça toda a psicologia da sua interpretação, à medida que a caravana se precipita cada vez mais no abismo.
A comunidade e a marginalidade são assuntos importantes no cinema do autor de Mimosas e O Que Arde. Figura de proa do cinema galego que se impôs internacionalmente nas últimas duas décadas, Laxecostuma procurar este tipo de tribos. Gosta de trabalhá-las alegoricamente. São mutantes sociais, fugiram à ordem. Habitam nas franjas da sociedade, da globalização e do capitalismo. O cineasta galego nunca tinha tido tantos meios de produção como aqui (Sirât envolveu na coprodução os manos Pedro e Agustín Almodóvar).
▲ Oliver Laxe na apresentação de "Sirat" em Cannes
Getty Images
A câmara do diretor de fotografia Mauro Herce filma estes corpos com uma fulgurante estranheza. Nisto, estala uma guerra qualquer, o exército marroquino decreta Estado de Sítio. Os ravers tatuados e amputados que Laxe conheceu na realidade marroquina e trouxe à Croisette piram-se deserto fora, atravessam montanhas, e ao deserto retornam já a caminho da Mauritânia, levando o pai desconsolado com eles.
O que nos espera é uma viagem ao fim da noite, a convocar outros filmes, de O Salário do Medo, de Clouzot a Zabriskie Point de Antonioni, de Sorcerer/O Comboio do Medo, de Friedkin a Gerry, de Gus Van Sant – todos eles violentos, esotéricos, danados.
Sirât é uma “after” diabólica a descer ao âmago dos homens. Bateu forte a valer. Já se percebeu: tem fogo de Palma de Ouro.