Na conferência de imprensa em que anunciou a seleção de Cannes 2025, o delegado-geral Thierry Frémaux já tinha levantado o véu sobre o aspeto que mais impressiona em Nouvelle Vague: “um filme apaixonante que ainda há pouco tempo não poderia ter sido feito desta forma. Ao passo que agora, sentimo-nos na Paris de 1959.”
Assim é, de facto. Linklater rodou em película, a preto e branco, no formato 4:3. Não se esqueceu das marcas de fim de bobine, os sinais que a película dava aos projecionistas no tempo em que o cinema era analógico. Mas o que impacta é o que está na imagem: as ruas, os carros, os cafés, tal e qual como eles eram naquela data. Nouvelle Vague é um prodígio digital acima de qualquer coisa. Tarantino já nos tinha dado o início disto em 2019 quando “decorou” como até então nunca se vira as ruas de Los Angeles do fim dos anos 60 em Era Uma Vez em… Hollywood. Ora, seis anos depois, esta imitação da vida está muito mais sofisticada.
Nouvelle Vague arranca com um Godard amuado a desviar uns francos do mealheiro dos Cahiers du Cinéma para pagar a viagem, em maio de 1959, até Cannes, chegando a tempo da estreia de Os 400 Golpes de Truffaut. Semanas depois está ele a tentar convencer “Beau Beau” (o produtor Georges de Beauregard) a abrir os cordões à bolsa para financiar a sua primeira longa-metragem, de seguida a aliciar Jean Seberg a entrar neste projeto sem rede – e o resto é história, quanto mais a conhecemos, mais prazenteiro o visionamento se torna. Não houve regra que O Acossado não tivesse quebrado. Não houve preconceito que não tivesse destruído. O cinema nunca mais seria o mesmo.
▲ Realizador e ator principal no photo call de "Nouvelle Vague"
Getty Images
Para cada pessoa que participou em O Acossado, do produtor ao diretor de fotografia Raoul Coutard, do elenco — Jean-Paul Belmondo e Jean Seberg — aos companheiros de Godard nos Cahiers — o já citado Truffaut (o argumento original de O Acossado era dele), Chabrol, Rivette, Rohmer — até ao mais modesto técnico envolvido, para todos eles, num trabalho de sapa, arranjou Linklater um sósia. Uns mais parecidos que outros. Todos se apresentam à audiência com oráculos no ecrã. A plateia vai sorrindo com o desfile.
Mas o cineasta americano foi mais longe que a aparência, escavou mais fundo: também lhes copiou as vozes com ajuda da IA. Guillaume Marbeck, que interpreta Godard e se esconde atrás dos famosos óculos escuros, não fala com a sua própria voz. No tom, no timbre, nas entoações e em tudo aquilo que lhe sai da boca, é Godard quem ouvimos. E a Paris que está em Nouvelle Vague, é a que foi fotografada e filmada na época, numa prodigiosa operação de exumação de um espaço no tempo. Linklater copiou tudo o que a tecnologia permite poder ser copiado em 2025.
E o filme existe além disso? Existe. Nos limites narrativos que se auto-impôs, na homenagem à qual não pode escapar, este estranho “Frankenstein” ganha vida própria. Não é vaidoso nem reverencial. É projeto de cinéfilo de bom gosto, com mão delicadas. Como comédia, Nouvelle Vague cumpre os requisitos, assaz divertida sem exagerar na lição de história, no pinga-amor, sem exagerar, sobretudo, na caricatura das emoções (Hazanavicius escorregou nessa casca de banana e estatelou-se em Le redoutable/Godard, o Temível).
Também há momentos curiosos como aquele em que Godard, a meio dos trabalhos de O Acossado, se cruza no metro com Robert Bresson e vai saudar o mestre, estava este em plena rodagem de Pickpocket com o ator Martin LaSalle a ser treinado por um verdadeiro carteirista. Duvida-se que o tom de conversa e tratamento entre Godard e Bresson tivesse aquela coloquialidade, mas caramba, o atrevimento de Linklater é de monta, que alguma liberdade lhe seja permitida.
Dito isto, que fique escrito também: Nouvelle Vague é um palimpsesto. Uma câmara de eco. Um falso “making of”, realizado 65 anos depois. Não é filme de revoluções.