Fuori é um retrato de Goliarda Sapienza. Retratar uma figura assim, poliédrica, complexa, tem que se lhe diga, convém evitar a todo o custo a noção de filme biográfico. Porque a história da escritora celebrada pelo romance A Arte da Alegria (ed. portuguesa da Dom Quixote) é longa desde o seu berço siciliano, envolve fascismo, anarquismo e sindicatos, teatro e cinema (foi atriz e mulher de cineasta), furtos, pequenos delitos, condenações e penas cumpridas, toxicodependência e terrorismo de pequeno calibre. Mario Martone não tem qualquer intenção de circunscrever toda essa história. Digamos que lhe pede emprestada uma fatia do bolo, um segmento intenso.
Em Fuori, Sapienza é interpretada por Valeria Golino. Estamos na Roma de 1980, ela acabou de sair da prisão por roubar joias a uma pessoa conhecida. Nisto entra em contacto com Roberta (Matilda De Angelis, fenomenal), um vulcão de vida inspirado em mulheres que, de facto, Sapienza conheceu, encontros que vêm de duas outras obras suas, L’università di Rebibbia e Le certezze del dubbio.
Num abastardamento galopante desta profissão, certos “críticos” em Cannes com responsabilidades editoriais em revistas anglo-saxónicas de relevo, escrevem que Roberta é a jovem amiga de Goliarda, que são ex-companheiras de cela, por aí fora, sem entenderem que Goliarda e Roberta são, tão-só, autora e personagem no mesmo ecrã, realidade e fantasma, e que é literária, acima de tudo, a complexíssima relação de dependência afetiva entre elas – uma relação de criadora-criatura.
[o trailer de “Fuori”:]
Roberta é um turbilhão de desejos na força dos seus vinte anos, espelho emocional, silhueta da juventude de Sapienza. Aqui entram a amizade. O amor. A atração erótica. Mas também uma dimensão mãe-filha, incestuosa. São passionais, eróticos, necessariamente confusos os sentimentos exaltados entre a Goliarda já mulher madura e Roberta, jovem rebelde e junkie.
E se a autobiografia de Sapienza em A Arte da Alegria é um “organismo vivo”, imaginário, que se regenera, se a sua escrita – como nos disse Mario Martone esta tarde em entrevista – é uma “escrita magmática”, também o filme vai por esse caminho, fragmentário, não linear.
Na passada, convoca Martone outras coisas: uma atmosfera pasoliniana que se adequa à figura tratada no filme, pelas mulheres (Sapienza é à sua maneira uma Mamma Roma), pelas prisões, por uma atitude fora-da-lei. Na prisão, com as amigas, Sapienza rejuvenesce. O “fuori” do título vem daqui: tal como na cárcere conseguem aquelas mulheres sentir-se livres, também a sociedade em torno delas pode cá fora tornar-se uma prisão.
Martone e a coargumentista habitual dos últimos anos, sua companheira na vida, Ippolita di Majo, trouxeram a Cannes uma obra que se abandona à literatura de Goliarda Sapienza e se coloca a esse nível. É raro isso suceder com um filme. Mas sucede neste. Para o cineasta e encenador napolitano, Fuori traça também um círculo, reencontra o seu melhor, o ímpeto dos seus primeiros trabalhos dos anos 90, Morte di un matematico napoletano e L’amore molesto (coescrito com Laura Ferrante).